REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

A VERDADEIRA LIÇÃO DA GRANDE DEPRESSÃO: A POLÍTICA ORÇAMENTAL É EFICAZ!

Novos  ataques ao New Deal de Roosevelt alimentados  pela velha – e desacreditada – ideologia

 

30 de Agosto de 2010

Marshall Auerback,  Roosevelt Institute Senior Fellow

http://www.rooseveltinstitute.org/new-roosevelt/real-lesson-great-depression-fiscal-policy-works

PARTE II
(conclusão)

Estratégia de FDR sobre o Emprego e sobre os Salários Funcionou

Tudo isto mudou sob FDR. A chave para avaliar os resultados da política de Roosevelt no combate à depressão está no tratamento estatístico de muitos milhões de desempregados envolvidos nos seus programas de workfare massivos. O governo empregou cerca de 60 por cento dos desempregados em obras públicas e em projectos de conservação em que plantaram cerca de um milhar de milhões de árvores, salvou o grou-cantor da América do Norte, modernizou-se a América rural e construíram-se diversos projectos tais como a Cathedral of Learning em Pittsburgh, o Montana State Capitol, muito sobre as margens do lago em Chicago, o New York’s Lincoln Tunnel e o complexo de Triborough Bridge, a Tennessee Valley Authority e os porta-aviões Enterprise e Yorktown.

Também se construíram ou se renovaram 2.500 hospitais, 45.000 escolas, 13.000 parques e jardins infantis, 7.800 pontes, 700 mil milhas de estradas e mil aeródromos. E com isto empregavam-se 50.000 professores, reconstruiu-se na totalidade o sistema escolar rural do país inteiro e contrataram-se 3.000 escritores, músicos, escultores e pintores, incluindo Willem de Kooning e Jackson Pollock. Muita coisa mesmo para que se possa ter e manter a ideia de que os empregos públicos não são “verdadeiros postos de trabalho”, como ouvimos constantemente dizer aos críticos do New Deal!

As razões para as discrepâncias nos dados sobre o desemprego que historicamente têm surgido fora do New Deal devem-se a que o método de amostragem actual nas estimativas para o desemprego pelo BLS só foi desenvolvido depois de 1940. Se estes americanos a trabalhar nestes programas são considerados desempregados, o que podemos dizer e com toda a certeza é que a administração Roosevelt reduziu o desemprego de 25 por cento em 1933 para 9,6% por cento em 1936, e depois para 13 por cento em 1938 (devido em grande parte a uma inversão do activismo orçamental que tinha sido a característica de FDR no primeiro mandato), esta taxa voltou a cair para menos de um por cento até ao momento em que os EUA mergulharam na Segunda Guerra Mundial, no final de 1941.

Na verdade, uma vez que a Grande Depressão atingiu o fundo no início de 1933, a economia dos EUA embarcou em quatro anos de expansão que constituíram o maior boom cíclico na história económica dos EUA. Durante quatro anos, o PIB real cresceu a uma taxa de 12% e o PIB nominal cresceu a uma taxa de 14%. Houve, depois, uma outra depressão menor e mais curta em 1937, em grande parte causada pela nova contracção orçamental (e pelas maiores exigências quanto a margens feitas pelo Federal Reserve).

Esta recaída económica levou ao equívoco de que o banco central estava a puxar uma corda para a contenção em toda a década de 1930, até que o estímulo fiscal gigante do esforço de guerra finalmente trouxe a economia para fora da depressão. Isso é incorrecto. A maioria dos relatos da Grande Depressão subestimam o efeito das medidas do New Deal quanto à criação de empregos, porque eles não mostram como é que grande parte do declínio no emprego oficial era atribuível ao efeito multiplicador dos gastos na criação de emprego directo. Além disso, a categoria ” trabalhos públicos de ajuda à retoma económica ” não inclui o emprego criado nas obras públicas financiadas por Public Works Administration (PWA), nem o efeito multiplicador dos gastos feitos por PWA. Os números contam a história indirectamente, através da trajectória da taxa de desemprego oficial seguida – fortemente decrescente nos períodos em que os gastos com os trabalhos públicos foram altos e ou decrescentes mas muito mais lentamente ou crescente mesmo nos períodos em que os gastos públicos para a retoma económica foram cortados. Na verdade, até ao final de 1934, mais de 20 milhões de americanos (um em cada seis!) estavam a ter empregos ou assistência pública de uma forma ou de outra a partir do “Welfare State”[1].

Assim, 9,6% do desemprego alcançados no final de 1936 era ainda um valor muito alto. Mas é duro imaginar os Democratas a estarem em perigo político aquando das eleições intercalares ou a testemunhar o estado actual abismal da popularidade de Obama face à hipótese de que Administração de agora poderia ter reduzido o desemprego por dois terços num mandato, como o fez FDR, na base de medidas honestas sobre os níveis de desemprego. Basta dizer que, a redução do desemprego foi o foco único da Administração Roosevelt; pelo contrário, hoje temos “a nova normalidade”, com efeito, um falso argumento intelectual para justificar porque não se pode gerar um maior crescimento do volume de emprego. E isto é um testamento de uma verdadeira falência política.

Em referência à crítica da política de “altos salários” de FDR que é agora feita por Cooley e Ohanian, vale a pena notar que a “inflação”, salarial que eles condenam era na realidade um produto de um ambiente deflacionário em que o nível geral de preços caia mais rapidamente do que o nível do salário nominal. Durante o início da Grande Depressão, o output produzido entrou em colapso em face da falta de acção orçamental do governo americano e do Banco Central com as subidas das taxas de juro. Isto teve o resultado estranho de gerar um aumento salarial real contra-cíclico, que na verdade não era nada mais do que um produto resultante da natureza depressiva da economia, em que os preços globais foram caindo mais rapidamente do que os salários.[2]

Sobrepondo os dados salariais com a redução efectiva de desemprego entre 1933 até ao final de 1936, torna-se difícil mostrar um caso empírico em que as melhorias salariais das políticas praticadas por FDR durante a Grande Depressão fossem prejudiciais ao crescimento económico e ao aumento do emprego. Mesmo que alguns sectores pudessem ser prejudicados (e que não é comprovada por Cooley e Ohanian) os factos sugerem realmente que os aumentos dos salários reais estiveram na verdade associados com o aumento do emprego global.

A recaída provocada pelas medidas de austeridade

E sobre a recaída em 1937/38, o que dizer? Por volta de 1936, muitos economistas e especialistas financeiros (nomeadamente o Secretário de Estado do Tesouro de FDR, Henry Morgenthau) temia que o país pudesse ir à falência se o governo mantivesse o défice pela despesa (será que soa a qualquer coisa de familiar?). E depois de tudo, argumentavam eles, os défices governamentais tinham “bombeado “a economia. O sector privado poderia agora expandir-se por conta própria e voltar para valores muito próximos do nível de pleno emprego de 1928-início de 1929.

Consequentemente, Roosevelt passou (em 1936) por uma plataforma em que ele iria tentar reduzir, se não eliminar, o défice. Ele ganhou a eleição por um “deslizamento de terras” – compreensivelmente, uma vez que os EUA estavam fora da situação de depressão em 1937. Fiel à sua promessa de campanha, os gastos do governo foram cortados significativamente em 1937 e 1938, e foram criados impostos para “financiar” o novo programa de segurança social. Em 1938 Roosevelt apresentou um orçamento em que o défice estava praticamente eliminado (0,1% do PIB). A recaída económica daí resultante, baseada nos esforços feitos para equilibrar o orçamento, foi agravada por uma política monetária recessiva e sem sentido, aplicada pelo FED e devidamente aplicada.

Isto não deve surpreender ninguém. Qualquer tipo de austeridade orçamental durante um período de abrandamento económico, quer seja através de cortes nos gastos governamentais quer seja através de impostos mais elevados, de facto, deprime a actividade económica.

Mas a outra lição da Grande Depressão é que a política orçamental devidamente orientada e centrada na criação de emprego pode funcionar e ter sucesso. A Grande Depressão foi realmente uma terrível calamidade humana, mas o New Deal de Franklin Delano Roosevelt (incluindo as políticas de salários elevados) atenuaram esse brutal desastre que foi a Grande Depressão. Não há nada que possa reclamar e “mostrar” que as intervenções feitas tornaram as coisas as coisas ainda piores, a não ser quando o próprio Roosevelt capitulou perante as velhas e cansadas forças do conservadorismo financeiro e da austeridade orçamental e aí foi a economia que pagou o elevado preço.

Felizmente, FDR não estava ideologicamente feito com as ideias da austeridade orçamental e rapidamente mudou de rumo. Para isso ajudou, é claro, o facto de que o seu gabinete estava bem representado por figuras progressistas, como Frances Perkins, Wallace Henry, Harold Ickes e Hopkins Harry, que superaram as forças do conservadorismo económico simbolizado e representado pelo Secretário de Estado do Tesouro de FDR, Henry Morgenthau. Precisamos desse tipo de forças progressistas na actual Administração, especialmente dada a recente renúncia da Presidente do Conselho de Consultores Económicos, Christina Romer. É hora de deixarmos a velha ideologia quando até foi ela que criou a crise actual. Hoje, esperamos que o presidente Obama, como o fez FDR antes dele, muda de rumo e muito rapidamente. A América está pronta para um novo New Deal.

______

[1] NT. Na mesma linha de raciocínio veja-se de Krugman, Acabem com esta Crise já, Editorial Presença.

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: