Parte III
(continuação)
As reformas estruturais têm sido aplicadas e estas têm consistido em destruir a Europa social que terá levado décadas a construir. Disso, dessas políticas, o Vítor Constâncio quer mais ainda, mais do mesmo, mais mercado neoliberal que aquele que existe, seja ao nível dos produtos, seja então ao nível dos factores. E os resultados destas políticas para além de terem gerado a matriz que levou a este caos, antes de 2008, aceleradas ainda em intensidade e em ritmo de aplicação, aliadas à desprotecção social praticada e à minimização dos estabilizadores automáticos também imposta, levaram à hecatombe total de que os milhões de desempregados, os milhões de desempregados em fim de linha e sem subsídios já, mas com família a alimentar e encargos da vida a pagar, são um exemplo, como o são igualmente os milhões de jovens que não terão tão depressa emprego, os milhões de cidadãos que deambulam por essa Europa fora e completamente desprotegidos pelo sistema neoliberal a vigorar sob a égide de Bruxelas, a situarem-se quase ao nível da escravatura para sobreviverem, porque lá longe, ninguém sabe, ninguém os vê. Sabe, Vítor Constâncio, o inferno são os outros, a lembrar Sartre, a lembrar também o que me disse uma vez uma “generala soviética” a trabalhar no Algarve, em Albufeira. Fez de tudo, foi o que me disse, porque do seu meio não havia ninguém que por ali a visse!
Na minha narrativa, um exemplo, uma fotografia construída, do que tem sido a Europa de antes da crise e de depois da crise, a Europa das desigualdades sociais e da desigualdade crescente na repartição, acelerada agora quando se reduz brutalmente o papel de redistribuição do rendimento que caracterizava o modelo da Europa social:
Na sua narrativa, diz-nos:
Desde a eclosão da crise da dívida soberana, a maioria dos países, nomeadamente os países em extrema dificuldade, têm posto em prática grandes esforços de ajustamento orçamental. Com base nas Previsões Económicas da Primavera 2013 da Comissão Europeia, a Grécia melhorou o seu saldo primário estrutural em mais de 10,6 pontos percentuais (p.p.) entre 2009 e 2012. A Irlanda (6.6 p.p.), Portugal (5.7 p.p.) e Itália (3.1 p.p.) têm também realizado esforços substanciais de ajustamento, que estão bem acima dos 2,2 p.p. que é a média na Zona Euro. A Espanha está perto da média. No entanto, ainda são necessários esforços na maioria dos países para fazer com que os rácios da dívida pública se situem num nível mais sustentável (…).
Pois bem, vejamos os feitos das políticas deflacionistas na nossa narrativa:
Depois do rombo no PIB para toda os países entre 2008 e 2009, vieram as políticas anticíclicas mais ou menos impostas pela UE e o PIB passou a crescer para toda a gente, com exclusão da Grécia e da Irlanda. A partir de 2010, as políticas deflacionistas aplicadas à Itália, a Portugal e à Espanha geram os efeitos que aí se mostram, mostram a riqueza que se perdeu. Retomando a sua narrativa diz-nos:
Voltando-nos para o ajustamento na competitividade, medida pela taxa de câmbio real e calculada esta a partir dos custos relativos em trabalho, os progressos têm sido significativos em termos de melhoria desde 2008 e já mais do que compensaram as perdas acumuladas desde 1999. Os países melhoraram a sua posição de competitividade, quer tanto em relação ao resto do mundo quer ainda face à Zona Euro. De acordo com os indicadores harmonizados de competitividade com base em custos laborais unitários, a Irlanda teve o ajustamento mais forte (-19% desde 2008), enquanto a Itália fica com uma variação vizinha de zero e apresenta-se com o ajustamento mais limitado entre os países em dificuldades. A Grécia (-9%), a Espanha (-9.5%) e Portugal (-6.6%) registam melhorias significativas.


