SAÍDA DO EURO – A RESPOSTA DE FRANÇOIS MORIN. UMA PERGUNTA A FAZER.

Formulação das perguntas e tradução dos textos por Júlio Marques Mota

A pergunta a fazer

Da leitura do texto de François Morin, uma ideia se retira: não há saída para a crise sem uma regulação financeira à escala mundial, sem um novo Bretton Woods. Diz-nos François Morin que foram precisas duas grandes guerras e  250 milhões de mortos para que se realizasse Bretton Woods. Para a realização de um segundo Bretton Woods a pergunta a fazer à Troika, a Durão Barroso, a Mario Draghi, a Lagarde, uma vez que lamentavelmente continuam no poder, é então de quantos milhões de mortos precisam eles para que haja um novo Bretton Woods?

Júlio Marques Mota

À pergunta formulada

Eis pois a questão que levanto aqui e agora,  uma vez que Portugal se recusa viver em autarcia como um país pequeno que somos,  uma vez que a saída da zona euro unilateral é também ela inaceitável, uma vez que a saída apoiada pela UE é , por seu lado, impraticável, tendo em conta este conjunto a ignorância, a ganância e a maldade destes que nos governam,  seja  a nível regional seja  a nível nacional, então o que fazer para não se morrer, mesmo que lentamente (!)  com estas políticas que estão e estão mesmo para durar e  talvez mais de dez anos, de acordo com as declarações de Jens Weidmann ao Wall Street Journal.

aqui vos apresentamos  a resposta de François Morin.

François Morin , foi Professor na Universidade de  Toulouse, desde 1975. Entre outras actividades foi membro do Alto Conselho do sector Público (1985-96) , Membro do Alto Conselho do Sector  Público, Membro do Conselho Geral  do Banco de França, (1985-93), Consultor internacional junto da ONU, (1985), Membro do Conseil d’analyse économique  (CAE) (1997-2000), Administrador de Aerospatiale (1989-93).

 

 Caro Júlio

Obrigado pelas tuas mensagens e em especial a última, onde expressas  perfeitamente o actual impasse nas políticas europeias, especialmente para um país como Portugal, mas isso também é verdadeiro para a maioria dos países da União Europeia.

Pela minha parte, penso que temos de ter em mente o que está em jogo neste  momento com as dívidas públicas que, na Europa, mas também nos Estados Unidos, no Japão e na Grã-Bretanha, se tornaram, gradualmente  e na sequência da crise financeira, insustentáveis. Isso significa que a zona euro  e outros países estão perante  uma bolha obrigacionista à escala mundial que pode explodir a qualquer momento e causar estragos ainda maiores a nível económico, social e político do que  a crise de 2007-2008. A razão profunda desta ameaça é que os maiores bancos não mudaram nada nas suas lógicas financeiras desde a crise. Estamos  agora à mercê de um incumprimento seja de um grande banco sistémico, seja de  um Estado que se recuse  a pagar os juros sobre a sua dívida ou referidas dívidas que se venham a vencer  ou seja  mesmo da saída  um Estado da zona euro (esta saída seria  acompanhada por uma desvalorização da sua moeda e de uma moratória sobre a  dívida, ou duma conversão de dívida na nova moeda. Estas soluções significam de facto um incumprimento  e serão analisadas como tal pelos mercados financeiros.

As políticas orçamentais restritivas que são actualmente realizadas   na Europa estão  baseadas na crença duma reabsorção da dívida pública por um retorno ao equilíbrio das finanças públicas. Esta é obviamente uma ilusão uma vez que a maior parte da dívida está directamente relacionada  com as consequências da crise financeira.

Portanto, há apenas dois cenários possíveis. Ou o rebentamento de uma nova  crise  ou uma reacção  política  que o permitiria evitar.

Uma nova crise é o cenário mais provável. É a lógica do sistema de financiamento da economia global que temos que mudar. Esta mudança  passa pelo retomar  nas mãos dos Estados a sua  própria soberania monetária e, portanto, não deixar que sejam os mercados a definir o valor da sua moeda. A criação de uma moeda comum (mas não única ), a nível internacional, mas também a nível europeu, representa uma solução possível. É a ideia do Bancor expressa por Keynes.

É face a  esta moeda comum que o conjunto das moedas se fixariam, uma a uma, e qualquer alteração da paridade estaria  na mão dos poderes políticos (e  não dos mercados). Era numa fórmula similar que se funcionou durante os trinta gloriosos anos,    e durante este período, não houve no mundo nenhuma  crise financeira.

É o movimento de desregulamentação e de liberalização financeira que tornou as taxas de câmbio em taxas flutuantes  e é esta mudança que tem estado na base  da imensa indústria financeira dos produtos   derivados que esteve na origem da crise financeira

A solução da actual crise das finanças públicas é, portanto, política. Deveria ser necessário convocar um novo Bretton Woods. Mas quando se sabe  que o  Bretton Woods de  1944 só foi possível depois de duas guerras mundiais e de 250 milhões de mortes, não é  hoje certo que estamos em vésperas de um novo encontro, tantos são os interesses poderosos que se lhe opõem.

