
Numa outra crónica, dizia eu que futebol, cultura e democracia, são vocábulos que parecem pertencer a idiomas diferentes, pois raramente se cruzam. E a palavra televisão, terá ela alguma coisa a ver com cultura e com democracia? Passei breves dias numa localidade da costa alentejana, sem acesso á Internet – li e vi televisão. E vi uma ou outra vez a edição actual do Big Brother. Ao assistir ao espectáculo de gente jovem exibindo a sua vulgaridade com despudorada arrogância, ocorreu-me a expressão de Luiz Pacheco – «A televisão é para estúpidos». Será? Um dia em que, conversando com Mr. Hugh House, director do departamento de cursos de inglês da BBC, me queixava da má qualidade dos programas televisivos em Portugal ele respondeu-me: – Então você não sabe que a principal função da televisão é ser de má qualidade? Estávamos nos anos 80 e, na ressaca do Abril de 74, eu ainda acreditava que a televisão poderia cumprir uma importante função pedagógica na criação de uma mentalidade democrática.
No começo da década de 90, Marlon Brando dizia numa entrevista que não faltaria muito para que algum «génio criativo» se lembrasse de, num reality show, pôr pessoas a defecar perante as câmaras. Reconhecendo que a qualidade da televisão generalista baixava de ano para ano, estas palavras pareceram um exagero ou uma metáfora. Não havia ainda aqui a moda dos reality shows. Quando a TVI lançou o Big Brother, recordei a entrevista de Brando e percebi onde ele queria chegar. O nível cultural dos participantes era tão básico, o léxico e o universo conceptual utilizados tão rasteiros, que não exigia grande esforço imaginar qualquer deles a concretizar perante as câmaras a profecia de Marlon Brando, caso tal lhes fosse pedido pela «realização».
Numa roda de amigos, gente ligada à edição, debateu-se o êxito do Big Brother, alegou-se a falta de cultura dos portugueses. Alguém recordou – «Há trinta anos, com um índice de escolaridade mais baixo, as ruas das cidades ficavam desertas nas segundas-feiras à noite, pois estava quase toda a gente a ver o Zip-Zip, um programa que, apesar do bom nível do conteúdo era apreciado por uma larga faixa da população.
Hoje, as audiências aumentam na razão directa do número de telenovelas que um canal apresenta. Se às telenovelas, geralmente más, se somarem os tais reality shows, talk shows inqualificáveis e uns concursos vazios de conteúdo ou de pseudo cultura-geral, os índices de audiência sobem em flecha. A televisão generalista percorre uma espiral descendente e contribui para o défice cultural dos telespectadores que terão tendência cada vez a preferir programações mais pobres.
Diz Karl Popper, o filósofo britânico de origem austríaca (1902-1994) em Televisão Um Perigo Para a Democracia: “Por ocasião de uma conferência que dei há alguns anos na Alemanha tive o ensejo de conhecer o responsável de uma cadeia (de TV) que se deslocara para me ouvir juntamente com alguns colaboradores. (…) . Durante a nossa discussão fez afirmações inauditas, que se lhe afiguravam naturalmente indiscutíveis. «Devemos oferecer às pessoas o que elas esperam», afirmava, por exemplo, como se fosse possível saber o que as pessoas pretendem recorrendo simplesmente aos índices de audiência. Tudo o que é possível recolher, eventualmente, são indicações sobre as preferências dos telespectadores face aos programas que lhes são oferecidos. Esses números não nos dizem o que devemos ou podemos propor, e esse director de cadeia também não podia saber que escolhas fariam os telespectadores perante outras propostas. De facto, ele estava convencido de que a escolha só seria possível no quadro do que era oferecido e não perspectivava qualquer alternativa. Tivemos uma discussão realmente incrível. A sua posição afigurava- se-lhe conforme aos «princípios da democracia» e pensava dever seguir a única direcção compreensível para ele, a que considerava «a mais popular». Ora, em democracia nada justifica a tese deste director de cadeia (de TV), para quem o facto de apresentar programas cada vez mais medíocres corresponde aos princípios da democracia porque é o que as pessoas esperam. Nessas circunstâncias, só nos resta ir para o inferno!»
Um inferno ao qual vamos descendo, abandonando toda a esperança, como preconizava Dante, sempre que accionamos o comando. Um inferno onde vale meter todo o lixo. Programas como este Big Brother ajudam a estupidificar, a generalizar um pensamento único alinhado por conceitos básicos. Um Grande Irmão que distribui generosamente uma anestesia para que as medidas que o poder político impõe, não doam tanto. Como dizia Hugh House – “A principal função da televisão é ser de má qualidade”.
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Nota: Para ilustrar a profecia de Marlon Brando e demonstrar que não era tão exagerada como há duas décadas pareceu, gostaria de poder mostrar um vídeo da 9ª edição do Big Brother italiano – Grande Fratello – emitida em 2009. Um concorrente ameaça defecar em frente das câmaras (“Allora io adesso mi metto a cagare e pisciare qui in giardino, va bene? ” ). O vídeo não pode ser reproduzido, mas está disponível no You Tube.
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