NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 103 – por Manuela Degerine

Campo de flores

Não voltara a percorrer a primeira etapa do Caminho de Santiago. Tinha lá passado em setembro de 2009 com um calor que cozia os canaviais, não avistara vivalma em todo o vale do rio Trancão, seguiram-se as reações apavoradas de quantos me ouviram, de quantos me leram – tudo isto me havia dissuadido de regressar. Entretanto eu continuava viva e a percorrer o Caminho, de Lisboa a Santiago, do Porto a Mós, do Porto a Muxia (duas vezes), sem falar das variantes, por conseguinte este ano diversos amigos insistiram para fazermos caminhadas. Arrisquei a sugestão:

– Podemos ir pelo Caminho de Santiago…

O qual foi recentemente sinalizado a partir da igreja do santo. Passa pela Sé, Santa Apolónia, Madre de Deus, Beato, Marvila e Parque das Nações. Em 2009 encontrei a primeira seta amarela junto à foz do Rio Trancão… Tinha ido a pé para o Parque das Nações mas – por não conhecer aquela parte de Lisboa – seguira os piores percursos, isto é, os mais inseguros e desagradáveis. (Sucede assim quase sempre.) Ora o Caminho de Santiago avança por ruas antigas, habitadas, com cafés, igrejas, mercearias, casas de fado, a Madre de Deus, o Abel Pereira da Fonseca, a Joana de Vasconcelos, gente a conversar, a fazer compras, a passear o cão…

E, neste dia 30 de abril, após um inverno pluvioso, o vale do rio Trancão está florido, colorido, animado, perfumado. É o Jardim das Delícias. É uma alegoria da Primavera. É o mais belo espaço que se possa descrever. O que parecia um deserto, entre o vale e Alpriate, surge pintado com grandes manchas de azul, roxo, branco, amarelo, vermelho, cor-de-rosa… Há rãs, há abelhas, há vacas, há ovelhas, há aves pernaltas… Há cavalos a pastar nas margaridas. Nenhum jardim cultivado pode atingir esta suprema beleza. Esta total perfeição.

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O meu companheiro revela-se um excelente papa-léguas: prosseguimos até Alverca. Em 2009 eu avançava pela espinha de um dragão que cuspia fogo, agora pisamos com entusiasmo o caminho verde e uma seta mal colocada – que interpreto como mudança de percurso – desvia-nos para esta encosta com orquídeas bravas: agradecemos. Uma brisa alegra caminheiros e canaviais.

Como a primavera não costuma ser eterna, regresso quatro dias mais tarde com a Mila, outra boa caminhante, do Parque das Nações a Alpriate, ida e volta: vinte e dois quilómetros. A praça mantém a aparência e quietude de outros tempos, sabe bem sentarmo-nos nos bancos para almoçar e descansar; há, numa rua escondida, um café para bicas e sandes. É sábado: no regresso encontramos multidões de ciclistas e andarilhos. A caminhada chegou enfim a Portugal, boa nova para a segurança social… E não só.

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