“O HOMEM DE LISBOA”, de Thomas Gifford – por Carlos Loures

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Artur Alves dos Reis foi o protagonista da burla mais espectacular que se conhece no Portugal contemporâneo. Não se pode falar de Alves dos Reis como de um burlão, poi o seu golpe constitui um requinte de imaginação e criatividade. A sua história temImagem2 constituído inspiração para livros e para séries televisivas –  uma italiana (da RAI)  há anos atrás e outra, mais recente, portuguesa, baseada num guião de Francisco Moita Flores – nenhuma parece ter feito justiça ao engenho e à superior inteligência de Alves dos Reis. Dos livros, é particularmente bom o romance The Man from Lisbon, do escritor norte-americano Thomas Gifford (O Homem de Lisboa).

Tracemos de forma sucinta a biografia de Artur Virgílio Alves Reis, nasceu em Lisboa em 3 de Setembro de 1898 e morreu na mesma cidade em 9 de Julho de 1955. Nasceu numa família de escassos recursos, o pai tinha uma agência funerária que faliu. Artur iniciou o curso de engenharia, mas abandonou-o ainda no primeiro ano. Casou com Maria Luísa Jacobetty de Azevedo, pertencente a uma família abastada. Em 1916, com 18 anos, foi para Angola tentar fazer fortuna. Muniu-se de um diploma de Oxford, atribuído pela Polytechnic School of Engenneering – a qual não existia. O diploma, claro, fora primorosamente falsificado por Artur – hoje seria fácil com o software e o hardware disponíveis. Há quase cem anos exigia grande perícia e engenho. Segundo a carta de curso, estava habilitado com múltiplas competências que cobriam quase todas as áreas da Engenharia e não só – Oxford é Oxford! Arranjou colocação no município – rede pública de esgotos – e tornou-se frequentador da boa sociedade luandense.

Com um cheque sem cobertura iniciou uma operação de grande monta – comprou a maioria das acções da Companhia de Caminhos de Ferro Transgridamos de Angola. Nem tudo era falsificação – Artur deparou com um parque de locomotivas avariadas e de carruagens inactivas e pôs tudo a funcionar. Enriqueceu. Em 1922 regressou a Lisboa, rico e prestigiado. Adquire uma empresa representante de uma marca americana de automóveis. Segue-se a operação Ambaca -? – passa cheques sem cobertura e adquirida a empresa usa o activo de tesouraria para cobrir o buraco na sua conta pessoal. 100 mil dólares ganhos através de um estratagema. Com o que ganhou na Ambaca, compra a Companhia Mineira do Sul de Angola. Em 1924, no Porto, um percalço – é preso por desfalque e acusado de fazer tráfico de armas.

 Em 27 de Agosto de 1924 saiu da Cadeia da Relação com uma ideia de uma grande ousadia. Os 54 dias de cárcere tinham-se revelado proveitosos – o plano assentava numa ideia muito simples – o problema dos falsificadores de notas, mesmo o dos mais sofisticados, era conseguir um produto final sem falhas – rigor das chapas de impressão, qualidade do papel e das tintas, numeração sequencial… Mais tarde ou mais cedo as notas falsas eram descobertas por haver falha num ou mais destes items – e se as notas falsas fossem… verdadeiras?

 E montou um esquema de grande eficácia e operacionalidade com vários cúmplices, gente qualificada e competente. Basta dizer que entre os elementos do grupo havia um financeiro holandês (Karel Marang), um espião alemão, o irmão do embaixador português na Haia… Simplificando, falsificando assinaturas da administração do banco emissor de moeda, usando influências de Cônsules, conseguiu que fosse validado um contrato fictício: encomendou em nome do Banco de Portugal à empresa britânica Waterlow & Sons Limited uma emissão de 200 mil notas de 500 escudos, usando uma chapa com a efígie de Vasco da Gama. Em Fevereiro de 1925 foi recebida a primeira entrega. E as notas Vasco da Gama iniciaram a sua navegação.

  Alves dos Reis reservava para si 25% do valor das notas – o restante era para as despesas da operação, incluindo subornos, e para pagar aos cúmplices. Mesmo assim, as importâncias que arrecadava eram fabulosas. Em Junho de 1925, Artur comprava o Banco de Angola e Metrópole (falsificando vários documentos até obter um alvará legítimo), comprou quitas, uma frota de táxis, palacetes,  automóveis, jóias para a mulher. Tentou comprar o Diário de Notícias… No fundo, Artur estava a tentar aplicar o golpe da Ambaca a uma escala gigantesca – o último passo previsto era a compra do Banco de Portugal. Controlando o Banco, poderia apagar os vestígios da operação fraudulenta e evitar assim o perigo de uma investigação futura. Ainda adquiriu dez mil acções do Banco; mas eram precisas 45 mil para assegurar a maioria do capital.

