O AMOR NATURAL, DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – por Manuel Simões

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Este artigo de Manuel Simões, antes publicado no Estrolabio, reeditamo-lo numa altura em que preparamos a edição especial sobre a independência do Brasil.  

O grande poeta brasileiro (1902-1987) é por demais conhecido e a sua obra (lembremos apenas Sentimento do Mundo ou A Rosa do Povo) faz parte do património das literaturas de língua portuguesa. Há uma dimensão, porém, não muito frequentada pela crítica e que se refere a um volume de poesia, O Amor Natural, até pelo modo, quase clandestino, como foi publicado. Em Agosto de 1985, a um jornalista que lhe pedia notícias sobre o livro, Drummond respondeu-lhe que não tinha intenção de publicar os seus versos eróticos, receando que o leitor os considerasse pornográficos.

Na verdade, o volume já tinha sido publicado em 1981 numa edição reservada de apenas dois exemplares, um dos quais entregue ao escritor argentino Manuel Graña Etcheverry, crítico literário e genro do poeta. O outro exemplar foi submetido à apreciação de outros amigos e estudiosos, que o avaliaram com apreço, mas Drummond continuou a mantê-lo em silêncio.

Só em 1992, cinco anos depois da morte do Autor, é que se publicaram os poemas e logo nesse ano saiu uma edição holandesa e outra portuguesa. Estava desfeito o temor do poeta sobre o modo como os brasileiros teriam recebido o livro (Prémio Jabuti para o melhor livro do ano) e, de resto, é surpreendente que o Drummond irreverente e anticonformista tivesse tido receio de transgredir os códigos culturais dos leitores e as convenções sociais pequeno-burguesas de que ele tantas vezes escarneceu na sua obra.

 Nos quarenta poemas da colectânea, todos dedicados ao tema de Eros, o leito parece substituir Itabira (onde nasceu o poeta) para se tornar o lugar onde o amor exerce o seu poder para reconstituir a perdida unidade do Homem.

 De O Amor Natural  transcreve-se aqui o poema de abertura:

Amor – pois que é palavra essencial

Amor – pois que é palavra essencial

comece esta canção e toda a envolva.

Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,

reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?

Quem não sente no corpo a alma expandir-se

até desabrochar em puro grito

de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,

fundido, dissolvido, volta à origem

dos seres, que Platão viu completados:

é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?

Onde termina o quarto e chega aos astros?

Que força em nossos flancos nos transporta

a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,

já tudo se transforma, num relâmpago.

Em pequenino ponto desse corpo,

a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens

e devassando sóis tão fulgurantes

que nunca a vista humana os suportara,

mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte

que, além de nós, além da própria vida,

como ativa abstração que se faz carne,

a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,

menos que isto, sons, arquejos, ais,

um só espasmo em nós atinge o clímax:

é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,

no úmido subterrâneo da vagina,

nessa morte mais suave do que o sono:

a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,

estendidos na cama, qual estátuas

vestidas de suor, agradecendo

o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

(Recolha e texto de abertura de Manuel Simões)

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