MULHERES – A VIOLÊNCIA CONTINUA – 7 – por Rachel Gutiérrez

(Continuação)

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Tempos modernos

Na belle époque, à primeira onda do feminismo nascente correspondeu a exacerbação dos mitos da mulher fatal, da histérica e da ninfomaníaca.

Num livro publicado em Viena, em 1903, um jovem desajustado e infeliz, de origem judaica e com tendências homossexuais contra as quais lutava penosamente, sintetizou, de forma reacionária e perigosa, todos os preconceitos antifeministas e antissemitas de sua geração.

O autor, Otto Weininger, suicidou-se aos 23 anos; Sexo e Caráter, seu livro polêmico e caótico, porém brilhante, iria influenciar pensadores, escritores, artistas e políticos até meados do século XX. Em relação à mulher, suas ideias, como diz Jacques Le Rider, expressavam, do arquétipo que Jung chamou de magna mater, a Grande Mãe (que pode ser a Virgem, uma santa, a Terra, a mãe-pátria etc.), apenas o aspecto negativo e imagens nefastas: a da feiticeira, um peixe enorme, qualquer animal constritor e devorador, um sarcófago, um  túmulo, a morte, o mistério da escuridão. E até hoje há quem repita tolices como esta: “o homem é espírito, a mulher é carne” ou, com um pouco mais de sofisticação: “a mulher é um dado acabado, o homem, um vir-a-ser.” Aliás, já na Grécia Clássica, o filósofo Aristóteles, um dos primeiros a definir a mulher como ser inferior, havia afirmado que, no processo da geração humana, o homem dá a forma, a mulher, apenas a matéria.

Islamismo

Maomé, o profeta que representa a terceira religião monoteísta do mundo, não é considerado divino, mas um dos mais perfeitos seres humanos que existiram. Teria vindo para restaurar os ensinamentos originais do judaísmo e do cristianismo, que, aliás, não rejeitou completamente. No Alcorão, a série de versos que, de acordo com a tradição, lhe foram ditados pelo Anjo Gabriel, não há condenação da sexualidade, nem menção alguma à circuncisão dos homens ou excisão das mulheres. Recomenda-se apenas, entre outras coisas, que homens e mulheres se vistam com modéstia em público. Os véus, as burcas e várias outras imposições são resíduos culturais, ou, como diz Malek Chebel, antropólogo e tradutor do Alcorão, a marca de uma imposição do Oriente milenar sobre o islamismo. Entre fanáticos, tradições se confundem com princípios religiosos e costumes bárbaros e cruéis se perpetuam como leis inexoráveis.

É desse pesadelo que as mulheres veladas precisam despertar.

(Continua)

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