GUILHERME DE AZEVEDO – 3 – por Carlos Loures

(Continuação)

Paris

Para além das crónicas que foi enviando, não existem muitas referências ao que terá sido o percurso dos dois anos que Guilherme viveu em Paris. Correspondente telegráfico e literário da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, recebe por essa incumbência mil francos por mês, não estando contudo impedido de colaborar nos jornais de Lisboa e Porto. Por isso, não terá tido grandes dificuldades económicas. Habita numa sobreloja, num entresol, do boulevard Saint Germain, em frente do Teatro Cluny. À partida, sonhara ir ali, na Meca do chic (como diz Fialho), produzir finalmente a sua «grande obra».

Em A Alma Nova, Lisboa, «a cortesã devassa», não é mais do que a correspondência autóctone e possível à grande e tentacular metrópole dos versos de Baudelaire, de Hugo, de Lamartine – Portugal é, no dizer de Eça, «um país traduzido do francês em vernáculo»; por consequencia, Lisboa, provinciana e atrasada, é, apesar de tudo, aquilo que de mais parecido temos com uma grande cidade. Mas agora, nada de imitações – Guilherme está no coração da civilização, na fonte de todas as misérias, de todas as opulências: está em Paris.

Tudo indica, porém, que o sonho vai sendo adiado – vagabundagens, hábitos de café, prostitutas, as noites perdidas em cavaqueiras estéreis ou nos teatrinhos de boulevard… A «grande obra» vai ficando sempre para «amanhã». As crónicas obrigatórias de cuja escrita depende economicamente, são sempre alinhavadas à última hora, escritas de um jorro, uma vez que já as tem pensadas de antemão – não são sequer emendadas, pois, impaciente, o paquete espera que ele termine, para ir correndo levá-las ao telégrafo.

Gaba-se de nunca ler nada para preparar os seus escritos – segundo diz, tudo lhe surge na mente já acabado (depois, saber-se-á que assim não é – quando adoece, os amigos descobrem-lhe apontamentos, revistas francesas sublinhadas… fontes de consulta, enfim. O que está longe de ser um crime, mas que, apesar de tudo, ele esconde como se de um crime se tratasse). Um dia de Março de 1882, indo avisá-lo de que haviam chegado uns amigos de visita, a porteira dá com ele desmaiado, vítima de uma síncope.

Ao despi-lo, os amigos descobrem que todo o seu lado esquerdo está ulcerado, gangrenado. Durante seis meses, sabe-se depois, escondeu de todos o avanço da doença que começara, décadas antes, com o tumor provocado pela sua queda na infância. Ao cabo de uns dias, já em Abril, lá se deixou conduzir pelos amigos – Lino de Assunção, Bordalo e Eduardo Garrido, à Casa de Saúde Dubois.
Escritor «menor»?

Guilherme de Azevedo, no que se refere à opinião que dele faziam os seus coevos, foi estimado por Junqueiro (que ljhe dedicou a Velhice do Padre Eterno), por Magalhães Lima e por Bordalo, louvado por Antero e por tantos outros, exaltado por Ramalho e um pouco ridicularizado, diga-se, embora com algum carinho, pela pena ferina, cruelmente impiedosa, de Fialho de Almeida que, sendo ele próprio um «rapaz da província ao assalto da capital», parece não ter perdoado a Guilherme a sua ousadia de, vindo de Santarém, ter conquistado as colunas dos principais jornais de Lisboa e do País e de serem as suas crónicas lidas avidamente, os seus ditos e frases jornalísticas repetidos pelas mesas dos cafés e de ter sido convidado a fixar-se em Paris (que, na época, era por aqui considerada a capital do mundo, a fonte de todas as ideias e prodígios). Outros contemporâneos, que com ele conviveram e se cruzaram, manifestaram o seu respeito por este homem que as circunstâncias da vida tornaram amargo, mas que em vez de fel destilava pela sua pena um humor ácido, talvez, mas humor, em todo o caso.

É, pela generalidade dos investigadores e historiadores da literatura portuguesa (como, por exemplo, Mário Dionísio), considerado um «escritor menor». Porém, o que significa ser um escritor menor? Será que existe ou em algum tempo existiu uma medida objectiva que permita avaliar da grandeza ou da menoridade de quem cria? A esse respeito, voltamos a Manuel Simôes que, na introdução à edição de 1981 de A Alma Nova, nos diz:

«As razões por que a história das ideias e, de modo particular, a história da literatura, não conserva de um autor senão uma referência de segunda ordem são complexas e dependem muitas vezes de circunstâncias externas ao próprio movimento dos factos sociais, impostas como são por condicionamentos propositadamente desviantes da cultura progressista de um país. Compreende-se, por isso, que Guilherme d’Azevedo tenha sido um autor esquecido, ignorado pela feroz máquina repressiva que tem canalizado a cultura portuguesa, e posto no índex das figuras marginais da história das ideias precursoras do socialismo em Portugal.» E, mais adiante: «Guilherme d’Azevedo, numa espécie de testamento poético» […]«e acentuando a função social do seu verbo, manifesta a esperança de que alguns dos seus versos, pelo menos, «fiquem presos/como fios de luz, ao manto da Justiça!». Que um tal desiderato se cumpriu é coisa que mesmo o leitos de hoje poderá verificar e porventura ampliar com a perspectiva histórica que o tempo lhe conferiu; simultaneamente dar-se-á também conta de como tem sido injusto e injustificado o esquecimento duma figura que activamente participou na batalha da «geração de 70» e que, não obstante a evidência de elementos catalisadores (e sua colocação retórica) de gazetilha, foi a primeira voz com incidência na renovação da forma poética do último quartel do nosso século XIX.»

O fim

No dia 6 de Abril de 1882, quinta-feira de Endoenças, Bordalo Pinheiro dirige-se à Casa de Saúde Dubois, no Faubourg Saint-Denis, onde Guilherme está internado. No Março anterior um grupo de amigos o levara para lá. Uma enfermeira detém-no à entrada – o amigo está moribundo, avisa-o. De facto, no seu quarto, o poeta agoniza. Pouco depois, aparecem também, Tomás Lino de Assunção e o dramaturgo Eduardo Garrido. Guilherme tenta ainda comunicar com eles, estendendo-lhes dois dedos trémulos. Ao cabo de uma hora tudo está terminado. Bordalo modela-lhe em gesso a máscara mortuária. No sábado seguinte, seguido por um escasso grupo de amigos, faz-se o funeral. Descreve Fialho:

«Este enterro foi a mais triste coisa que se pode imaginar. Chovia, e os amigos do morto eram tão poucos! De sorte que no cemitério o préstito cerrava-se, fazendo-se ainda mais pequeno, por que não se perdesse naquela terra estrangeira esse calor da Pátria que vinha dos corações batendo de ansiedade. Cada qual lhe lançou então na cova a pá de terra consoante os ritos de amizade, e ouvia-se a voz do visconde de Faria dizer fanhosamente:
– Eu cá sempre o tive por uma pessoa ordinária: três anos em Paris, e nem sequer um cartão me foi deixar ao consulado!…»

Os seus restos mortais são trasladados para Portugal em 1887.

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