NOVA CRÓNICA DE FARO Nº 3 – PARTE II. DE FARO COM AMOR, DE ESTOI COM HORROR. Por JÚLIO MARQUES MOTA

Meus caros

A segunda parte de uma crónica  já iniciada. As vivências de um velho por uma cidade que  não é sua. Ao ler o que por aqui se escreve talvez sejamos levar a pensar que se trata de delírios da terceira idade. Talvez seja assim. Talvez nada disto se tenha passado, talvez nada disto se tenha ouvido, talvez nada do que aqui se transcreve  tenha sido escrito e lido. Talvez. Mas uma pergunta:   mas não parece a realidade actual apresentar mais sinais de delírio que esta crónica, que se pretende expressão da realidade mas que, como ficção , fica sempre aquém da realidade que quer simular e que a todos incomoda .

Um texto a publicar em  A Viagem dos Argonautas.

Boa paciência para a leitura para aqueles que gastarem alguns minutos a olhar para ela, as minhas desculpas pela liberdade tomada para aqueles a quem não interessa e que devem então  fazer delete.

JMOta

2. De Estoi com horror

PARTE III
(CONTINUAÇÃO)

Dois dias depois  do encontro com a suposta alta patente

Volto então no dia seguinte, para saber do meu menino de Estoi. E soube então que o “meu menino” de Estoi foi despedido. Porquê? Porque no dia anterior  avisou, perto das 18 horas,  que não poderia trabalhar nessa noite nem nas noites seguintes, durante uma semana. Tinha que tirar a carta de condução! Nada mais soube, nada mais me disseram. Relembro-me então não da noite em que me falou do primo, mas da noite em que me falou dos comandos. Uma história que eu gostaria de ver bem clarificada e por isso o procurava agora.

Com as informações de que disponho que posso eu dizer? A tirar a especialidade, ganhava cerca de 700 euros. Disse-me nessa noite que agora gostava muito de ser soldado da paz. No curso empenhava-se a fundo, queria acabá-lo com muito boa classificação. Na instrução há uma situação delicada criada com todo o grupo em instrução. Muitos deles  caem por terra. O “meu menino” de Estoi não caiu por terra. Porque “ficava bem na fotografia”, foi exactamente assim que me disse, ajudou uma série deles a desenvencilharem-se da situação delicada em que tinham caído e em que tinham caído por terra. Ao ajudar, levou um brutal pontapé nos testículos. Terá visto as estrelas, como se diz na minha terra. Sentiu uma humidade no meio das pernas. Será que me mijei! pensou. Depois, colocou a mão e viu, viu sangue. Dirigiu-se à enfermaria, tinha-lhe rebentado uma veia lateralmente a um dos testículos. Interrogado pelo médico de serviço de como é que lhe aconteceu aquilo, explicou como foi. Na instrução, normal. Tive azar, o pontapé acertou-me onde não tinha de acertar, é o  que terá dito! Assim, com estas respostas, compreendem-se muito bem filmes como Nascido  para matar, de Kubrick  como RAS, de Yves Boisset, sobre a guerra de Argel, ou outros de que não me lembro sobre o mesmo  tema. Nesta resposta, não há um queixume.  Quem foi, perguntou o médico. Respondeu, disse o nome do oficial da instrução. A resposta do oficial-médico foi de espantar. Não pode ser, esse oficial não lhe faria isso. Não me chamem de mentiroso, reagiu. Vejam lá se esse oficial estava ou não estava na escala da instrução. Vejam! Estava, mas não pode ser ele, retorquiram-lhe. Ele nunca o faria. Aliás, a essa hora estava a tomar café com outro oficial, acrescentaram. Perguntem então ao segundo oficial da instrução, terá gritado o “meu menino” de Estoi. Perguntaram e a resposta foi a mesma: o referido oficial, o incriminado pelo “menino de Estoi”, para todos os oficiais  daquele quartel e naquele dia, naquela hora, naquele minuto exacto e naquele local, não estava na instrução para a qual estava escalado, estava a tomar café com um alferes. E disseram-lhe que para bem da vidinha dele que se calasse. Caso contrário ficaria bem pior. Mas disseram-lhe mais. Muito mais e para o que lhe disseram não há revolta que chegue. Disseram-lhe que o caso da veia rebentada  poderia suceder mais vezes, que tinha de ser tratado, que tinha de ser operado. Mas a tropa, o exército não poderia suportar os custos. Em suma, não há no exército  do governo neoliberal de Passos Coelho disponibilidades financeiras para cuidar dos soldados  filhos do povo. Que regressasse à sua terra, que fosse ao médico de família e que pelo sistema nacional de saúde fosse então operado.

