(Continuação)
IV Da perplexidade à ação
Arevista IstoÉ de 6 de março de 2013, baseada em estatísticas do Mapa da Violência 2012, da ONU Mulheres, do ECOSOC (Economic and Social Council) e da Secretaria de Políticas para Mulheres, revelou os números do que o Secretário Geral da ONU, Ban Ki Moon, qualificou como pandemia: 7 em cada 10 mulheres no mundo passarão por algum episódio de violência física ou sexual ao longo da vida; nos Estados Unidos, a violência doméstica custa US$ 5,8 bilhões por ano aos cofres públicos; entre 1980 e 2010, 92 mil mulheres foram assassinadas no Brasil, 43,7 mil somente na última década. E o nosso país ocupa a 7ª posição no ranking de países com maiores índices de homicídios femininos no mundo.
A revista ainda revela que o Brasil, a Espanha e a Mongólia possuem as legislações mais avançadas sobre violência contra a mulher e que 125 países possuem leis contra a violência doméstica, mas apenas 52 dispõem especificamente sobre a agressão conjugal, segundo a ONU.
Esse assunto, o da agressão conjugal especificamente sexual, foi abordado por mim diante de um grupo de mulheres da Zona Oeste do Rio de Janeiro, quando participei da campanha eleitoral para o Governo do estado, como candidata a vice-governadora na chapa do socialista Sinval Palmeira, em 1986. Eu explicava às mulheres que, se o homem chega em casa bêbado (ou mesmo sóbrio) e força a mulher, com violência, a uma relação sexual não desejada por ela, isso caracteriza também um estupro. Então uma das mulheres me perguntou, espantada: “Mas ela já não está deflorada?” (e a palavra utilizada foi bem mais grosseira). Essa anedota ilustra o grau de alienação de milhares de mulheres que aceitam os maus tratos, as humilhações e as agressões porque as consideram normais no mundo falocêntrico em que vivem. Milhares de mulheres desconhecem as leis que já existem para protegê-las. E entre as que as conhecem, poucas tem a coragem de invocá-las.
Que podemos e devemos fazer com urgência?
Em primeiro lugar, devemos exigir da ONU, e de todos os países signatários, que a Declaração Universal dos Direitos Humanos tenha um alcance jurídico mundial e não apenas declaratório. Que os governos votem ou decretem leis que garantam o respeito absoluto aos seus princípios. Que a divulgação de seu texto integral se faça em 43 todos os meios de comunicação, nas redes sociais, nas escolas de todos os níveis, desde os jardins da infância; que os meios de transporte, os bares e os locais de entretenimento o recebam gratuitamente e sejam orientados a expô-lo como um alvará.
É fácil sonhar. Difícil é vencer a indiferença, a pior das atitudes como disse Stéphane Hessel, o herói da indignação, difícil é sermos capazes de enxergar o que as mulheres vítimas da violência nos mostram – a nossa própria cara, a cara monstruosa da nossa “Civilização”.
“…Basta que nos mostrem o que fizemos delas para que saibamos o que fizemos de nós mesmos.”
Para que o futuro seja diferente, precisamos lembrar o Encontro Educação e Políticas Sustentáveis, reunião global de Economia, promovida pela Fundação Getúlio Vargas e realizada no Rio de Janeiro nos dias 17 e 18 de outubro de 2012. Ao final de dois dias de comunicações, palestras, seminários, discussões e debates, as melhores propostas do encontro foram votadas pelos participantes economistas, políticos, técnicos, educadores, intelectuais, estudantes e leigos numa assembleia geral de despedida. E a vitoriosa, entre mais de 30, foi a proposta apresentada pelo escritor e monge budista francês Mathieu Ricard, considerado o “braço direito” do Dalai Lama, para que se comece a ensinar em todas as escolas infantis – a Compaixão! Haverá algo mais urgente neste nosso mundo do que ensinar e aprender a compaixão?
O mundo dominado pelos homens é violento: numa só geração passamos pela II Guerra Mundial, pela guerra da Coreia, a do Vietnã, as do Oriente Médio, a das Malvinas, a da Bósnia, a do Iraque, a da Chechênia, a do Afeganistão… as guerras não acabam. E é importante saber que, em consequência de uma das mais curtas, a guerra das Malvinas, por exemplo, muitos ex-combatentes se suicidaram. O mais significativo, porém, é o número de suicidas do lado derrotado não ter sido muito superior ao do lado “vitorioso”: 400 argentinos e 255 britânicos se mataram. A rigor, não há vencedores numa guerra, a própria guerra é uma derrota.
O mundo da competição é violento, o mundo do mercado financeiro é violento; na mídia, a violência é o espetáculo; e no mundo da pornografia, o erotismo é violento, além de enganoso: homens falsamente superpotentes abusam de mulheres passivas e submissas. Se um adolescente receber como “educação sexual” apenas o que vê nos programas ou canais de televisão pornográficos, é bem provável que venha a ser um parceiro sexual frustrado e violento. E, além disso, estará sendo “educado” para a dominação e o autoritarismo.
(Continua)

