Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A teoria e o modelo de política económica do Leopardo de Lampedusa e de Visconti: A crise e a resposta dada pelo pensamento económico dominante para a mudança de modo a que tudo se mantenha na mesma.
Thomas I. Palley
PARTE V
(CONTINUAÇÃO)
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3.4 A teoria económica à Leopardo e a inflação
O quarto exemplo de teoria económica à Leopardo diz respeito à inflação e à política contra a inflação. Nos últimos trinta anos testemunhou-se o domínio intelectual da teoria de Milton Friedman (1968) sobre a taxa natural de desemprego. Essa teoria, quando combinada com a hipótese de expectativas racionais, mantém a curva de Phillips como sendo vertical relativamente ao espaço taxa de desemprego-taxa de inflação e que a política monetária não pode sistematicamente baixar a taxa de desemprego. Uma vez que a inflação é indesejável e a política monetária não pode sistematicamente reduzir o desemprego, o consenso político daqui resultante tem sido o da política monetária ser pelas autoridades direccionada para o objectivo de continuamente se alcançar uma trajectória de baixa taxa de inflação, ou seja, no caso presente, uma taxa constante de cerca de 2 por cento.
Os keynesianos persistentemente criticaram esta posição, argumentando que há um trade-off de longo prazo na curva de Phillips e que uma meta de inflação de 2% é demasiado baixa e produz desnecessariamente desemprego socialmente custoso. No meu próprio trabalho (Palley, 1998, 2006), defendi uma meta de inflação nos EUA entre os 3 e os 5 por cento.
Agora, na esteira da crise actual vem o FMI pela mão do seu economista-chefe, Olivier Blanchard, (Blanchard et al., 2010) sugerir que os bancos centrais devem prosseguir uma maior taxa de inflação na ordem dos 4%. Esta é uma posição que se parece muito com a posição keynesiana, mas mais uma vez é a teoria económica à Leopardo que com a mudança procura manter tudo na mesma.
O argumento de Blanchard é construído tendo como referência a presença de um limite inferior igual a zero para as taxas de juro nominais (zero lower bound, ZLB, sobre as taxas de juros nominais). Isto é ilustrado na Figura 3. O argumento é que uma meta de inflação de 2% não deixa as autoridades monetárias com espaço suficiente para reduzir a taxa de juro nominal no caso de um grande choque na procura agregada. Assim, admita-se que a taxa de juro real de equilíbrio é de 3% e a inflação é igual à meta procurada de 2 por cento. Esta situação implica uma taxa de juro nominal de 5 por cento. Agora, admita-se que há um grande choque sobre a procura agregada que requer uma taxa de juro real negativa de menos de 3 por cento para se alcançar o pleno emprego. Com uma meta de inflação de 2%, exige-se nesta hipótese que haja uma taxa de juro nominal de menos de 1 por cento, o que não é possível devido ao limite expresso por ZLB. No entanto, seria possível alcançar esta taxa se a meta de inflação fosse de 4 por cento, reduzindo-se neste caso a taxa de juro nominal para 1 por cento e assim se conseguiria uma taxa de juro real negativa de 3 por cento.
Há três pontos importantes a explicar. Em primeiro lugar, o argumento de Blanchard afirma que as autoridades monetárias poderão precisar de ajustar as taxas de juros reais em cerca de 6 por cento ou mais ao longo do ciclo. Esta hipótese sugere pois que a economia real é muito instável, o que é uma hipótese contrária às reivindicações do pensamento dominante, o mainstream, sobre a estabilidade das economias de mercado. Em segundo lugar, a hipótese ZLB serve como um conveniente “bode expiatório” para explicar porque razão macroeconomicamente não se regressa ao pleno emprego. Desta forma prevê-se a cobertura mas não se procura explicações mais profundas para a situação de estagnação. Em terceiro lugar, e mais importante ainda a análise de Blanchard continua a manter a hipótese da taxa natural de desemprego de Friedman (1968). Isso significa que se continua a afirmar que não há nenhuma situação de trade-off na curva de Phillips entre inflação e desemprego, e que a política monetária sistematicamente não pode afectar a taxa de desemprego. Pior ainda, preservando a hipótese da taxa natural de desemprego, preserva-se a justificação para a agenda de flexibilidade do mercado de trabalho que tem sido fortemente responsável pela desigualdade de rendimentos e pela estagnação salarial, ao atacar os suportes dos trabalhadores, como os sindicatos, como a negociação colectiva, como o salário mínimo. Isso exemplifica mais uma vez a teoria económica à Leopardo: ocupar o espaço da política realizada pelos keynesianos, deixando a teoria e política estrutural profundamente inalteradas.

