Em 2009, a UNESCO integrou o tango no património imaterial da Humanidade; em 2012 o fado passou também a fazer parte dessa lista. Agora, é a vez da morna. Por sugestão de Celina Pereira, uma das mais importantes intérpretes daquele género musical, o Governo cabo-verdiano formaliza a candidatura da morna. E nós apoiamos. Como? Escrevendo sobre a morna e sobre a cultura de Cabo Verde. Como fizemos com o fado.
A morna, pelos registos existentes e sempre com a incerteza que, por escassez de informação, acompanha todas estas reflexões, julga-se ter nascido ainda no século XVIII, sendo o fado fenómeno do primeiro quartel do século XIX e do tango apenas haver indícios em finais do século XIX, eclodindo no início do século XX. O bandoneón que se tornaria indissociável do tango chegou a Buenos Aires e Montevideu por volta de 1900, começando por ser tocado nos prostíbulos, e atingiria níveis de grande virtuosismo com Astor Piazzolla. Jorge Luis Borges tinha a convicção de que o tango só pode ter nascido numa das duas cidades do Rio da Prata – Buenos Aires ou Montevideu e num artigo que ainda não consegui recuperar (foi publicado no Diário de Notícias) sugeria que o fado tinha influenciado a criação do tango.
“O tango é um pensamento triste que se pode dançar”, disse Discépolo, criador de alguns dos êxitos de Carlos Gardel. E esta definição, de «pensamento triste» assenta também perfeitamente ao fado e à morna. Em todo o caso, o tango diferencia-se dos outros dois géneros, pois rapidamente ascendeu na escala social e em pouco tempo se transformou em produto de exportação. A internacionalização que o fado alcançou com Amália a partir de meados do século XX e que a morna atingiu com Bana e Cesária Évora no final desse século, o tango em 1910 era já dança da moda em Paris e, na década seguinte, Carlos Gardel poria o mundo a repetir os pensamentos tristes que os seus tangos divulgavam. Na literatura portuguesa o fado é, em A Capital, de Eça de Queirós, por exemplo, um elemento caracterizador de laxismo moral. A referência que José Pedro Machado assinala em Eusébio Macário reporta ao fado de Coimbra que, a meu ver, só tem de comum com o de Lisboa a designação. Mas é com Amália que o fado ganha os salões e atinge expansão universal, com concertos em Nova Iorque, em Tóquio, em Paris… E leva escritores como David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill ou José Régio a envolverem-se.
Vimos que a morna, tal como o fado, terá nascido de um cruzamento do choro com o lundum. Ambos os géneros terão aparecido como danças. Há quem afirme que acelerando o andamento de algumas mornas mais antigas da Boa Vista, ou até da morna Força di cretcheu de Eugénio Tavares, obtemos um ritmo semelhante ao lundum. Da Boa Vista, a morna passou para as outras ilhas. Originalmente, tematicamente mais popular, estilizou-se e fixou-se no tema do amor e da nostalgia. E mais depressa do que o fado chegou ao cerne da intelctualidade. Eugénio Tavares é o denomidor comum da morna e da literatura.