O nosso “menino de Estoi”, filho de todos nós, agora e depois desta história, não tinha ninguém naquele quartel que olhasse por ele, não tinha ninguém que se questionasse o que é um homem, o que é um soldado afinal. No fundo não havia verdadeiramente  nenhum oficial naquele quartel que soubesse o que é ser homem. Brutamontes de peito estrelado talvez haja por lá muitos,  verdadeiros  homens de comando, absolutamente, NÃO. Haverá por lá sim, homens de mando, como no Governo aliás.  E o nosso “menino de Estoi”, possivelmente nunca mais virá a ser um soldado da paz. Porque ajudou os seus colegas, porque levou um brutal pontapé nos tomates e, no fundo, porque  verdadeiramente tinha tomates.  E o nosso “menino de Estoi” regressou ao trabalho de café, pelo menos no Verão, Agosto somente, mas o dinheiro não chega, procura um outro emprego precário. Entra então num restaurante cujo o horário laboral é das 9 h da manhã às 18h, onde ganha 700 euros, e entra no café onde o encontrava às 20 h, já jantado, e sai por volta da uma da manhã, agora  por mais 500 euros. Todavia, o nosso “menino de Estoi” está melhor do que muitos ingleses de gema na Inglaterra: está melhor que os “escravos da rainha”, ele pode acumular empregos precários, enquanto os empregados da rainha ainda não podem, mas esta é uma reforma que o governo britânico admite voltar a conceder mas ainda incerto, para o seu milhão de trabalhadores igualmente precários,  Cameron e Passos Coelho, Portas e Nick Clegg, símbolos claros do neoliberalismo no máximo do seu despudor. Mas gente igual,  lamentavelmente há muita por essa Europa fora. [Depois desta peça escrita volto a encontrar o “meu menino de Estoi” fugazmente a trabalhar mesmo à noite num restaurante de terceira, no dia de Feriado e por onde passei só para confirmar que estava lá. Fiquei mais do que convencido  agora de que nunca mais será soldado da paz. A sua vida, penso eu, terá iniciado a descida de um outro plano inclinado e mais uma vez sem ninguém para o apoiar no embate final, ao fundo dessa descida, tal como no quartel. Nestas confusões todas e por causa delas, uns euros a mais de promessa de remuneração, a fragilidade da sua formação ética e profissional e a precariedade instalada até ao mais fundo da sua vida dão-me a  sensação de que perdeu a cabeça. Aí procuro a minha estrela polar. Não a vejo, fico triste].

Ao falar com ele naquela outra noite, no dia anterior ao meu encontro com a suposta alta patente,  depois dele me explicar de forma sucinta o que lhe acontecera no quartel ao fazer a especialidade militar, muito  de repente, deu-me uma vontade  profunda de mandar o mundo á viola, de me perder na minha imaginação e na minha indignação, como forma de acalmar  esta raiva  muito mal contida que me assaltou. Desejei ver-me como um gigante, como Gulliver, como o gigante egoísta e arrependido de Oscar Wilde,  um enorme gigante, com pés de gigante, com botas de gigante, mas com uma particularidade: com as botas a serem pontiagudas,  cardadas, com peças de metal. I vi-me a desejar que as cenas seguintes se tivessem passado. Curioso!

