Júlio César Machado (1835-1890)
Júlio César da Costa Machado nasceu em Lisboa, em 1 de Outubro de 1835, filho de Luís Maria Cesário da Costa Machado e de Maria Inácia Machado. Aos 3 anos de idade foi com a mãe para uma casa de campo da família, na Durruivos, nas cercanias de Óbidos. Ali, «resguardado entre as saias da mãe, das tias e de um tio frade», ali pároco, cresceu o escritor numa imensa saudade pelo pai, quase sempre ausente. Refere-se-lhe desta forma, numa das suas melhores páginas:
«Vi aparecer um homem embuçado numa capa, alto, elegante, de uma fisionomia suave e inteligente, mãos compridas e delgadas, dedos finos, e o indizível quê da sedução nos olhos, no sorriso, nas maneiras… imagine-se a fusão da aristocracia da raça, aristocracia natural, com a burguesia digna e séria: foi o que eu senti, sem poder, sem saber exprimi-lo, olhando para meu pai e para minha mãe. Nem era fidalgo nem descendia de nobres, meu pai; mas tinha a nobreza que dão a inteligência, a fisionomia, a figura; havia nele o quid da superioridade, o tom especial do gosto. Minha mãe era uma mulher forte, que parecia moldada em bronze florentino, daquelas mulheres como que destinadas a alcançarem que suas filhas pareçam ser suas irmãs, por tal modo se conservam moças como as mulheres do Egipto, núbeis aos 10 para os 11 anos, avós aos 24, bisavós aos 26. Quantas vezes hoje, quando se admiram, os que me conhecem de há muito, por notarem que eu aguento, na minha movediça e fatigante vida que tenho levado, certa inverosímil mocidade, me lembro eu de minha mãe que aos 60 anos não tinha cabelos brancos e lhe atribuo o segredo desta serôdia e estranha primavera aparente! A nossa época é uma democracia de trabalho: a base dela reside no que produz cada um; aquele que adquira uma ideia, uma só ideia que seja, em toda a sua vida, vale mais do que o outro que se haja conservado na sombra, como numa fábrica, uma roda que não gira à vontade de quem a emprega: mas dantes não era assim; era a idade dos cadetes, dos filhos da viúva, dos herdeiros ricos, que começavam o viver novo, despendendo os haveres paciente e laboriosamente ganhos pelo viver velho.
«Meu pai vivera, divertira-se, despendera três fortunas no florescer daquela quadra. Em parte, porque lhe fosse natural, e em parte, porque a vida elegante dá um cunho especial, como que a sua marca, o seu selo, aos que a cultivam. Tudo nela respirava a cavalheiro; era um gentlemen, era um senhor. Olhava para ele pasmado, encantado; que diferença dos sujeitos de sobrecasaca, que apareciam às vezes na Durruivos, o administrador do concelho, o médico da vila próxima, o cónego que vinha visitar o pároco… Nunca vira um homem assim! Não sabia no que mais atentasse, se no bigode longo e assedado, se nos cabelos finos e compridos, se no casaco justo ao corpo, com alamares e debruado a peles, como era a moda de então, se no anel que lhe vi brilhar no dedo, se na capa, se nas botas altas… Direito, ágil, intrépido, cabeça erguida, em tudo o homem costumado a ver satisfeitos os seus desejos, e a quebrar as resistências todas [….]. Não existe a felicidade na sua plenitude, porque no adejar das asas frementes aspira sempre a ir mais longe do que a ilha encantada do momento; aliás, eu poderia dizer que fui feliz naquela noite… Mas a felicidade verdadeira nunca chega a servir senão para se lembrarem dela os que a desgraça instruir. Em todo o caso, a querer pôr em linha de conta o tempo em que em toda a minha vida tenho empregado em dormir, em esperar, em duvidar, em me enganar a mim, em errar, em prever, em evitar estar doente, em o estar deveras, em deplorar penas, que eram bens, e passar por mágoas verdadeiras, em desprezos e ilusões, em derrubar e erguer altares até se desfazerem em pó, talvez não vivesse completamente para a felicidade, absoluta, inteira, completa, mais do que essa hora! Nos compridos dias da Durruivos, ir para meu pai havia sido o meu sonho; e o meu sonho cumpria-se.»
Depois de uma breve passagem pelo Colégio Militar, de onde foge devido aos maus-tratos do professor de Latim, César Machado matricula-se no liceu. Datam dessa época as suas primícias literárias: Estrela de Alva, romance dos catorze anos, será publicado na revista A Semana, de Camilo Castelo Branco. A morte prematura do pai força-o a ganhar a vida com a escrita, tornando-se tradutor efectivo do Teatro do Ginásio.
Em 1844, com a mãe, vai, finalmente, juntar-se-lhe a Lisboa. Quatro anos depois, o empresário Silva Vieira apresentou no teatro do Salitre a comédia em um acto As Calças Listradas. E quando o pano desceu, o público reclamou a presença do autor. Entre os autores, um adolescente de 14 anos agradecia a ovação. Era Júlio César Machado, na estreia da sua carreira literária. Até ao final da vida, o teatro mereceria sempre um lugar de relevo na carreira de homem de letras, que cedo começara. É que ele, como praticamente todos os homens de letras, teve um emprego de sobrevivência, porém apenas a partir de 1864: secretário do Instituto Industrial de Lisboa.
Um dos mais destacados polígrafos da segunda metade do século XIX, jornalista, tradutor, autor de romances, contos e peças de teatro, Júlio César Machado salientou-se sobretudo como folhetinista e cronista.
Em 1852, com apenas dezassete anos, publica o romance Cláudio, confessadamente influenciado pelas Memórias de um Doido, de Pedro Lopes de Mendonça, que viria a ser o seu mestre, tanto no romance como no folhetim; a partir de 1858, César Machado substituiu-o como folhetinista regular em A Revolução de Setembro. Em 1864, ocupa o lugar de secretário do Instituto Industrial de Lisboa. Em 1870, é um dos co-fundadores da Associação de Homens de Letras.
