NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 102 – por Manuela Degerine

Lazeres peripatéticos

Lisboa e seus arredores não têm por enquanto percursos pedestres sinalizados. Há-os nas zonas mais turísticas, Sintra, Arrábida, Cabo da Roca… Certo. E, mesmo em Lisboa, já foi pior… Eu sei. As ciclovias podem ser usadas por peões. São todavia poucas e nem sempre passam por zonas adequadas para caminhar. Na que vai de Monsanto ao Parque das Nações, por exemplo, há pedaços que atravesso de bicicleta mas não acho seguro percorrer a pé. As ciclovias devem fazer parte do plano de circulação de qualquer cidade; são necessárias. Contudo um percurso pedestre nada tem de utilitário: é a conjunção de um tempo e um espaço para ver, sentir, observar. É um lazer aristotélico, peripatético… É a curiosidade em movimento. É a aventura perto de casa. Também não exige quaisquer investimentos públicos, basta juntar o querer com o saber e uma lata de tinta (para marcar os sinais): acrescentam-se à cidade um código e uma complexidade complementares. Raros possuem hoje um conhecimento do espaço construído com livros, arquivos e muita frequentação, mas em todas as freguesias os há, em geral pessoas idosas e, numa sociedade que desvaloriza as competências dos mais velhos de maneira insensata, beneficiemos desta sua cultura solicitando-lhes a criação de alguns percursos pedestres.

– Não preciso de sinais!

Exclamam alguns leitores. Juro que também não preciso deles para ir à Baixa, ao MNAA, à Gulbenkian… Mas um percurso de vinte ou trinta quilómetros, pensado para quem caminha, um labirinto por ruas, escadas e caminhos, seguindo uma lógica temática ou não, com azulejos, igrejas, jacarandás, casas, miradouros, reformados na praça, pode situar-me maneira nova nos espaços mais conhecidos. E também gostaria de percorrer vinte quilómetros para além do Lumiar, para além da Pontinha, para além da Encarnação. É claro que nada me impede de lá ir sem percursos sinalizados contudo, por me faltar um conhecimento suficiente destas zonas, vou decerto encontrar-me à beira de estradas perigosas, Portugal foi durante trinta anos pensado para os automobilistas, exclusivamente, como se os outros, todos nós, mesmo os que conduzem, não tivessem direito ao espaço público, vou sobretudo passar perto de lugares significativos sem suspeitar que existem, casas, igrejas, árvores, antigas indústrias, parques modernos, regressarei portanto desiludida tendo no entanto estado a poucos metros do que me haveria de interessar ou comover ou elucidar ou encantar ou informar… Entretanto, faltando estes percursos pedonais, volto com frequência aos lugares, aos circuitos que conheço – ora já os surrealistas nos mostraram quanto a quebra de hábitos, rotinas, perspetivas e círculos viciosos enriquece o olhar. Um itinerário deve ser repetido, pois surgirá distinto consoante a época, pois a vida implica sempre mudança, porém não demasiado para mantermos a curiosidade. Estou a preparar dois dias de caminhada com uma amiga por Monsanto, Ajuda, Restelo, Belém… Mas outros labirintos, escolhidos por quem os conheça e não me conhece, parecem-me a melhor opção nestas viagens de um dia e muitas peripécias. Haverá alguém – câmaras, juntas, associações – que tome a iniciativa de os criar e marcar?

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