ESTE É O REINO DE PORTUGAL – de José Brandão – por Carlos Loures

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Falámos aqui de Este é o Reino de Portugal, o livro recentemente lançado pelo argonauta José Brandão, um historiador cuja investigação tem incidido particularmente sobre a violência armada na história contemporânea de Portugal, proporcionando-nos estudos de leitura obrigatória como  Sidónio – Contribuição para a história do presidencialismo”, “Carbonária – O Exército Secreto da República”, e “Portugal Trágico – o Regicídio”.  entre outros. Depois de ter lido o livro, trago-vos hoje a minha opinião. (CL)

Para um trabalho que há pouco terminei, tive de “reconstruir” na medida do possível a cidade de Lisboa em finais do século XV. TarefaImagem1 complicada, pois as fontes nem são abundantes nem, na maior parte, revelam a preocupação de ser rigorosas. Claro que ninguém contava que em 1531 um terramoto de elevada magnitude destruísse uma parte importante da cidade (e matasse cerca de 30 mil dos 100 mil habitantes que a cidade contava à época). Vem esta reflexão a propósito de uma leitura que há pouco terminei – o livro de José Brandão, Este é o Reino de Portugal.

Esta leitura ajudou-me a compreender até que ponto uma descrição que procura ser objectiva, é muitas vezes inquinada pela subjectividade do narrador. Diga-se que este livro se refere a impressões de estrangeiros sobre todo o país e não apenas sobre Lisboa, pois José Brandão escolheu as narrativas de viagem de vinte e seis viajantes estrangeiros que visitaram Portugal do século XVII ao XIX, entre eles Charles Dellon, François de Tours, John Colbatch, Giuseppe Baretti,  William Beckford, Robert Southey, Carl Israel Ruders, Hans Christian Andersen, o príncipe Felix Lichnowsky, Marianne Baille e Maria Ratazzi, Miguel de Unamuno…

As excelentes fontes seleccionadas pelo autor proporcionam-nos uma visão poliédrica que nos permite tirar ilações, não apenas sobre Portugal, como sobre alguns aspectos da Europa na época abrangida – do último quartel do século XVII ao princípio do século XX. Uma época má para Portugal, pois saía de uma guerra de 28 anos e com um pequeno oásis de fausto em que D. João V dissipou os recursos vindos sobretudo do Brasil. O terramoto, as invasões francesas, a guerra civil… Após a época dourada dos Descobrimentos, vivia-se agora um longo período de decadência. Na restante Península as coisas não seriam muito diferentes. Nas Conferências do Casino, Antero de Quental caracterizaria esse período traumático em Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos. José Brandão relativiza pois o valor documental das narrativas “queixam-se de tudo, esquecendo o que certamente sofreram noutros países por onde andaram ou até nos seus próprios”. As cidades portuguesas eram sujas, não dispunham de saneamento básico. Mas no redto da Europa a realidade não seria muito diferente. Patrick Süskind no seu romance O Perfume, diz-nos sobre as cidades europeias do século XVIII, em que dominava «um fedor dificilmente imaginável para o homem dos tempos modernos. As ruas tresandavam de Lixo, os saguões tresandavam a urina, as escadas das casas tresandavam a madeira bolorenta e a caganitas de rato e as cozinhas a couve podre e a gordura de carneiro; as divisões mal arejadas tresandavam a mofo, os quartos de dormir tresandavam a reposteiros gordurosos, a colchas bafientas e ao cheiro acre dos bacios…» E prolonga a descrição passando pelas ruas, fábricas, campos… «O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza tresandava em todas as suas camadas, o próprio rei cheirava tão mal como um animal selvagem e a rainha como uma cabra velha…» – Süskind fala de Paris antes da Revolução. Londres seria melhor? Basta ler Charles Dickens  para nos apercebermos como se vivia na capital do império mais poderoso do século XIX.

Os viajantes comparavam por vezes realidades diferentes – a ordem e a relativa higiene de um mosteiro em França ou em Itália com uma estalagem de estrada em Portugal. Na sua maioria, as opiniões são, talvez, desfavoráveis. Mas é curioso como o povo é clssificado por uns como o “mais feio da Europa”, para noutro se exaltar a beleza dos portugueses. O mesmo com as cidades, as estradas, as estalagens. Nota-se, sobretudo por parte dos viajantes vindos dos impérios emergentes, França e Grã-Bretanha, um desdém acrescido perante a decadência das potências ibéricas – “provar” que Portugal tinha um império colonial desproporcionado, fazia parte desse sentimento europeu. Sentimento que relativamente a França ficaria bem evidenciado com o grave incidente diplomático do navio francês Charles & George (1857 e 1858).O navio foi aprisionado e o seu capitão condenado pela armada portuguesa por suspeita de tráfico de escravos entre Moçambique e a Ilha de Reunião. França recorreu da sentença, o navio foi enviado para Lisboa onde ficou a aguardar uma decisão final. O caso deu que falar em toda a Europa, a razão de Portugal era evidente. Mas a Inglaterra apoiou a tese francesa e o Governo português teve de libertar o navio e capitão e de pagar uma indemnização.  Quanto à Inglaterra, o triste episódio do Ultimato (1890) é bastante elucidativo. De modo algum se pretende branquear a realidade e negar o mau estado das estradas, a má qualidade das estalagens, a falta de higiene das cidades. Porém, e José Brandão neste seu magnífico trabalho por diversas vezes no-lo diz, as opiniões são frequentemente induzidas por impressões casuais. E também por preconceitos de índole política e não só.

É um livro cuja leitura se aconselha vivamente e que, pese embora o seu carácter documental, se lê com o prazer de quem lê um bom romance.

2 Comments

  1. PARABENS, SR JOSÉ BRANDÃO , LIVRO MUITO OPORTUNO E SOBRETUDO QUE AJUDA A COMPREENDER-NOS, QUIÇÁ MELHOR . JÁ ESTOU À ESPERA DO SEU BPRÓXIMO LIVRO , SANTOS BARBOSA 14-12-2014.

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