EDITORIAL – A EXCEPÇÃO CULTURAL E O REACCIONÁRIO

Diário de Bordo - II

 

A excepção cultural tem sido bastante falada nos últimos dias, a propósito das negociações para um tratado de comércio livre entre os EUA e a União Europeia. Este tratado irá constituir mais uma etapa no avanço do neoliberalismo. Destina-se claramente a facilitar a vida dos grandes grupos económicos, pondo  fim às protecções comerciais da  União Europeia para com os EUA, e a preparar, inversamente, o seu reforço em relação ao resto do Mundo. É óbvio que este tratado vai pôr sob pressão, aliás, sob ainda mais pressão, toda a economia europeia. Obviamente que, na Europa, só a Alemanha está preparada para este embate. Os EUA podem invocar que a supressão será bilateral, mas contam com numerosas defesas para compensar a falta de protecções na concorrência, como as patentes comerciais, os controles de qualidade, as diferentes legislações federais, etc., que dificilmente serão torneadas por nações de menos peso político.

Entretanto, a França invocou a excepção cultural, para proteger a indústria cultural. O audiovisual francês, e o europeu em geral, nunca suportará o embate com a formidável máquina de Hollywood (para designar assim toda a máquina de produção audiovisual norte-americana), e a sua política comercial agressiva. Nem a Bollywood indiana conseguiria competir com ela. Trata-se de um problema já antigo, e muito falado. François Hollande, com a sua imagem já muito debilitada pelas numerosas e excessivas concessões que tem feito, agarrou-se a  este princípio para tentar conter a avalanche neoliberal, que é comandada, deste lado do Atlântico, pela Comissão Europeia, pois Angela Merkel tem eleições em Setembro. Imediatamente Durão Barroso classificou a posição de reaccionária.

Dizem que o ridículo mata. Se alguém quiser provar que esta frase não será muito verdadeira, poderá invocar este caso com certeza. É verdade que François Hollande tem-se prestado a que lle chamem muita coisa. Mas entre ele e Durão Barroso podem fazer uma disputa muito cerrada, para se ver qual é o mais reaccionário. Talvez o português ganhe. E não é por patriotismo que dizemos isto.

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