O PORTUGUÊS É UMA LÍNGUA MUITO TRAIÇOEIRA? – por Manuel Simões

Artigo adaptado de um outro publicado pelo autor no Estrolabio

Não sei se foi o apresentador/humorista Herman José quem inventou esta expressão mas é ele quem a tem difundido com a intenção de pôr em evidência segundos sentidos de palavras cujo significado primeiro não tem conotações de carácter obsceno ou licencioso. Mas a ele interessa-lhe vincar precisamente este aspecto e, não fosse o público não perceber, eis que recorre ao que já se tornou  num lugar-comum que se ouve com muita frequência: “a língua portuguesa é muito traiçoeira”

A convicção posta na utilização assídua e apodíctica deste lugar-comum parece querer conceder à língua portuguesa o exclusivo da ambiguidade e da polissemia de um grande número de palavras, o que é um tremendo disparate, antes de mais porque esta é uma característica essencial da linguagem, mais acentuada porventura na sua realização popular. E não é uma concessão dos deuses à língua portuguesa pela simples razão que é um aspecto distintivo de todas as línguas, não sendo de estranhar que se desenvolva mais acentuadamente em campos semânticos onde se pretende introduzir a “transgressão”. Isto quer dizer que, na sua realização concreta, ao referir-se a termos apercebidos com algum pudor, a língua utiliza eufemismos aparentemente inócuos, cuja função é a de atenuar a crueza da expressão ou a de provocar efeitos irónicos, desencadeando o riso ou enriquecendo a expressão literária que vive, como se sabe, de imagens e de metáforas. Como escreveu Eça de Queiroz de forma bem expressiva: “sobre a nudez crua da verdade o manto diáfano da fantasia”.

Reportando-me apenas às línguas românicas, as que conheço melhor, poderia ilustrar esta característica com variadíssimos exemplos. Mas serve perfeitamente o caso do italiano que, para designar o órgão sexual masculino, para além dos nomes técnicos ou populares, usa os termos “pássaro”, “cenoura”, “pepino”, “fava”, “ervilha” (linguagem infantil) e outros vegetais; ao português “comer” (em sentido sexual) pode opor-se o italiano “scopare” que, literalmente, significa ‘varrer com escova, escovar’.

Passando ao francês, também haveria inúmeros exemplos, e alguns bem interessantes. Fico-me pelos mais conhecidos, como “baiser” (‘beijar’ e ‘fornicar’) e de cuja ambiguidade já todos nos apercebemos nas legendas aos filmes franceses (filmes que agora não vemos, mas isso é outra história); “pipe” que, como se sabe, significa ‘cachimbo’, assumindo, porém, o significado transgressivo na expressão “faire une pipe” (‘sexo oral’), sofrendo um desvio semântico mas não semiológico; ou ainda “valseuses” que significa ‘pessoas que dançam a valsa’ ou ‘testículos’, de acordo com a situação contextual.

É claro que a polissemia provoca não poucos problemas aos tradutores menos atentos. Já pensaram num italiano que não dominasse perfeitamente a língua portuguesa, em presença das inocentes palavras “fica” (terceira pessoa do singular do verbo “ficar”) ou “minhota”? É que à primeira corresponde, em italiano, um dos termos mais frequentes para designar o órgão sexual feminino; e à segunda (escrito “mignotta”, com o ‘o’ aberto) o significado de “prostituta”. Além das interferências lexicais, estes exemplos servem para destruir a pretensa especificidade da língua portuguesa como “língua muito traiçoeira”, expressão que, só por ignorância, continua a ser exibida sem pudor e com algum nacionalismo à mistura.

2 Comments

  1. Só uma achega: o Herman, que não é parvo nem ignorante, usou essa expressão, não só com o significado descrito, mas também em contextos onde, claramente, se referia ao mau uso da língua por gente que tinha o dever, pelo seu “estatuto”, de a usar correctamente. Claro que, como seria de esperar, o que sobreviveu no acolchoado das mentes balofas que povoam o universo mediático e difundem estas coisas (nomeadamente uma chusma de neo-humoristas de que só se salvam os “Gato Fedorento”, com particular destaque para o Ricardo Araújo Pereira) foi a primeira acepção.
    Quanto às “traições”, divertem-me imenso os exemplos que citaste e outros, como as expressões castelhanas “echar un polvo” ou “hacer una paja” ou “huevos”. Idem, no que se refere às confusões fonéticas entre várias línguas: o cuidado que nós, locutores da Antena 2, púnhamos em pronunciar com todos os efes-e-erres o nome da editora belga “Eufoda” ou do compositor alemão Louis Spohr; a atrapalhação de uma senhora a chamar alti-falantemente um delegado egípcio a uma conferência internacional, um tal Mr. Efe-ôu-di-ei; ou os risinhos russos, perante a apresentação (nos tempos soviéticos) do “tovaritch Rui”…
    A questão é: divertem-me e não me ofendem, embora não goste de ver o vocabulário da maioria dos jovens reduzido a esses termos, até porque os banalizam, retirando-lhes conotações muito úteis para exprimir sintética e eficazmente certos estados de espírito. Tenho uma teoria que (não sendo um especialista) poderá estar errada: o chamado calão (vulgar, não de criminosos ou de certas profissões) não passa de um conjunto de palavras (os “palavrões”) que fizeram o seu caminho por via popular, perante a necessidade de nomear o que os poderes (religioso, p.e.) e as classes dominantes consideravam “inefável” (aliás, penso que, durante muitos séculos ocidentais, só quem dominasse o latim saberia as designações eruditas, ainda sem evolução, dos órgãos ou actos “inomináveis”). Com o andar dos tempos, esses termos passaram, a ser considerados impróprios de “gente de bem” – à excepção dos machos que, entre eles, livremente se exprimiam, sobretudo no aprazível ambiente dos bordéis e convívio com as profissionais residentes. Daí que a minha avozinha me avisasse que não deveria falar “como um carroceiro”, tal como (embora não tivesse dinheiro para mandar cantar um cego) me verberasse a tentação de “rapar o prato”, na realidade, a transposição da imagem de marca “não rapamos porque somos ricos e não precisamos de fazer o que os pobres fazem – se o menino quer mais sopa, pede, que a criada traz-lhe outro prato”… Isto é, o desterro a que foram condenadas as palavras que os modernos dicionários já acolhem – finalmente! – como “tabuísmos” (nomenclatura pela qual não tenho grande simpatia) não passam de sinais distintivos de classes sociais. Que me dizes destas divagações amadoras?

  2. Manuel Simões
    A tua achega é pertinente. O meu ponto de vista reside essencialmente na questão de se considerar, com orgulho ignorante, que só a língua portuguesa permite estes “trocadilhos”.

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