(Continuação)
Na opinião da maioria do povo, compartimentado em classes sociais de contornos definidos, o Mestre de Avis era o único pretendente que não tinha qualquer responsabilidade pelo estado caótico a que a nação chegara. E, era a única solução em que não havia intromissão estrangeira. O infante D. João, exilado em Castela, era considerado um estrangeiro. Leonor Teles, além de ter agravado a situação económica, preconizava uma solução que hipotecava a independência – sua filha, D. Beatriz, casara com Juan I de Castela. Um filho varão seria, quando atingisse os 14 anos, rei de Portugal – o filho de um rei castelhano, portanto.. O Mestre de Avis era, pois, o único que garantia a independência e a forma radical com que eliminara o fidalgo galego constituía uma prova da sua determinação. Nuno Álvares Pereira, nas suas arengas aos soldados, antes das batalhas referia sempre essa circunstância – o Mestre de Avis era o garante de soberania portuguesa.
E esta questão colocava-se de forma muito clara – os exércitos castelhanos ao invadirem o território, devastando tudo à sua passagem, comportando-se como conquistadores, constituíam um forte argumento contra as soluções que passassem pela componente estrangeira. O asco ao invasor, consolidava o patriotismo Apenas nobres e alcaides comprometidos directamente com Leonor Teles por laços a que hoje chamaríamos corrupção, não apoiavam o Mestre. A pequena e média nobrezas, os artífices e oficiais mecânicos, comerciantes e povo miúdo, estavam do seu lado. A este apoio provindo da quase totalidade do leque social, um homem sabedor de Leis, como o doutor João das Regras, dava forma jurídica às pretensões do futuro D. João I. E o seu braço militar, Nuno Álvares Pereira, jovem estratego, com talento e coragem, transformava a razão moral em vitórias nos campos de batalhas. E só os vencedores «têm razão». Quem vence é quem conta “como foi”.
Antecedentes da batalha decisiva
O Mestre de Avis tentou uma solução negociada e propôs casamento a . Leonor Teles, A ideia era a de ele e a rainha assumirem conjuntamente a regência do Reino, até que o filho de D. Beatriz atingisse os 14 anos e pudesse reinar. Nessa altura, o Mestre de Avis seria nomeado regente. Leonor Teles recusou. Esgotada a possibilidade de uma solução pacífica, preparou-se a inevitável guerra – a defesa de Lisboa era uma prioridade. E, elemento decisivo, accionou-se o Tratado de Tagilde , assinado em 1372 com a Inglaterra. E jogou-se com uma circunstância favorável – John of Gaunt, o poderoso duque de Lencastre, tinha pretensões ao trono de Castela, as quais o Mestre de Avis declarou aceitar. Foi garantida a ajuda militar inglesa.
Desde o final de 1383, Nuno Álvares Pereira estava ligado à causa de D. João, Mestre de Avis. Nuno era um filho segundo de uma família ligada à Ordem de S. João do Hospital. Tinha cerca de vinte anos, mas, com a sua perspicácia, o Mestre de Avis logo que o conheceu, viu que encontrara «o homem». E nomeou-o fronteiro do Alentejo. Depressa o jovem deu provas de uma grande capacidade. No plano político, D. João nomeou um Conselho, composto por um clérigo, diversos legalistas e representantes de comerciantes e de artífices. João das Regras era o chanceler deste colectivo a que mais tarde se juntou Nuno Álvers Pereira. Um dos aspectos centrais de qualquer projecto é a sua, como agora se diz, sunstentabilidade financeira – os moradores de Lisboa, comerciantes, oficiais mecânicos, ricos e pobres, deram tudo o que tinham. Aos donativos, somaram-se empréstimos. Refugiada em Santarém, Leonor Teles iaa sabendo destes preparativos e informava Juan de Castela, pressionando-o para que invadisse Portugal antes que o dispositivo militar fosse completado. Queria reaver a regência do Reino. Entretanto, o equilíbrio de forças ia-se alterando a favor do Mestre. Por todo o território os castelos iam sendo militarmente tomados, como Beja, Portalegre, Estremoz,, Évora…ou aderiam à causa do D. João I, como o Porto.
E chega o ano de 1384 – Juan I de Castela, com forças numerosas, entra em Portugal, estaciona na cidade da Guarda, segue por Celorico, Miranda do Corvo, Tomar… trava-se uma escaramuça com soldados portugueses, mas prossegue pela Golegã, entrando em Santarém no dia 12 de Janeiro. Nessa cidade declara assumir o governo de Portugal não atribuindo a regência a Leonor Teles e violando claramente o Tratado de Salvaterra de Magos, que previa que D.Leonor fosse regente do reino até que o neto ter 14anos. Sentiindo-se traída, denuncia aos alcaides de castelos que a apoiavam a traição de que foi vítima e ordenando-lhes que não entreguem sem luta os castelos ao rei castelhano.
Juan I intitula-se rei de Castela, de Leão, de Portugal, de Toledo e da Galiza e manda cunhar moeda. Tropas castelhanas estacionadas em Santarém provocam desacatos e os poucos aliados que o rei castelhano tinha em Portugal vão passando para o partido do Mestre de Avis. De Santarém vêm alguns “homens bons” a Lisboa e pedem ao Mestre que os liberte do invasor, pois “eles o ajudariam”. Procurando antecipar-se a qualquer iniciativa portuguesa, Juan I manda um exército com cerca de um milhar de homens a Lisboa, convencido de que tal destacamento seria suficiente para derrotar D. João, O Mestre de Avis contraataca, mas antes de ambas as forças se encontrarem, os castelhanos retiram para Alenquer e para Torres Vedras. Em Fevereiro, as forças castelhanas empreendem uma acção de diversão e atacam Coimbra. Juan I descobre que Leonor Teles conspira contra a sua pessoa – manda encarcerá-la no Convento de Tordesilhas, onde ficaráa aprisionada até morrer.
Depois de um Fevereiro agitado, com golpes, contra-golpes, Juan de Castela desiste de tomar Coimbra e em Março sai de Santarém para Arruda. Espera que a frota castelhana chegue para pôr cerco a Lisboa. Nuno Álvares não está parado – nomeado em Março fronteiro da comarca de Entre Tejo e Guadiana, com poder absoluto, quer militar, quer económico ou político, escolhe, em Lisboa, 200 cavaleiros e cerca de um milhar de soldados apeados, parte para o Alentejo. No dia 6 de Abril de 1384, Nuno Álvares Pereira, com o seu pequeno exército de 1.500 homens, derrota um contingente castelhano de cinco mil homens. O embate dá-se na herdade dos Atoleiros, junto a Fronteira.
Não foi uma batalha decisiva. Mas serviu para provar que o poder militar de Castela, muito superior ao de Portugal, podia ser vencido. E essa ilação foi fundamental para o que se passou a seguir.
(Continua)