Cordiais saudações

François Morin

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ANEXO

Um dia, uma semana nos mercados, os países prisioneiros dos riscos que os mercados concebem e de que  eles  se fazem depois pagar.

Excertos de um artigo de Le Monde que tomamos como uma ilustração do texto de François Morin  escrito muito antes.

O custo dos empréstimos dispara e inquieta de novo a Europa

 françoismorin -

Elas sobem em todo o lado! Da Europa à Ásia, passando por Estados Unidos, as taxas de juros a que se está a negociar a dívida pública sobe em flecha nos mercados. A zona euro poderá sempre ter como  consolo o facto de  não estar só a sofrer o nervosismo dos investidores. No entanto, o sinal é altamente preocupante.

Desde 19 de Junho e com as palavras de Ben Bernanke, Presidente do FED (Banco Central americano), anunciando as próximas medidas de redução de apoio monetário para a economia, a pressão está a aumentar  particularmente para os países mais vulneráveis do Sul da Europa. Em Espanha, a taxa a 10 anos ultrapassou os 5%, A primeira vez desde há três meses.

Esta situação poderia complicar os projectos de Portugal e da Irlanda: os dois países sob tutela financeira da Europa e do Fundo Monetário Internacional (FMI) devem concluir os seus planos de resgate dentro de poucos meses. E começar a financiar totalmente através dos mercados, o que os dispensaria do auxílio de que gozam actualmente. “Se a tendência à alta continua no mesmo ritmo, isso pode tornar-se problemático,” disse Patrick Jacq, especialista da dívida soberana no BNP Paribas.

Dublin e Lisboa não andam verdadeiramente a navegar no mesmo barco . No mercado secundário (onde se faz a troca da dívida já emitida), o rendimento em títulos irlandeses a 10 anos chegou na manhã de terça-feira, 25 de Junho, a  4,1%. Uma nítida subida desde o ponto baixo do início de maio que era de 3,3%.

A situação é muito mais difícil para Portugal. A taxa a 10 anos ficou no país altamente tensa nestes últimos dias de hoje. Excedeu, na terça-feira de manhã, os  6,6%, enquanto esta taxa tinha caído para 5,1% em Maio. Como Dublin, Lisboa já fez uma transmissão em 10 anos, a 7 de Maio. Uma operação bem-sucedida. “Mas o país aproveitou-se do ideais condições prevalecentes no mercado neste momento lá: ele estava no topo da onda de liquidez”, disse Gilles Moëc no Deutsche Bank.

O economista não esconde o seu pessimismo, enquanto Lisboa vai colocar  o seu destino nas mãos de investidores, em meados de 2014. ” Portugal vai ser a vítima expiatória de toda esta situação se o empurram demasiado rapidamente para o mercado, adverte o analista de mercados,  Moëc. Deve-se francamente encarar a hipótese de prolongar os seus créditos por  um ou dois anos.” O país deverá ter em  2013 o  seu terceiro ano consecutivo em  recessão. Se as taxas de navegam para além dos  7%, a dívida portuguesa, já em 127 por cento do PIB, será rapidamente considerado insustentável.

O abandono dos créditos continua a ser tabu

Ao ponto de se dever começar a encarar como viável uma reestruturação que passe por um abandono puro e simples dos créditos concedidos ? “É uma hipótese que está  em todas as cabeças desde que o FMI disse que está disponível para cometer o mesmo  o erro que cometeu com a  Grécia onde agiu tarde demais,”, diz-nos  Jean-François Robin, estratega de Natixis. No entanto, nisso o governo português não quer sequer ouvir falar.” Tecnicamente, o país não tem necessidade de recorrer aos investidores antes de Junho de 2014. Até lá, todas as suas necessidades de financiamento estão cobertas.

A ajuda poderia materializar-se  sob a forma de uma dupla intervenção dos fundos de emergência europeus e do Banco Central Europeu (BCE) quando estes países forem realizar os seus  primeiros leilões. De um lado, a Europa acordaria  uma linha de crédito de “precaução”. Por outro lado, a autoridade monetária recompraria dívida no mercado secundário através do seu programa de OMT (Outright Monetary Transactions) o que até agora nunca foi feito. De um lado, a Europa teria uma linha de crédito de  “precaução”. Por outro lado, a autoridade monetária teria de resgatar dívida no mercado secundário através do seu programa de WTO (transacções monetárias definitivas) que nunca foi usado.

Mas nos próximos meses, várias reuniões podem alimentar o stresse dos investidores. Os analistas evocam as eleições alemãs em Setembro e a redução efectiva das injecções de liquidez do FED, que provavelmente começará em Setembro de 2013.

Marie de Vergès, Le coût des emprunts inquiète à nouveau l’Europe, LE MONDE | 25.06.2013

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