SAÍDA DO EURO – COMENTÁRIO À RESPOSTA DE JÉRÔME CREEL, por JÚLIO MARQUES MOTA. Versão portuguesa – I

Tradução do texto francês por Luís Peres Lopes.

Caro Jérôme Creel

Obrigado pelo artigo, em que, desde já lhe posso dizer, toca todos os pontos importantes, como um verdadeiro artista, com finos pincéis, de uma forma incrível e também muito profunda. Refere: “Antes de mais, agradeço-lhe os os seus comentárioas ao texto que agora lhe envio e do qual é o primeiro leitor” e aqui respondo ao seu pedido aproveitando para falar do meu país, do nosso povo, dos nossos dramas.

A pergunta que eu lhe coloquei, e ambos concordamos com a sua pertinência, questiona o futuro da zona euro e do euro, certamente. E questiona naturalmente o famoso modelo económico-social europeu sobre o qual os americanos estão sempre a falar.

Tomemos o caso de Portugal: o desemprego aumenta, quer o de curto quer o de longo prazo, o desemprego jovem atinge níveis elevadíssimos, o sistema de saúde está em ponto de ruptura, mesmo que tal não seja dito. O exemplo dado por um grande hospital, neste verão muito quente, é esclarecedor. O sistema de ar condicionado deste hospital avariou. A temperatura dentro do hospital chegou aos 42 graus e todo o sistema bloqueou. Por exemplo, para economizar dinheiro, ninguém o diz desta forma, adiaram-se intervenções cirúrgicas para se reduzir a despesa com o bloco operatório! Começa-se a poupar em medicamentos avançados, os enfermeiros ganham menos do que uma empregada doméstica e, um dia num futuro muito próximo, pode vir a acontecer o mesmo aos médicos. Não é possível imaginar as suas condições de trabalho, as suas remunerações, também no sector privado. Muitos ganham menos de 800 euros por mês. É de loucos. E podíamos continuar.

Se passarmos para o sistema de ensino, estamos na mesma situação. Milhares e milhares de professores solicitaram a passagem à reforma, dado que não aguentam as condições de trabalho. As turmas têm muitos, demasiado, estudantes, os professores estão esgotados com as cargas de trabalho a que se acrescentam os imensos trabalhos burocráticos e muito mais. Os custos desta degradação a prazo serão enormes. Se passarmos para o ensino superior, aqui o drama é também visível com as reformes ditas neoliberais, também chamadas de Bolonha, em as vagas criadas pelos docentes que passam à reforma, não são preenchidas. Exportamos gente qualificada e até quando? Na maioria dos casos já há sinais claros de ruptura ao nível da qualidade. Na maioria das nossas universidades, está-se a fabricar a ignorância. E garanto-vos, os professores fazem o seu melhor. Agora, “exportamos” pessoas qualificadas, não mercadorias, num país que vai ser um país de velhos, pois é a juventude que está a alimentar os fluxos migratórios para a Alemanha, a custo zero para este grande país. Consegue-se pois exportar a mais difícil das mercadorias, nas palavras de Adam Smith, mas curiosamente a custo zero para quem a recebe, ou quem a importa! Até quando? Até que o último jovem português ao emigrar, apague a luz e feche a porta, utilizando aqui as imagens de Edward Hugh? Podemos, portanto, falar do enterro de um país o que se pode a prazo confirmar.

Mas se passarmos para o mercado de trabalho, bom, aqui é a selva, a mais negra. A caça ao nível mais baixo dos salários é feita sem limites e sem nenhum pudor. Diremos o mesmo a nível dos direitos: o estado? Ele não existe. Todo o quadro legal do mercado de trabalho voou para muito longe; em seu lugar, ficou a selva.

Três pequenos exemplos:

1. Um jovem licenciado com o curso de contabilidade arranja como emprego a venda porta a porta, em meios profundamente rurais, de telemóveis. Portanto, a vende de um produto de que ninguém, nestes meios precisa de comprar nem sente a necessidade de o fazer nestes meios. Ele sabe-lo, ele di-lo. Pelo contrato, trabalha à comissão, é remunerado de acordo com as vendas, havendo um salário base, fixo. Mas… há uma referência para o valor das vendas. Se ultrapassar este valor, o salário recebido no final será superior ao seu salário base, digamos, muito, muito baixo. Se as vendas forem inferiores ao valor de referência o seu salário base diminui e se elas se mantiverem assim durante duas ou três semanas voltará para o desemprego novamente. Ele trabalhava para a PT, multinacional de base nacional, mas num regime de subcontratação com uma pequena empresa local. A multinacional, tem as mãos limpas. Hoje, este jovem quadro trabalha na Suíça num fábrica de vidro, a escolher produtos com defeitos de fabrico. E que sofrimento meu Deus para chegar a esta situação bem precária.

