NO MEIO DA SELVA – por Fernando Correia da Silva

                        

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No meio da selva, um homem branco, ainda jovem, levanta ligeiramente o chapéu colonial e saúda, comovido:

  – Mr. Livingstone, suponho…

 O outro, também branco, mas velho e pálido, certamente roído pelas febres, tenta ocultar a emoção.

  Sim, é o meu nome. Com quem tenho a honra de falar?           

– Henry Morton Stanley.

 Negros de duas tribos assistem, curiosos, ao afetuoso aperto de mãos. Uns são da aldeia de Ujiji. Outros viajaram da costa oriental até ao interior de África, caminhada de milhares de quilómetros. Irrompem gritos e cânticos em línguas diferentes, mas todos irmanados na alegria. É festa ritmada, é banquete, é batuque.

 Livingstone quer saber notícias do mundo civilizado. Stanley quer saber notícias das nascentes do Nilo.

  – Estou doente e à beira da morte. Descobri o lago Bangueolo, atravessei o Tanganica. Só em Março é que atingi o Lualaba. Quis seguir-lhe o curso, saber se alcançava o Nilo, mas não tive forças e regressei a Ujiji. Preparava-me para morrer. Mas hoje, dia 10 de Novembro de 1871, se não estou em erro, chegais vós com remédios e provisões. Será sinal divino? Creio que sim. Não voltarei à costa enquanto não descobrir as nascentes do Nilo. E a vossa viagem, Mr. Stanley? Foi difícil?

 Stanley narra: espinhos, malária, insetos, trilhos rasgados em floresta virgem, nem sequer os árabes tinham ousado atravessá-la. O racionamento de víveres, a fome, os guerreiros wangvana a ajudá-lo a dominar um motim dos carregadores apavorados. A 3 de Novembro guerreiros wagouha disseram-lhe que um homem branco pousava em Ujiji. Dez meses de caminhada.

 – Vontade minha de vos encontrar…

 “Vontade de Deus”, pensa  David Livingstone.

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