Morreu António Borges, um inimigo do povo, um homem que assumiu por fim a função de vender o património produtivo de Portugal, segundo as decisões da potência dominante, a Troika. Detestava tanto o povo português na sua vida prática como intelectualmente detestava Keynes. Nada mais a dizer.
Morreu António Borges, um serventuário dos grandes capitais, um homem que , na linha do que escreveu Fabius Maximus numa crónica recente, seria considerado um criado ao serviço da Plutocracia, não da Democracia. Nada mais a dizer.
Morreu António Borges, um homem ao serviço do neoliberalismo puro e duro que está a ter como função o declínio do Ocidente a favor do domínio crescente do Oriente, a favor de uma nova ordem internacional assente na multipolaridade onde os BRICS serão os novos centros do poder. Esta é a tendência gerada pelo modelo de política de que tanto fez uso e que está magistralmente descrita num trabalho escrito por Adam Posen, Membro externo do Comité de Política Monetária do Banco de Inglaterra. Nada mais a dizer.
Morreu António Borges, um homem que ganhava centenas de milhares de euros enquanto que queria que os outros ganhassem tostões. Nada mais a dizer.
Resta pois para se ser coerente com a sua prática que o seu funeral seja submetido a concurso público e que ganhe então quem propuser o preço mais baixo e que se a sua campa ocupar um espaço público então o seu sucessor que a privatize o mais rapidamente possível.
E é tudo o que posso dizer sobre este senhor a respeito de quem há um ano escrevi uma crónica que aqui se repete, hoje, por respeito a todas as vítimas da sua política.
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Pequena crónica de Faro – nº 5. