Parte I
Da Faro com amor, de Estoi com horror – uma crónica em duas partes
1. De Faro com amor
Saio de casa, como habitualmente depois de almoço. O meu local de paragem, um café na praça Alexandre Herculano, onde árvores de grande copa nos protegem dos raios solares agrestes de um qualquer começo de tarde neste quente Verão de 2013.
Solícita, uma empregada pergunta-me o que pretendo. Uma garrafa de água, respondo. Trazem-me uma garrafa de água da Nestlé, de uma fonte espanhola. Digo que não, que quero água portuguesa. Garrafas pequenas, a casa não tem, diz-me a empregada, nervosa. Traga então uma maior, mas água portuguesa, reafirmo. Trouxe-me uma garrafa de castelo de Vide, uma garrafa da marca Vitalis.
Faço um telefonema para um antigo aluno meu e actual tradutor de um texto notável de Mário Nuti sobre a nossa questão pertinente de permanecer ou de sair do euro. Discutimos o caso de a nossa pergunta assentar na desconfiança perante os nossos políticos de agora que mesmo quando chegam ao poder a anunciar uma política contra a austeridade, mudam de agulha e invertem pois o seu discurso. O exemplo discutido ao telefone era exactamente o de François Hollande, que percorreu toda a campanha eleitoral contra as políticas de austeridade impostas pela Troika e agora, pasme-se! é o FMI, um dos elementos da Troika que avisa o Presidente francês, cuidado! vá mais devagar na aplicação das politicas de austeridade! Um outro Passos Coelho, afinal, mas agora este é de vertente dita socialista. Uma partida da história, mais uma, a realçar que muitos políticos estão dispostos a mudar de agulha, a mudar de sentido de política anunciada, porque sobretudo lhes interessa o poder pelo poder. E a conversa desenrolou-se assim. Desliguei depois a chamada.
Numa das mesas em frente um homem levantou-se e veio felicitar-me pelo que ouviu, pedindo desculpa de ouvir mas, não era surdo. Foi franco, muito educado, um porte fisicamente a condizer, de uma relativa distinção, com aparência de um ex-militar até. Gostei da sua franqueza. Convidei-o a sentar-se na minha mesa.
Desenvolvi uma ou outra linha de pensamento sobre o do que ele tinha ouvido, como abertura de conversa. Conversámos, alongando-se a conversa tendo como tema de base a crise que nos assola, a importância política na actualidade de um homem de direita e tenebroso para não dizer maquiavélico que terá nascido por volta dos anos 63 lá para os lados da freguesia de S. Sebastião da Pedreira, em Lisboa.
Falámos pois de um homem que mais tarde foi ministro de um dos ramos das Forças Armadas, sem que dele se saiba onde cumpriu o seu serviço militar. Dele, dos tempos de mancebo, disse-me apenas que tinha ido à inspecção no mesmo dia que ele. Considerados ambos aptos, nunca mais soube a trajectória militar desse personagem sinistro do poder actual, afirmou ainda.
Falámos de um ministro que deixou escapar, (mas como, num Estado de direito?) muita da documentação que envolve os submarinos ainda hoje em discussão. Como foi possível o desaparecimento da documentação de um local guardado por militares, e sem que nada tenha acontecido a ninguém? Muito dinheiro em jogo, é o que se sabe, e estamos a falar de alguém para quem não haverá limites para despesas pessoais, o que aprecia? Olhe-se para os seus fatos de fino corte, de finas dobras e sem rugas e, depois, pense-se (…) quanto?
Falámos da fuga de documentos que poderiam envolver um major deste país e de majores o povo fala, por exemplo, de Valentim Loureiro e dos seus negócios de batatas vendidas ao exército com margens extremamente atraentes, e disso fala o povo já há muito tempo. Verdade? Mentira? Falámos do escândalo de Rui Machete que dinheiro ostentou riqueza significativa com o BPN, escandalosamente de forma bem legal, moralmente de maneira bem ilegal e imprópria para gente de casta séria, e que , tal como o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, foi incapaz de devolver essas mais valias ao Estado Português. Falámos de um ministro, o mesmo mencionado, que tem um filho no Tribunal Constitucional, a “zelar” pela Constitucionalidade das leis aprovadas por um governo onde se encontra o pai como ministro e sem que ninguém diga nada, sem que com isso exista conflito de interesses. (Não tem isto muito em comum com a Itália, pergunto).
Falámos de alguém que terá contribuído notoriamente para que os portugueses tivessem perdido milhares de milhões de euros mas no entanto ia caçar rolas para a Argentina de avião alugado à mesma companhia, que foi acusada na Venezuela do transporte de droga. E interroguemo-nos sobre qual o preço a que nos saí a todos nós contribuintes cada rola morta por aquele cavalheiro, que também reservava coutadas em Espanha para ele e amigos, ao preço de muitos milhares de euros por cada fim-de-semana. E a que preço nos custa a sua ida ao Open do Estoril pavonear-se e mostrar que se encontra bem, que se recomenda, disponível para mais golpes sobre a nossa carteira. E a que preço pagamos nós a sua ida de helicóptero à sua terra natal. Estivemos a falar talvez de Dias Loureiro, não sei bem, a falar de mais um amigo do Presidente, isso é certo, quando o Presidente se quer como o expoente máximo da honestidade. Como Manchete o dirá também, possivelmente, mas da devolução do dinheiro que hoje se sabe roubado ao povo português, devolução é que não houve, nem há. Ainda aqui, pelos negócios do BPN também terão passado os dinheiros do genro de Aznar até porque era a fartura do dinheiro do nosso povo a ser repartida por essas aves de rapina.

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