DESENRASCANÇO – por Fernando Correia da Silva

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Dizem “Infante D. Henrique, o Navegador”, e dá-me vontade de rir pois navegar Vossa Mercê só navegou até Marrocos. Mais longe não foi… Pôs foi criados e escudeiros seus a navegar por si. E chegou mesmo a contratar, a peso de ouro, estrangeiros que pudessem fazer progredir a sua empresa, tais como Jaime de Maiorca, o cosmógrafo e cartógrafo catalão; e Bartolomeu Perestrelo, Cadamosto, Uso di Mare e António da Noli, navegadores e peritos comerciais italianos; também físicos hebraicos e aventureiros vários. Não, não estou a falar da fantasiosa Escola de Sagres. Essa nunca existiu, foi inventada por patrioteiros que mais tarde endeusaram Vossa Mercê para arrebicar o conceito de Nação. Não estou portanto a falar de uma escola náutica. Falo apenas (e já é muito) de um agrupamento de homens dispostos a fazerem-se ao mar, a observar astros, ventos, marés e a desenhar costas. A todos eles, portugueses e estrangeiros, Vossa Mercê paga regiamente. Generosidade? Não me parece. Eu diria perspicácia porque, ao pagar bem, o seu interesse é manter coesa a sua empresa. E onde há interesse, generosidade omite-se. O avesso amargo da sua perspicácia e da exorbitância dos seus gastos pessoais, é Vossa Mercê andar sempre à rasca de finanças. Mas logo trata de inventar soluções, uma atrás da outra: ou a pirataria contra os navios mouros no Mediterrâneo, ou o monopólio da pesca do atum, ou a dízima sobre todo o peixe apanhado em Monte Gordo, ou o monopólio do abastecimento de peixe a Ceuta, ou o controlo da moagem de cereais e da produção de tintas e sabões no Algarve. Apesar de homem soturno, de poucas palavras, Vossa Mercê começa a revelar um dos principais traços do homem português: a improvisação, o desenrascanço…

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