2. Segundo exemplo: um antigo aluno da minha faculdade procura trabalho. Vê um anúncio para uma empresa imobiliário multinacional, REMAX. Submete o seu curriculum. É admitido… É admitido, mas sugerem-lhe, como a muitos outros, que faça um curso de formação na mesma empresa, paga ao som de metal, em dinheiro, pelo próprio candidato. Em seguida e de acordo com a classificação ele poderia permanecer, ser admitido, ou não!

3. Este jovem, com um mestrado, é, alguns meses depois, num processo de selecção para quadro de um banco português, admitido a duros testes. Passou três séries de testes, uma após a outra, bem difíceis. Passou-os, foi admitido. Finalmente, tinha um contrato. De acordo com este contrato os primeiros seis meses são de experiência. Só após estes meses de experiência passará a ter um contrato de trabalho a termo incerto. Durante o sexto mês do seu primeiro período, o seu chefe disse-lhe para ele estar tranquilo que o seu contrato seria renovado. Nas últimas três semanas do seu contrato de seis meses (não contando os 12 dias de férias a que teria direito), o seu superior hierárquico (Diretor do Departamento de Estudos Económicos), disse-lhe que tinha tido uma reunião com o seu supervisor (Diretor Geral, diretor de todos os serviços centrais) e que nessa reunião foi tomada a decisão (por comum acordo) de prolongamento do contrato, o que significaria que ira passar para um contracto de trabalho a termo incerto (uma vez terminado o período de 6 meses).

Nos últimos 10 minutos do seu último dia dos seis meses iniciais de contrato (ainda não tendo gozado os 12 dias de férias a que teria direito por esses contrato de 6 meses) o seu superior hierárquico informa-o que o seu contrato não será renovado e que foi uma decisão do diretor de recursos humanos tomada de surpresa, já que ele e o seu supervisor tinham dado indicações contrárias. A diferença entre as duas comunicações do mesmo superior era justificada da seguinte maneira: naquele espaço de tempo, o governo fez um acordo com os bancos para o emprego de jovens em que os bancos receberiam contrapartidas pela contratação de novos trabalhadores. Por essa razão, teriam de despedir pessoas em que o seu custo de colocação no desemprego seria nulo. Este foi o caso, mas o curioso é que foi o seu chefe, o que lhe fez todos os testes de seleção e que se encontrava orgulhoso das suas escolhas em relação a outras opções, que lhe disse três semanas antes: “fique tranquilo, o seu contrato será renovado”. No entanto, a realidade escapou-lhe, foram ordens.

Podíamos contar mais histórias para explicar que o mercado de trabalho que foi uma conquista do modelo de integração europeia é hoje um verdadeiro escudo VAZIO. Em vez de se dizer, “meu caro, veja, é o mercado”, deve dizer-se “Proteja-se, pois, devido às políticas da Troika, não existe mercado!”

Da minha parte, escrevi uma carta aberta ao Ministro do Trabalho do tempo de Sócrates, antes da Troika, para solicitar a criação de uma agência para proteger os jovens que procuram o primeiro emprego, nesta verdadeira selva. A resposta foi o silêncio, porque neste país ninguém se interessa pelo joves que hoje já se sabe que amanhã não serão ninguém.

O sentimento que temos hoje é que o Estado Português é uma enorme máquina de criar impostos, para roubar o dinheiro do nosso bolso, nada mais. Um exemplo sobre o qual já escrevi para os jornais: no Algarve, temos uma cidade muito bonita, com as suas configurações históricas. Hoje, a marginalidade é terrível em ambientes urbanos. Polícia? No máximo, se uma casa for roubada escreverá umas notas, não tem pessoal em número e qualidade suficientes para perseguir os ladrões. Mas, meu caro amigo, imagine que passa nesta bela cidade de carro. Está cheio de sede e quer descansar e beber uma garrafa de água. Pára o carro. Sai sozinho. É preciso comprar o bilhete de estacionamento numa máquina que se encontra a aproximadamente 100 metros. Vai até lá para adquirir o bilhete e volta para o carro. Bem, provavelmente quando chegar ao carro já terá sido multado por não ter o bilhete que foi comprar! E ao pé do carro, estão dois polícias e um inspector. Para o proteger dos marginais, não há polícias, mas para o punir a si, existem 3, e de uma só vez. Vi-os a trabalhar, inspecionando carro por carro, rua por rua, todas os dias, nos mesmo lugares. A Câmara Municipal não tem dinheiro e concessionou a operação do estacionamento na cidade a uma empresa privada! Crise de receitas, crise de despesas, portanto. É uma cidade de que lhe falo como alegoria, Faro, um pouco como Camus, porque falando de um país, do meu país, falo também de Espanha, Irlanda, Grécia, da Itália, Chipre, Malta, Eslovénia, falo de uma Europa torturada com a aplicação de um neoliberalismo de modelo económico e social que está a ser implementando a favor da reconstituição de um Império, o Império alemão com as  suas obrigações, com os seus compromissos com os chineses, com o mesmo modelo económico que eles, o neomercantilismo agressivo. Portanto, este poder alemão, constrói-se à custa dos outros Estados-Membros, com a desindustrialização da Europa.

(continua)

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