Um Café na Internet
UM COPO DE VINHO FRESCO
Um copo de vinho fresco como um fresco pensamento. Vinho fresco teve o sol por fermento. Um copo de vinho fresco em Lisboa, Campolide. Um amigo que foi morto pela PIDE. Um copo de vinho fresco, consciência revoltada, mecanismo tic-tac de granada.
MORRER DE SEDE
Estrangeiro que fui no meu país, saltei fronteiras a tentar a sorte. Estrangeiro que sou, perdi o norte, corri o mundo, não deitei raiz.
É meu rasgado e velho passaporte a sede antiga, esta cicatriz queimadura que diz e contradiz a pátria calcinada até à morte.
Mas torno sempre ao lar: fornalha, frágua, cinzas e pedras sob cada ponte. Orvalho, quando o há, é só de mágoa.
E quando exijo ao verde que desponte e vem Abril abrir-se em olhos d’água, vou eu morrer de sede ao pé da fonte.
SAUDADE
Ao longe, entre portas do desejo, a aranha da saudade agora tece a teia que te envolve e te adormece. Partiste. Repartido me revejo ave nocturna a debicar o nexo contido nessa concha do teu sexo.
HOMEM LOBO
O homem é lobo-fera, nem sequer merece a vida…” Quem o disse, lobo era, ou carneiro suicida. Quem não mete o dente em roubo e não quer roubar-se à vida, se não mata o homem-lobo a si mesmo se liquida porque dentro da razão da humana condição o tributo a dar à vida é morte que lhe é devida.

