SOBRE UM MUITO BOM PROFESSOR, SOBRE UM MUITO MAU BANQUEIRO – ALGUMAS NOTAS QUE EM FORMA DE CARTA AO DR. VÍTOR CONSTÂNCIO PODERIAM SER ENVIADAS. Por JÚLIO MARQUES MOTA.

Parte V
(continuação)

O texto em questão, a petição, refere-se à China de forma explícita, mas como sublinhou e bem Chevènement, a Alemanha é a China da Europa, devido à sua política comercial agressiva, mercantilista. Acrescente-se, esta estrutura de exportações, que permite os famosos excedentes que alimentam a Europa, foi construída no espaço de mais de um século, remontando à data desde Bismarck, talvez. Já com a Zona Euro, batidos depois os concorrentes europeus com uma moeda forte (euro alto) que não prejudica a Alemanha, antes pelo contrário, garantia o seu abastecimento de matérias-primas e produtos intermédios a preços relativamente mais baixos para a qual também contribuía a queda de todo o bloco Leste da Europa com uma mão-de-obra de alta qualidade e barata que passou a produzir para Alemanha quer no seu país de origem quer na parte ocidental. Tudo isto permitiu assim à Alemanha alargar a sua especialização em produtos de fraca elasticidade da procura relativamente ao preço e associando a isto uma política deflacionista interna, via leis Hartz. Como dizia o PDG da Porsche na altura, ficamos com a Coreia já aqui ao lado! Tudo isto permitiu que a Alemanha domine na indústria transformadora as produções de alto valor acrescentado de que á principal exportadora a nível mundial, ao mesmo tempo que a Europa industrialmente e como um todo se ia deslocalizando, se ia desindustrializando. Neste contexto, enquanto a política expansionista da Alemanha se faz também à custa de todo o continente europeu sobre os bens de gama média/alta, com a Alemanha a ocupar a liderança, os países ditos em dificuldades são igualmente atingidos pelos países emergentes (sobretudo pela China) nos produtos de gama média/baixa, e assim se vai cavando também a desindustrialização nas zonas mais frágeis a sul da Europa. Tal como o exemplo alemão mostra, uma política de correcção dos desequilíbrios macroeconómicos exige então profundas transformações na estrutura produtiva, o que leva décadas, pelo menos, exige investimentos em grande escala e exige igualmente um Estado fortemente interveniente, fortemente regulador e industrialmente participante, exige, diremos a aplicação das normas expostas e solicitadas ao Parlamento Europeu. Foi assim em todo o lado, provado pela força da história. Adicionalmente, nesta perspectiva, exigem-se défices públicos alargados que sustentem essa dinâmica de investimento público e privado, contrariamente, mais uma vez, ao que se está a fazer agora. Nesta lógica infernal, lamento dizê-lo, é Portugal e outros países de estrutura produtiva relativamente equivalente que estão globalmente a ser destruídos. Fazendo-se o contrário do se deveria fazer, está-se a aniquilar o Estado, aniquilação essa a que pomposamente chamam de refundação, e por essa via estão a aniquilar a sociedade, a estrutura produtiva, o capital social e humano, está-se inclusive a retirar toda e qualquer margem para o Estado intervir nessa modificação histórica, a única via de correcção dos desequilíbrios macroeconómicos de que tanto se fala. Foi também assim que se fizeram os 30 gloriosos anos de crescimento europeu! Querer resolver os desequilíbrios macroeconómicos na base das políticas de austeridade é então pura e simplesmente estar a assassinar os povos que são obrigados a praticá-las e estes já são muitos: Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda, Itália, Chipre, Malta, Eslovénia, Letónia, Roménia, Hungria, França, Inglaterra, Holanda, Finlândia e quem se irá a seguir… Esperamos que a Alemanha e Vítor Constâncio não despertem demasiado tarde desta realidade que se pode tornar bem violenta. Entretanto, com essa crise, o pesadelo europeu que é esta realidade, é visto pela Alemanha, como um sonho[1], o sonho alemão e a razão é simples: a mão-de-obra altamente qualificada dos países da periferia e que saiu bem cara ao respectivo país de formação tem hoje como destino de eleição este país, sobretudo a de elevada formação e alta qualidade, “descapitalizando-se a periferia do seu mais importante investimento público, o investimento na educação, o investimento no seu futuro”. Mas não é tudo como mecanismo de pauperização das periferias, que descem as escadas do inferno a caminho da precariedade absoluta enquanto países, precariedade determinada pela Troika, pelo BCE, portanto. Onde a liquidez já falta, esta escoa-se para o “safe heaven”, para o porto seguro que representa a Alemanha, fugindo das periferias. Com efeito, neste país os capitais abundam porque fogem dos outros países, como fuga para um “safe haven” e desta forma a Alemanha financia-se quase a custo zero. Como assinala Boysen-Hogrefe (2013):

Quantificar o nível de redução, de economias, para o governo federal alemão que serão resultantes das mais baixas de juro aplicadas só é possível com algumas hipóteses restritivas, uma vez que os rendimentos dos títulos dependem do impacto de vários factores. No entanto, pode-se argumentar que as maturidades a dez anos de antes da crise são bem “normais” com respeito às taxas de juros e aos movimentos do ciclo de negócios. Assim, as taxas de juro médias verificadas neste período serão utilizadas como referência.

constâncio - VIII

Um cálculo para todos os títulos emitidos a curto prazo e os títulos que foram emitidos desde 2009 mostram que os juros pagos em 2012 foram menores em aproximadamente €10 mil milhões que o cenário de referência. Pode-se pois considerar que as economias assim conseguidas em termos de orçamento federal irão subir para 13 mil milhões este ano. Somando-se todos estes ganhos que são devido eles a menores taxas de juros que estão a ser pagas pelos títulos de divida pública de médio e longo prazo emitidos pelo governo federal alemão e pelos títulos de curto prazo entre 2009 e 2013 atinge-se um considerável valor de cerca de 80 mil milhões. Mas Vítor Constâncio diz-nos:

“Não obstante isto, não é agora o momento de mudar de rumo, pois até se poderia destruir tudo o que já se conseguiu”.

As vantagens de uns, neste caso as vantagens da Alemanha, são as desvantagens dos outros, como agora se mostra, ou seja com a Alemanha a ganhar em todos os tabuleiros, até neste, o da dívida pública.

(continua)
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[1] A lembrar o artigo do Le Monde, Rêve allemand, cauchemar européen (Leparmentier 2013).

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