(Continuação)
Quem é que é digno de admiração? A admoestação de Lucas — queé partilhada pelas mais éticas e filosóficas tradições, a propósito, ajuda-nos muito sobre estapergunta também. Os mais dignos de admiração são aqueles que têm feito o melhor uso de suas vantagens ou, alternativamente, quetêmlidadocom mais coragem face àssuas adversidades. Pensoque a maioria de nós concordaria que as pessoas que têm, por exemplo, pouca formação escolarmas trabalhamhonestae diligentemente para ajudar a alimentar, a vestir e a educar as suas famílias são merecedoras de maior respeito — e de ajuda, se necessária —do que muitas pessoas que são superficialmente bem maissucedidas. Isso é tudo que eu sei sobre a Sociologia. Uma vez que já expressei o que sei deSociologia, eu também poderia dizer-vos alguma coisa sobre ciência política também. Em relação à política, sempre gostei da expressão deLilyTomlin, que émais ou menos isto:“eu tento ser cínico, mas simplesmente não sou capaz de o ser”. Todos nós já nos sentimos assim em algum momento da nossa vida. Na verdade, tendo estadoem Washington já lá vão cerca de11 anos, como eu mencionei, e sinto que é bastante. Em última análise, porém, o cinismo é um pobre substituto para o pensamento crítico e para aacção construtiva. Com certeza, interesses, dinheiro e ideologia tudo aquiimporta, tal como seaprende em ciência política.Mas a minha experiência é de que a maioria dos nossos políticos e dos nossos decisores em política estão a tentarfazer as coisas certas, de acordo com suas próprias opiniões e consciências, na maioria das vezes. Se acharemque os resultados maus ou indiferentes que muitas vezes saem de Washington são devidosa motivos básicos, simples, e a más intenções, estar-se-á a daraos políticos e aos decisoresdas políticasmuito crédito por se ser eficaz. Oserros cometidos quando se está a serhonesto em face deproblemas complexos e possivelmente intratáveis é bema maisimportante fonte de maus resultadosdo que o são as más intenções. Por estas razões, as maiores forças em Washington são as ideias e as pessoas preparadas a agiremna base destas mesmasideias. O serviço público não é fácil. Mas, por fim,se é o que cada um deseja e pode fazer, digo-lhes, é um exercício digno e estimulante. Tendo já criticado a Sociologia e a ciência política, deixei-me acabar a falar de economia enquanto esta é a minha profissão. A economia é um campo altamente sofisticado do pensamento que é espantosa para explicar aosdecisores políticos, precisamente porque é que asescolhas que eles fizeram no passado estavam erradas. Sobre o futuro, não há muito a dizer. No entanto, uma cuidadosa análise económica tem uma vantagem importante, que é a deque ela pode ajudar a dar cabo das ideiasque são completa e logicamente inconsistentesou descontroladamente em desacordo com os dados da economia real. Essa percepção abrange pelo menos 90 por cento das propostas políticas económicas. (…) Ninguém gosta de falhar, mas falharé uma parte essencial da vida e da aprendizagem. Se o fato-macaco não está sujo, então é porque não esteve a trabalhar.
Tomando de partida a posição de Bernankee e de João Ferreira do Amaral, Senhor ProfessorAníbal Cavaco Silva muito gostaria eu que tivesse escrito um outro discurso parao senhor presidente da República ler no dia 25 de Abril, nas antípodas daquele escreveu.E não se esqueça, senhor Professor, do que acima se reproduz de Lucas: “e daquele a quem muito foi confiado, mais será exigido”. Tem a nobre missão de ser oapoio ao Presidente de todos nós, não faça dele o Presidente de muito poucos. Sobreo que escreveu naquele discurso sublinho que se tratou de umdiscurso do economista Cavaco Silva escrito para o seu presidente da República, também ele de nome Cavaco Silva, direi que é o discurso de um economista a defender um Estado o mais minimalista possível,numa altura em que os mercados estão fortemente disfuncionais, o que é verdadeiramente impressionante, pois quando os mercados estãoa funcionar extraordinariamente mal,quer-se-lhes dar todo o poder, mesmo o da regulação, quase…é não apenas a ignorância absoluta, é também uma profunda maldade. Neste discurso lido por mim quase com raiva num dia de festa do nosso povo pode-se ler:
(…) Poderá ser preferível fixar limites ao crescimento da despesa pública, os quais, sendo mais fáceis de avaliar, tornam o processo de consolidação orçamental mais credível e mais transparente. Neste cenário, é uma ilusão pensar que as exigências de rigor orçamental irão desaparecer no fim do Programa de Ajustamento, em meados de 2014. Com efeito, nos termos do Tratado Orçamental, o País terá de assegurar um défice estrutural não superior a 0,5 por cento do PIB e o rácio da dívida pública de 124 por cento, previsto para 2014, terá de convergir no futuro para 60 por cento. Para alcançar estes objectivos, Portugal terá de manter superavites primários muito significativos durante um longo período.
Num Estado e numa conjuntura como a nossa e face ao descalabro político, económico, social que estamos a viver e que o seu governo está empenhadamente a produzir, defender o que aqui se reproduz é reduzir algumas das mais nobres e urgentes funções do Estado-Providência a praticamente nada, como seja, por exemplo, a redistribuição do rendimento, os apoios sociais na saúde e no desemprego ou ainda o anulamento da importância do Estado em funções como a formação, a educação, a investigação, a criação de infra-estruturas, a dinamização do tecido empresarial, etc., num país onde não se quer que este venha a perder o seu futuro. Neste pequeno excerto está tudo o que ele não poderia dizer, não está nada do que o senhor professor lhe poderia escrever. Propor e defender uma política de austeridadee assumir como um governoda sua iniciativa um governo que ferozmente leva ao limite do impensável essa mesma política de austeridade, quando a Europa se defronta com a seguinte situação de desemprego, ilustrada pelos gráficos abaixo, releva da maldade, certamente e da ignorância económica, isso, seguramente.
Gráfico 1.
Gráfico 2.
(Continua)