 No formato de gigante assim equipado, , de repente, em três passadas, na minha viagem de Gulliver desejei sentir-me não em Lilliput, em Brobdingnag ou na Cornualha, mas em Lisboa a entrar no Conselho de Ministros. Desejei aí ver a confusão total. Desejei ver-me a apontar o meu pé para o ministro de tutela dos responsáveis pelo pontapé no “menino de Estoi”, desejei acertar-lhe  em cheio nas partes correspondentes à que do  meu “menino de Estoi” foi fortemente agredido. E assim. A sonhar alto, terei ouvido um berro, um grito enorme que se ouviria  por Lisboa inteira. Só ouviria dizer, em gritos atabalhoados   que os Estaleiros de Viana como outros na Europa poderiam seguir o mesmo destino, serem privatizados, serem vendidos aos chineses. Senti-me a virar-me e a ter apanhado, de frente, o responsável pela deseducação global do país, o homem de falinhas mansas que tão bem criticava Maria de Lurdes  Rodrigues, no tempo do Sócrates, com uma pele de cordeiro quando não passava de um lobo cheio de raiva e de dentes serrados e que neste momento aponta mais duas armas terríveis contra o ensino público e que está na verdade  disponível para o fazer rebentar: o cheque ensino e a prova de admissão para professor, com uma enorme barreira à entrada e para complicar este quadro, com essa forte barreira à entrada estabelecida para favorecer duas a três Universidades deste país. De uma só cajadada matava também o ensino superior .  E este suposto senhor  gritaria  que não fazia nada por mal, que era muito distraído, que até a sua mulher lhe dizia que não era sequer de confiança em andar com as chaves de casa.   Vi-me a aplicar-lhe um pontapé equivalente ao que levou o meu “menino de Estoi”. Antes ele destruído que  os filhos e os netos futuros do meu país.  Depois, parecia-me ouvir  um esvoaçar das fraldas de  uma camisa elegante, uma Pancaldi, talvez, ouviria o tecido de umas pernas  de calças, feitas de tecidos Cerruti ou talvez Savile Row , pernas que na corrida se roçariam e uns gritos, a mim  não, eu nunca faria isso a um soldado dos comandos. Ai, não fazia, não, gritaria ele. Eu sou a Deneuve. Não sei a que se estaria a referir  este personagem sinistra, talvez a mais sinistra do governo. Não sei mesmo. Mas entretanto, um paquete, sorrateiramente dizia-me, com um enorme desejo de vingança,  “ao nosso Primeiro não  faz nada?” Este estaria aterrorizado a um canto mas calmamente respondi ao referido paquete, funcionário  “menor” na escala da função pública: sou filho de Oscar Wilde, sou filho do seu gigante egoísta, um livro dedicado às crianças. Ora, um antigo secretário de Estado americano, Paul Craig Roberts, veio mostrar à evidência que  se trata de uma marionete. Enquanto tal,  enquanto marionete, nenhuma personagem saído da literatura para crianças lhe fará mal. Como adulto deve-se guardar, identificar e apontar ao povo que assiste a este horror que tipo de marionete se trata, ou quem é que fazia mexer e com que intenções. De resto, um primeiro-ministro só pode cair pela força do Povo ou pela força das armas ou das duas coisas como no 25 de Abril, jamais pela força de um pesadelo. Mas é bom evitar que a força da Democracia seja ultrapassada e onde pode vir a ser mesmo recusada, a seguir, pela força das armas, pela força dos canhões. Um pequeno erro, aí, pode ser fatal.  Nada mais. Um escapar à realidade, era para onde a raiva à situação e como resposta a essa mesma situação me transportava então.

(continua)

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Para ler a Parte II desta crónica, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/08/22/nova-cronica-de-faro-no-3-parte-ii-de-faro-com-amor-de-estoi-com-horror-por-julio-marques-mota-2/

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