AS CIDADES MORTAS*. POR ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

I

Em certas tardes de folga , quando se podia montar a cavalo e galopar uns quilómetros, os passos das nossas montadas levavam-nos infalivelmente àquelas cidades que iam morrendo aos poucos, Armentières, Béthune… Perfeitamente ao alcance dos canhões boches, na linha de passagem dos aeroplanos, centros de tráfico importante, constantemente sobre elas caía a fúria destruidora do inimigo. De cada vez que lá voltávamos, encontrávamos no chão várias das suas casas. Dia a dia se iam tornando um montão de ruínas onde dentro em pouco só poderiam viver cães e soldados.

A população civil que ainda as habitava, que tinha instalado locandas dentro de compartimentos sem portas, aberto estaminets e for officer’s only nas melhores edificações, que ainda mantinha tristes casas de chá, pobres lojas de modas e quinquilharias baratas, raro era gente dali. Tudo eram refugiados das localidades defronte, das que estão à beira do boche. Eram aquelas pobres criaturas moralmente desamparadas, filhas a que faltam as mães, mulheres que perderam os maridos, expulsas dos seus lares e que se agarravam àquele descalabro, vivendo de todos os comércios, vendendo suspensórios e sorrisos, no meio desta formidável miséria que nos acabrunha se porventura pensamos nela.

Os habitantes daquelas cidades, os que nelas nasceram e tinham a sua vida presa às paredes que a artilharia inimiga e os torpedos dos gothas e aviatiks iam destroçando aos poucos, fugiram um dia, foram para outros pontos da França reconstituir um lar em que se terão sentido estranhos e ao qual regressarão afinal, a alma em pedaços, quando, terminada a guerra e tendo voltado ao seu rincão natal, puderem contemplar o que dele fez a barbárie da guerra.

Todos nós, os civis e os militares que por aqui giravam, somos afinal uns intrusos que invadiram sem piedade, dura e cinicamente, circulando como senhores, estas ruas e estas casas que outrora tinham quem as amasse, quem lhes ligasse o seu coração.

Se calha de se topar alguém que ficou, mais miserável que os que partiram, mais preso talvez às pedras familiares, no fundo dessas almas vamos encontrar uma tristeza e um constrangimento que gelam o sorriso nos olhos e matam as palavras na boca.

Que horrível tragédia a das cidades que aos poucos vão morrendo!

*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

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