SOBRE UM MUITO BOM PROFESSOR, SOBRE UM MUITO MAU BANQUEIRO – ALGUMAS NOTAS QUE EM FORMA DE CARTA AO DR. VÍTOR CONSTÂNCIO PODERIAM SER ENVIADAS. Por JÚLIO MARQUES MOTA.

PARTE IX
(CONTINUAÇÃO)

… 

Curiosamente já com o texto concluído vejo um artigo de Krugman (2012) onde se pode ler:

Em primeiro lugar, a história da Letónia é muito mais intensa e mais dura que a da periferia da Europa, em geral: durante um certo período, houve enormes fluxos de capital e consequentemente houve os correspondentes défices comerciais, que então foram repentinamente bloqueados. No gráfico abaixo o défice da balança corrente da Letónia está em percentagem do PIB, conjuntamente com sua taxa de crescimento:

constâncio - XVIIAssim, a Letónia converteu o seu enorme défice na balança corrente num excedente, embora agora esteja deficitária, num valor modesto, é certo. No entanto, a Letónia também sofreu uma contracção económica gigantesca, esperando-se assim ter como efeitos uma diminuição forte das importações e uma melhoria da balança comercial. E sobre a desvalorização interna? Será que a Letónia mostrou que é possível haver salários em forte descida e suficientemente flexíveis, para que realmente não se precise do ajustamento pela taxa de câmbio? Na verdade, não — ninguém o mostrou.

constâncio - XVIIIEsta é a linha de fundo que nos diz que enquanto a capacidade da Letónia para suportar a extrema austeridade que lhe foi imposta é politicamente impressionante, os seus dados económicos não podem apoiar, de forma alguma, qualquer reivindicação que esteja a ser feita para este país poder ser considerado como sendo uma verdadeira lição de economia para o mundo.

Mas contra Krugman, contra todos os economistas progressistas, Vítor Constâncio diz-nos:

“Não obstante isto, não é agora o momento de mudar de rumo, pois até se poderia destruir tudo o que já se conseguiu”.

Mais claro não se poderia ser quanto à mistificação feita à volta das políticas de deflação e à certeza de que assim, a aplicar as medidas propostas pela Troika e por Vítor Constâncio, a luz do túnel não veremos… a não ser que a Europa rebente numa noite de um qualquer verão como ia acontecendo em Londres, como pode acontecer no Brasil neste momento. O modelo de referência, a Letónia, é afinal uma verdadeira manipulação, e foi com essa manipulação, aliada a duas outras manipulações: uma, o engano do FMI, os multiplicadores ditos orçamentais, publicamente agora reconhecidos como erro; e a outra, a dos trabalhos de Rogoff e Reinhart, com os quais, a seguir, os liquidacionistas da Europa, os europeístas, se lançaram a todo o vapor a destruir o modelo social europeu, como se tem visto em Portugal.

Há dias um analista de mercados questionava-se sobre quem mandava na Europa e dava a sua resposta, tomando a liberdade de a dar através de uma citação de Tayllerand, “Hic, Haec, Hoc”. Com isso o referido analista queria dizer duas coisas: a primeira é que estávamos perante um golpe de Estado, equivalente ao 18 de Brumário em França e a segunda é que havia um imperador, Napoleão, o Hic da expressão que aqui será Mario Draghi, havia ela, a Lagarde, o termo Haec, e havia um verbo-de-encher no Triunvirato, o Hoc da expressão, neste caso a representar aqui Durão Barroso, sempre a oscilar, de acordo com as pressões e com as ambições pessoais, igualmente. Hoje concordamos com o referido analista mas neste caso significa que estamos a considerar Vítor Constâncio como a mão auxiliar mais próxima do ditador dos tempos modernos, Mario Draghi, estamos assim a considerar que aquele desta forma terá virado as costas à Democracia, pois de Democracia esta Europa só já conserva o aspecto formal, e mesmo esse muito mal. Dizer isto de alguém que foi secretário-geral do Partido Socialista, como o foi Papandreou na Grécia igualmente, é dizer que se virou as costas à História, à Humanidade, à luta de classes, e esta pode irromper em qualquer momento tal é a violência actualmente instalada e aí tenho medo que corra sangue, muito sangue, como nos anos de 1930, sangue dos inocentes, certamente, mas com a certeza de que muitas cabeças rolarão, igualmente.

E sobre o que nos diz Vítor Constâncio, este não está sozinho. Com efeito, ainda muito recentemente o Wall Street Journal num trabalho de Hannon (2013) referia o seguinte sobre o economista-chefe da OCDE, Carlo Pier Padoan:

A zona euro está em risco de arrebatar a derrota das garras da vitória ao abandonar os esforços para reduzir os défices orçamentais e para enfrentar e corrigir os problemas económicos de longo prazo, avisou na segunda-feira o economista-chefe da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico.

“Há um risco que a fadiga das reformas aumente significativamente, com os governos a enfrentarem uma resistência social muito forte, o que está a acontecer no momento errado, porque nós estamos quase a atingir o objectivo”, disse Padoan. “A nossa mensagem é a de que temos feito muito na Europa, não devemos desperdiçá-lo”.

Padoan disse que a crescente percepção de que a austeridade tem sido inútil está incorrecta. “A consolidação orçamental está a produzir os resultados, a dor está a produzir bons resultados”, disse também.

Tal como outras instituições financeiras internacionais, Padoan disse que a OCDE irá baixar nas suas previsões de crescimento para a Zona Euro e agora teme que a esta possa vir a enfrentar um longo período de estagnação. “Esta é uma fonte de preocupação”, disse ele. “Há um risco da economia da Zona Euro permanecer durante muito tempo em situação de estagnação”… “Uma consolidação fiscal mais suave e um contínuo esforço nas reformas iria quebrar um ciclo virtuoso, ciclo este que se tornaria mais aceitável (para os eleitores)”. [E a conclusão do economista-chefe da OCDE não se faria esperar]: “eis portanto porque é que devemos levar a que as pessoas percebam que precisamos de bem mais tempo para que as políticas venham a dar os seus frutos”.

Um discurso, como se vê, bem aprendido e a corresponder igualmente aos desejos expressos por Vítor Constâncio, pela Troika assim como por muitos mais. Não é de estranhar nada do que acabamos de citar, mas o que espanta é a brutalidade com que é dito. Nem sequer pudor já existe. E não é de estranhar esta concordância de pontos de vista pois a função da OCDE é, do meu ponto de vista, a de dar um carimbo supostamente científico e independente daquilo que os governos pretendem fazer. E à pergunta chave quem é a OCDE, diremos que esta, a acreditar em Krugman e em muitos outros economistas sérios, não passa de um organismo destinado a publicar as teses dos governos dos estados associados. Nesta sequência, o texto agora citado aparece bem como a voz do dono, e não é a de um dono qualquer, é a do segundo homem mais importante na Europa. O peso da mentira sobre os povos, é disto que se trata, como o exemplo da Letónia bem o evidencia quando em contraste com o que nos diz o economista-chefe da OCDE.

(continua)

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