POESIA AO AMANHECER – 209 – por Manuel Simões

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CARLOS QUEIRÓS

(1907 – 1949)

VARINA

Ó varina, passa,

Passa tu primeiro!

Que és a flor da raça,

A mais séria graça

Do país inteiro.

O teu vulto seja

Sonora fanfarra,

Zimbório de igreja;

Que logo te veja

Quem entra na barra.

Lisboa, esquecida

Que é porto-de-mar

Sente a sua vida

Reconstituída

Pelo teu andar.

Dá-lhe a tua graça

Clássica e sadia.

Ó varina, passa!

Na noite da raça

Teu pregão faz dia.

Vê que toda a gente

Ao ver-te, sorri.

Não sabe o que sente,

Mas fica contente

De olhar para ti.

E sobre o que pensa

Quem te vê passar,

Eterna, suspensa,

Acena a imensa

Presença do mar.

(de “Desaparecido”).

Conviveu com alguns poetas de “Orpheu” e pertenceu ao grupo de “Presença”. Um dos objectivos estéticos da sua poesia consistiu na depuração formal. Fez a sua estreia poética com “Desaparecido” (1935) e deixou poemas dispersos por várias revistas de referência (“Revista de Portugal”, “Panorama”, “Atlântico” e “Litoral”), vindo a falecer em Paris, de morte repentina, em 1949.

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