Embora corressem rumores de que havia notas falsas em circulação, os peritos não detectaram qualquer irregularidade. Mas os boatos não cessavam e os jornalistas começaram a investigar. E na edição de 5 de Dezembro de 1925, O Século levantou o véu que cobria da quase inacreditável burla. E tudo foi deslindado. Logo no dia seguinte Alves dos Reis foi preso, bem como a maioria dos seus cúmplices – os bens confiscados.  Até 8 de Maio de 1930, data do início do julgamento, esteve preso. Não perdeu tempo e, falsificando documentos na prisão, conseguiu convencer um juiz de instrução de que a administração do Banco de Portugal estava implicada na fraudulenta operação. Foi condenado a 20 anos – 8 de prisão e 12 de degredo. Saiu em liberdade em Maio de 1945.

No dia 11 de Julho de 1955, os jornais traziam uma notícia que terá passado despercebida a muita gente: “Para o cemitério do Alto de São João, realizou-se o funeral de Artur Virgílio Alves dos Reis, de 57 anos, viúvo, que foi, há 30 anos, o organizador e um dos realizadores da grande burla do Banco Angola e Metrópole, que ficou famosa quer no País, quer no estrangeiro. Condenado, cumpriu a pena. Restituído à liberdade, procurou entrar na vida de negócios. Recentemente, porém, foi condenado por outra burla muito mais modesta. O seu estado de saúde era precário. A morte foi surpreendê-lo na sua casa da Rua Latino Coelho.”

3 Comments

  1. Circunstâncias do passado fizeram-me ouvir, variadissimas vezes, relatos muito bem documentados do caso do Angola e Metrópole. O facto de o A.dos Reis não ter querido pagar pelo Século a quantia que o seu director Pereira da Rosa ( flor para não cheirar) pretendia, fez deste jornal um denunciante constante da vida de luxo do Alves dos Reis e da Mulher o que associado com a descoberta, por um funcionário do Banco de Portugal, duma – já não recordo qual – anomalia na numeração duma das notas de 500 escudos, acabaria por levar a uma busca ao Angola e Metrópole onde foram encontrados alguns caixotes cheios de notas vindas de Londres,via mala diplomática. O, então ministro de Portugal nos Países Baixos, um Homem sério mas crédulo, foi enganado pelo irmão – um aldrabão – e aceitou que a mala diplomática fosse utilizada para fazer um favor particular sem nunca ter sabido que era para o envio das notas encomendadas à casa Waterlow.
    Ainda conheci o Dr. António Bandeira quando voltou do seu exílio nos Açores e recordo ter visto o José Bandeira, um dos activistas da burla. Se nada tivesse sido descoberto, o Salazar jamais teria chegado ao governo pois dinheiro era coisa que não faltava e fomentar negócios por meio de empréstimos era uma das maneiras de trocar as notas chegadas de Londres e com isso, por fim, acabar-se-iam os vestigios da burla. Se, agora, em vez da maioria parlamentar e o seu governo andarem a querer pagar, indevidamente, “a divida odiosa” aos vigaristas das bancas internacional e nacional que, anos a fio, andaram a roubar os portugueses, esse tal Governo – se houvesse disso em Portugal – devia era abandonar o maldito euro e, como sempre foi feito – antes de sermos colónia dos centro-europeus – mandasse fazer notas de escudos. Com esse gesto político só haveria prejuízo para quem merece tê-lo. Ao trocarem-se os euros pelos escudos- ao contrário do que foi feito há anos – o Banco de Portugal teria os euros necessários para pagar, apenas, as importações imprescindíveis. Na ordem interna haveria dinheiro para não haver pobreza, para respeitarem-se as reformas e as pensões, para garantir-se tanto o SNS como o ensino oficial, para melhor financiar-se a Justiça e, também, para acabarem os saques às finanças da Segurança Social. Se houvesse inconvenientes financeiros, como o terrorismo governamental pretende fazer acreditar, não seriam maiores, nem piores que os que estão em curso, nem doutros que estejam para chegar. Ao menos deixavamos de ser colónia e podiamos andar de cabeça erguida.CLV

  2. A bioagrafia nao esta totalmente correta. Nao foi o Seculo a descobrir a duplicacao das notas. Mas sim um jornalista despedido por suspeitar da real fortuna qiabdo ele comprou o menino douro . Quase a beira o suicidicio, por coincidencia deparpu se om duas notas com a mesma chapa e assim descoberto. E outras situas situações aqui narradas nao correspondem a total veracidade. O primeiro passo dele foi como engenheiro dos caminhos de ferro . Revordo que ele era tratado por engenheiro macaco. SABEM O PORQUÊ?

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