Coimbra, 23 de Maio de 2013
Excelentíssima Senhora Presidente da Assembleia da República, Excelentíssimos Senhores Líderes das Bancadas Parlamentares
PARTE II
(continuação)
…
Portugal à beira da catástrofe total é o quadro que as políticas económicas praticadas nestes três anos têm produzido, ou seja, um país já sem presente e possivelmente sem futuro, rico, muito rico em pobreza e pobre, muito pobre, em riqueza, pelo menos para a grandíssima parte da população. Esta é já o que não há, tem sido posta sucessivamente em saldo, aos poucos.
Um país a caminho de uma cedência quase total do seu património que levou muitas décadas a criar, um país incapaz já de reproduzir a sua própria população, um país a definhar, um país a ser transformado futuramente num asilo de velhos sem meios para viverem, ou um asilo de velhos nacionais pobres e sem meios para viver ou também de velhos estrangeiros ricos como o ministro da Economia o quer transformar, este é o horizonte que as políticas neoliberais impostas e aceites, se não mesmo desejadas pelo actual executivo, nos propõem para mais de uma a duas décadas de e no futuro.
E ainda por cima a ficarmos atolados de dívidas à medida que nos vamos desfazendo do pouco que temos, à medida igualmente em que sonhamos ir aos mercados, fingindo ignorar que essa ida é uma ficção gerida pela tutela em Frankfurt, por Draghi e pelos seus colegas do Bundesbank.
Sob tutela da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do FMI, basicamente diremos que se tem aceitado as políticas de austeridade impostas pela imperial Alemanha e enquanto tal numa sua estratégia não cooperativa do dilema do prisoneiro, do salvemo-nos nós que com os outros se verá depois.
Do dilema do prisioneiro? Expliquemo-nos um pouco. Admitamos dois amigos, A e B, que supostamente poderão ter presenciado um dado comportamento “irregular” por um terceiro C face ao poder dominante. O poder dominante não sabe se A e/ou B viram mesmo alguma coisa mas mesmo assim exige-lhes que, colocados em salas separadas, denunciem quem é o infractor, o C, e as condições postas são:
(a) se um deles, A ou B, confessar quem é o infractor esse sai altamente premiado e o outro altamente penalizado, o que nos dá duas alternativas:
i) A confessa e B não
ii) B confessa e A não;
(b) se ambos recusarem confessar, ambos serão pouquíssimo penalizados. Ambos recusarão confessar por cada um acreditar e confiar que o outro fará o mesmo e que não o trairá e que têm, portanto, um e outro, um comportamento cooperativo;
(c) se isoladamente ambos confessarem, saem também pouco penalizados. Esta hipótese acontecerá se, na verdade, cada um não confiar no outro, e aqui o facto torna-se banal e eles sairão penalizados pelo silêncio havido mas pouco penalizados. Esta quarta hipótese é a de que cada um se tenta salvar e ser premiado à custa do outro mas com o problema de que fazem os dois a mesma coisa e deixam de ser premiados.
Até se chegar o momento da decisão de informarem ou não, estes dois amigos estão pois não comunicáveis. Este é um dos mais belos dilemas na análise económica, na teoria dos jogos, na teoria da decisão e até mesmo ao nível da filosofia, desembocando por exemplo no dilema de Newcombe, mas se tivermos atentos ao nosso dia a dia reparamos que é um dilema com o qual nos confrontamos muitas vezes, todos nós. No tratamento deste dilema saliente-se, por exemplo, o Robert Axelrod, com o seu trabalho Evolution of Cooperation, de 1984.
Mas deixemos de martirizar os nossos deputados com este tipo de dilema e sobretudo colocado desta forma. Há uma forma bem mais sugestiva para a qual convido toda a gente a pensar no tema, vendo o filme O Perfume de Mulher, com Al Pacino. Dois estudantes, um rico e um pobre, vêem a montagem de uma patifaria ao director da escola altamente cotada que estes frequentam. Mas não se sabe ao certo se estes dois estudantes conhecem quem foi. Supostamente, é o que se pensa, eles sabem quem foi. Parte-se da hipótese que viram mas sem a certeza disso mesmo. Exige-se que informem quem humilhou o director. Dizem ou não dizem os dois estudantes isoladamente, duas hipóteses, diz o pobre e não diz o rico ou vice-versa, e temos as duas hipóteses restantes para o dilema do prisioneiro. E entre a exigência do director e o dia aprazado para a eventual delação, os dois estudantes ficam incomunicáveis. O dilema do prisioneiro, portanto. Ao estudante pobre é tentado mesmo o suborno, oferecendo-lhe a ida para Universidade, ao estudante rico não lhe é exigido, é-lhe pedido que informe a sua posição mas não se passa disso. Não diz. O estudante pobre é ameaçado de expulsão se não disser. E não diz! E vale a pena ver e ouvir o discurso de Al Pacino na recusa do problema, o terceiro excluído, diremos, um discurso a anunciar, na época, a sociedade da cooperação, a América de Clinton.
Falando da crise, temos duas Europas, a do Norte e a dos países agora chamados de periféricos e, pelo meio, temos a agressão dos mercados, a estrutura do pensamento neoliberal, a arquitectura institucional da Europa e a desregulação financeira. Um belo conjunto de constrangimentos a bloquear a saída da crise. Submetem-se isoladamente cada um destes grupos de países ao conjunto de constrangimentos e não se sai da crise mas como a decisão é isolada faz-se assim por cada um deles à espera que o outro estoire com a força dos constrangimentos? Esta é a hipótese de que ambos são egoístas, é a regra de cada um que se salve e o outro que se trame, ou faz-se exactamente o contrário, cada um pensa no seu bem e no outro também e decide isoladamente que estes se devem atacar, confiando que o outro faz a mesma coisa? Esta é a hipótese de estarmos perante a ideia de uma Europa cooperativa, cada um a pensar em si e no outro, cada um a ter confiança em si e no outro, ao recusar aceitar cada um deles os constrangimentos, confiando sempre que o outro faça o mesmo.
Vejamos um esquema
E vejamos mais detalhadamente o dilema do prisoneiro no contexto da crise europeia. Submetemo-nos aos constrangimentos, dizem isoladamente cada uma das duas Europas em que cada uma delas pensa que a outra faz o contrário, a hipótese do egoísmo absoluto; não nos submetemos, decidem isoladamente cada uma das duas Europas, a ideia da cooperação absoluta; submetemo-nos, diz isoladamente a Europa do Norte e não nos submetemos, diz a Europa dos periféricos ou por fim, submetemo-nos a estes constrangimentos, diz isoladamente a Europa periférica, não nos submetemos a estes constrangimentos, diz-nos isoladamente a Europa do Norte. As quatro hipóteses do dilema do prisioneiro, portanto. No quadro violento em que se vive na Europa, onde a noção de membros já desapareceu, em que cada um Estado-membro procura e vê nos outros Estados-membro os seus adversários, resta no conjunto das quatro hipóteses, apenas duas e depois apenas uma. As duas são:
— ambos pensam isoladamente salvar-se a si e salvar o outro, confiando que ele faz o mesmo, a ideia de cooperação máxima, mas a realidade já mostrou que esta hipótese está completamente descartada no quadro presente;
— as duas Europas pensam isoladamente safar-se cada uma delas com a ideia de que a outra Europa “que se trame”, os do Sul à espera que seja a Europa do Norte, os do Norte à espera que seja a Europa do Sul. É a situação presente.

