FALEMOS ENTÃO SOBRE POESIA – 1 – por Carlos Loures

Nas divagações sobre a natureza da poesia que aqui inicio, vou repetir argumentos que usei em artigos anteriores, pois não surgiram motivos para que tenha mudado de opinião sobre o que entendo ser importante – a defesa da palavra como ferramenta essencial da espécie humana.  A expressão «defesa da palavra» paga direitos de autor – o escritor e humanista uruguaio Eduardo Galeano publicou um artigo com esse título num livro de crónicas e o texto tem corrido mundo e é citado com frequência. Começa assim: Escrevemos a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os outros, para denunciar o que magoa e partilhar o que dá alegria. Escrevemos contra a nossa própria solidão e contra a solidão dos outros. Acreditamos que a literatura transmite conhecimento e actua sobre a linguagem e o comportamento de quem a lê, que nos ajuda a conhecermo-nos para que nos salvemos juntos. 

Num artigo publicado no número 3 da “Pirâmide” recorri a verso de Rimbaud – Donc le poète est vraiment voleur de feu – referência ao mito de Prometeu que, desafiando a fúria dos deuses, roubou o fogo do Olimpo para o ofertar aos mortais. Mas, a todos os mortais?  Galeano quando preconiza a defesa da palavra, diz que devemos escrever para os outros e no parágrafo seguinte é mais explícito – os “outros” é um termo demasiado vago e num tempo de crise a ambiguidade pode assemelhar-se à mentira:; Na verdade, escrevemos para as pessoas com cuja sorte ou má sorte nos sentimos identificados – e diz que escrevemos para os deserdados, para os rebeldes, e que muitos deles não sabem ler e se sabem não dispõem de dinheiro para comprar livros. E pergunta se esta contradição se resolve proclamando que se escreve para essa cómoda abstracção a que damos o nome de «massas»?

De certo modo, esse é o papel do poeta – transformar em beleza conjuntos de  palavras que, uma por uma, são vocábulos banais. É um acto de magia. Só alguns o conseguem embora muitos o simulem. Mas a questão que tenho colocado é a de o poeta, para poder ganhar o pão, usar a magia para compor frases publicitárias. Um poeta como O’Neill escrevendo textos publicitários para um colchão ou para um berbequim. Um feiticeiro usando indevidamente o feitiço, para poder sobreviver. Numa conferência proferida há quase 50 anos numa colectividade de Tomar, Alves Redol chamava a atenção para o absurdo de numa reunião de uma agência de publicidade estarem quatro ou cinco escritores (ele era um deles) a tentar encontrar uma frase, um slogan para uma máquina de lavar roupa.

Tenho também colocado o problema de o artista estar, na sociedade capitalista, abandonado à sua sorte – ou produz arte vendível ou terá de mudar de actividade. As leis do mercado e o gosto deformado do público, determinam o seu êxito ou fracasso. Como qualquer produto, a obra de arte, o livro, a peça musical, são avaliadas de acordo com as regras do mercado – têm uma qualidade técnica (ou seja um valor intríseco) e uma qualidade percebida (ou seja, o valor que o mercado no seu conjunto lhe atribui). E aqui passamos para esta terceira reflexão sobre este tema ou seja, qual o papel da arte no dia a dia das pessoas.

A questão principal deve desde já ser colocada – a qualidade técnica de um produto só pode ser avaliada por peritos e, no caso da arte, os peritos analisam uma obra à luz dos conceitos de uma época. Se Pedro de Andrade Caminha era por muitos preferido a Luís de Camões, se Júlio Dantas era mais famoso do que Fernando Pessoa, se José Rodrigues dos Santos vende mais do que Lobo Antunes, isto apenas significa que Andrade Caminha, Dantas e Rodrigues dos Santos, escrevem aquilo que o mercado deseja. Camões e Pessoa, são os símbolos maiores da literatura portuguesa. Caminha e Dantas são conhecidos por estudiosos. Não estou a comparar Lobo Antunes a Camões e a Pessoa, pois só um futuro que não   viverei dirá quem são os escritores e os artistas que marcam esta época. E Saramago? Saramago  foi um escritor que conciliou arte com gosto de mercado. Não sei se os seus livros daqui por cem ou duzentos anos serão lidos com o prazer com que hoje lemos um soneto de Camões ou a Ode Marítima de Álvaro de Campos.

Paulo Coelho, pelos padrões da críitica literária é um escritor mais do que medíocre – nunca nenhum escritor de língua portuguesa atingiu os números astronómicos que os seus livros alcançam – de O Alquimista vendeu 65 milhões de cópias (nas edições em váias línguas). Como diz Ernst Fisher, quem escreve para o mercado não abre portas fechadas, passa pelas que estão abertas. O segredo de Paulo Coelho é o de dizer banalidades, lamechices tontas, com um ar de sabedoria que dá a pessoas pouco inteligentes a ideia de que têm capacidade para compreender pensamentos profundos – parvoíces como “ As mais belas frases de amor são ditas no silêncio de um olhar”, são repetidas como se fossem peças de elevada sabedoria. Há sambas com letras infinitamente mais inteligentes. Mas, de certo modo, é um mago, arguto, que como uma prostituta experiente dá ao cliente aquilo que ele espera. Falso amor – falsa magia.

O filsófo austríaco Ernst Fischer e o seu ensaio Da Necessidade da Arte, salienta o carácter mágico da arte. Se for desprovida da magia que provém da sua natureza original, segundo ele, a arte deixa de ser arte. A arte tem a idade do homem e o homem foi, desde a sua origem e face à hostilidade da natureza, um mago. A magia da criação da ferramenta transforma um primata superior num homem. O homem produziu a magia que deu lugar à humanidade. É um produto de si mesmo. Só inventou deuses porque não entendia nem os mecanismos, nem o poder da sua própria magia. Não entendia também a natureza sobre a qual exercia essa magia. E precisava de explicar tudo isso. E a sua magia criou os deuses e a lenda de que tinham sido os deuses a criar o homem.

Da forma sumária que este meio exige, expus o que tenho dito sobre a natureza e o papel da poesia.

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