A MARCHA DOS GOSMAS*. POR ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

 

Ao capitão médico Bossa da Veiga,

grande soldado do 23

 

II

 

Cada noite vamos ficando numa pequena aldeia onde nos não esperam e onde os boletos serão sempre feitos um pouco ao acaso. Toda a brigada está em marcha e nunca sabemos ao certo onde pára o seu quartel-general, vagabundo como nós. Na segunda marcha, vindo de casa de um cura onde mal se pôde acabar de comer um jantar improvisado, e tendo cruzado de noite, através de uma cidade acordada em sobressalto[1], um interminável comboio de camions que levava para a batalha dos montes divisões francesas de infantaria de élite, instala-se o comando num celeiro cheio de beterrabas que apodrecem. Na manhã seguinte partimos atravessando o resto da aldeola e desfilando perante um acampamento de cavalaria inglesa. Um cavalo nédio e luzidio, escovado como alguém que acaba de sair do barbeiro, tem em torno dele dois veterinários e três enfermeiros, que lhe examinam um casco. Os meus pobres lãzudos miram com inveja profunda aqueles animais tão bem tratados, e na cauda da coluna a companhia dos gosmas cresce. O pelotão de sinaleiros caminha na frente, e nem um só dos seus homens deu ainda parte de fraco. Cantam até de vez em quando, para animar o resto, e pela coluna fora até aos gosmas vão correndo cantigas de Coimbra, a Marcha do Vapor, a Nazaré, a Amendoeira

De súbito, uma tarde, numa estrada em cotovelo, desponta ao longe um grupo de cavaleiros. Vestem de azul e trazem na cabeça a bourguignotte gaulesa. De começo tomamo-los por gendarmes. Trata-se porém da secção de quartéis de um regimento de cavalaria que traz duzentos quilómetros nas pernas dos seus cavalos e sobe a toda a pressa para a batalha. Meia hora depois encontramos o grosso da unidade. É preciso que os primeiros soldados franceses que se cruzam com tropas portuguesas guardem desse encontro uma impressão que não nos rebaixe. Rapidamente circula a senha: ― «Rapazes! Fixes! Cabeça alta. Atenção às continências!» E a requinta solta o toque de sentido. À frente do seu regimento, o coronel de longos bigodes loiros que o vento faz esvoaçar, cujo peito se ensanguenta da cruz dos bravos, saca da bainha a sua espada, uma espada que brilha ao sol e que vai carregar. O clarim de ordenança toca o Garde à vous! E, enquanto se perfilam as lanças, sucessivamente as minhas cornetas vão mandando as companhias olhar á esquerda. Saudamo-nos, o coronel e eu, ele abatendo a sua espada e eu erguendo o braço e a alma numa comovida continência. Volto-me para ver os meus homens e vejo-os todos, cabeça erguida, passo firme, olhando os soberbos poilus, que parecem estátuas sobre os seus cavalos. Um grande frémito passa em todas as espinhas, e até os gosmas não coxeiam, se endireitam e levantam alto os olhos volvidos para a França que desfila.

Os primeiros soldados do mundo, aqueles que há quatro anos dão sem regatear todo o seu sangue na defesa de todo o mundo, olham com simpatia aqueles pobres lãzudos estropiados que vêem pela primeira vez. Um cavaleiro, servente de metralhadora, exclama: ― «Bonjour, vieux! On les aura!» O médico, gorducho de lunetas, atira-nos um amistoso adeus, e os condutores dos carros, fumando o seu cachimbo, as pernas embrulhadas nas mantas de gado, acordam um pouco da sua sonolência para se debruçarem e nos verem. Por fim, no alto da estrada, o regimento que acaba de passar é uma marcha confusa e os gosmas já podem coxear, coitados!

 *IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.
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[1] Fruges

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