O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL – por Fernando Correia da Silva

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O Hotel Pelicano fica na Rua dos Fanqueiros, perto da loja dos Verde. A vizinhança e o gosto pelas letras promovem a amizade entre o hóspede António de Macedo Papança (futuro conde de Monsaraz) e Cesário Verde. Entretanto este vai tomando a direção da loja e da quinta, desenvolve negócios, exporta maçãs para a Inglaterra, a Alemanha e o Brasil, também escreve versos.

 Mais tarde, na sua casa da Travessa da Assunção, Papança promoverá saraus literários onde Cesário se cruza com Guerra Junqueiro, Gomes Leal e João de Deus. Nenhum prestará atenção aos seus poemas, onde já se viu um comerciante a poetar? Ainda por cima opinativo, conflituoso…

 1880, comemorações do tricentenário da morte de Camões! O Jornal de Viagens, do Porto, lança um número especial: Portugal a Camões. Nele, entre inéditos de autores vários, vem publicado O Sentimento dum Ocidental, poema de Cesário em quatro cantos:  I – Ave-Marias, II – Noite fechada, III – Ao gás, IV – Horas mortas. Eis um pequeno trecho:

 (…)
E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando, sobre as pedras da calçada.  

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar! 
 

Andam todos distraídos, ninguém repara neste caudal. Só decénios depois, muitos, Fernando Pessoa (um simples empregado de escritório, um bêbedo, um doido que julga ser poeta) é que irá induzir o seu heterónimo Álvaro de Campos a bradar: 

– Ó Cesário Verde, ó Mestre!

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