SER POETA – 5 – por Álvaro José Ferreira

A Defesa do Poeta

Poema de Natália Correia (in “A Mosca Iluminada”, Lisboa: Quadrante, 1972; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 330-31)

Recitado por Eunice Muñoz* (in LP “Antologia da Mulher Poeta Portuguesa”, Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 2011)

Senhores jurados sou um poeta

um multipétalo uivo um defeito

e ando com uma camisa de vento

ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis

de armazenado espanto e por fim

com a paciência dos versos

espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos

(curtido couro de cicatrizes)

uma avaria cantante

na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade

o vosso enfarte serei

não há cidade sem o parque

do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes

a prémio minha rara edição

de raptar-me em crianças que salvo

do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho

de em pó volverdes sois os reis

sou um poeta jogo-me aos dados

ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes

puro exercício de ninguém

minha cobardia é esperar-vos

umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete

que medo vos pôs por ordem?

que pavor fechou o leque

da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais

a pena na tinta da natureza

não apedrejeis meu pássaro

sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas

apanhadas em delito de perdão

a raiz quadrada da flor

que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta

de um verso onde o possa escrever.

Ó subalimentados do sonho!

a poesia é para comer.

Nota da autora: «Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado, que sensatamente me advertiu de que essa minha insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.» (in “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993; Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 330)

* Selecção de textos – António Barahona da Fonseca

Masterização – José António Regada, nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Fevereiro de 2010

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