A CANETA MÁGICA – A MORNA, EXPRESSÃO DA ALMA CABO-VERDIANA

 

Dando corpo ao apoio à candidatura da morna a património imaterial da Humanidade, classificação outorgada pelo organismo das Nações Unidas para a Educação, as Ciências e a Cultura, começo por dizer o mesmo que afirmei relativamente ao fado – a atribuição desta classificação nada acrescentará à glória da morna. O tango não perderia um mínimo da sua história, se a UNESCO não o integrasse na sua lista de património imaterial – a história do tango vive do génio de Carlos  Gardel e de Astor Piazzola, entre outros, o fado apoia-se na voz soberba de Amália Rodrigues e de uma extensa galeria de compositores, letristas e cantores; a morna tudo deve a Eugénio Tavares, a Bana, a Cesária Évora e a muitos outros. A classificação da UNESCO, seja ou não atribuída, não passará de um fait divers, de uma deixa para os guias turísticos. Que fique claro – a morna é mais importante do que a UNESCO – se a UNESCO se extinguir (por falta de meios)  a morna continuará, dolente e romântica, a encantar-nos. E a ser o halo luminoso da alma cabo-verdiana.

No pós-25 de Abril, no quadro de um projecto institucional de erradicação dos bairros de lata, contactei núcleos de cabo-verdianos em bairros da chamada «cintura industrial de Lisboa» – na Pedreira dos Húngaros (Algés), nas Marianas (Parede), no Bairro do Fim do Mundo (Cascais). Pude testemunhar o apego que aqueles imigrantes mantinham à sua terra e, bem como uma quase total ausência de instrumentos culturais que alimentassem esse amor.

Com o meu amigo Manuel Ferreira, com o qual trabalhava numa edição, comentei essa circunstância, que à época era gritante e que hoje está relativamente mitigada. Falávamos muito em Cabo-Verde e na sua cultura. Quando visitei o arquipélago confirmei o que o autor de Morabeza me dizia sobre a singularidade das gentes cabo-verdianas e o valor ímpar da sua cultura. Com vista a um trabalho que talvez consiga realizar – uma história concisa da literatura e da cultura cabo-verdianas – tenho alguns apontamentos que irei partilhando convosco. Um desses apontamentos diz respeito à morna. Por isso o escolhi para iniciar esta série de crónicas.

Há um aspecto recorrente na investigação das origens das canções populares, na música urbana – nunca há certezas, não existem fontes primárias credíveis. O que é estranho, pois trata-se de fenómenos culturais relativamente recentes, com origem no século XIX (o caso do fado e da morna) ou mesmo no século XX, como sucede com o tango argentino e uruguaio. Há outras músicas urbanas – o cuplé madrileno, a valse musette parisiense – surgem na mesma época, mas parecem ter uma genealogia diferente. Fado, morna e tango, parecem pertencer a um mesmo tronco, parecem ser ramos de uma árvore que, originária de África, frutificou na América, na Europa e regressou a África…  Por isso, para falar sobre a morna, terei de referir estes dois géneros.

Jorge Luis Borges não recusava a ideia de que o fado estivesse ligado à génese do tango. As origens do fado são também nebulosas. O substantivo  fado, do latim fatu (predição, oráculo, destino, fatalidade), encontra-se numa destas acepções em muitos autores, incluindo em Camões. Em Os Lusíadas registam-se 18 utilizações, das quais dou três exemplos: – Prometido lhe está do Fado eterno, -(I-28-1);Triste ventura e negro fado os chama – (V-46-5); Chamam-lhe fado mau, fortuna escura, ( X-38-7). A primeira referência escrita ao fado como expressão musical parece ser a de Camilo Castelo Branco no capítulo V de Eusébio Macário, página 115(1879), quando uma personagem inclina o tronco «sobre o braço da guitarra e dedilhou und arpejos… o prelúdio do fado de Coimbra». Segundo o Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, o vocábulo usava-se já na acepção musical por volta de 1820 – o que vai ao encontro da tese de que o fado entrou em Portugal com o regresso da corte a Lisboa, em 1821. O que, desde logo, põe de parte a ideia de que o fado poderia estar ligado às origens da morna,

A mesma ausência de fontes credíveis que afectam a história do fado e a necessidade de recorrer à tradição oral – e digo o que todos dizem – a morna nasceu ainda no século XVIII na ilha da Boa Vista. Há quem coloque o lundum na linha genealógica da morna – e aqui surge um primeiro elo de ligação com a canção nacional portuguesa, em que o lundum é dado como um género seu antecessor. Bem como o choro, melopeia vocálica, canção de trabalho ou lamento fúnebre,  que os escravos negros entoavam nas roças brasileiras.

O mistério que envolve as origens da morna envolvem a própria designação do género – a explicação mais óbvia é a de que provem do vocábulo português morno, que significa tépido, cálido. Mas há quem defenda a origem francesa – morne, ligada às chansons des mornes – mornes são as colinas das Antilhas – e, ainda menos provável. A origem inglesa, de to mourn – que significa carpir os mortos. Como se pode ver, parece que algum gnomo malicioso andou a semear dúvidas que dificultassem a vida a quem queira saber como nasceu o fado ou a morna. E não esqueçamos o tango que pode ter a ver com as outras duas expressões musicais. Apareceu depois, já no século XX, quando a Buenos Aires e a Montevideu chegavam levas de portugueses e cabo-verdianos atraídos pela fertilidade daqueles territórios (além de que o Uruguai foi colónia portuguesa). Os emigrantes que ali chegavam  às duas metrópoles do La Plata, levavam guitarras portuguesas na bagagem. É o que se diz.

Continuarei com este tema.

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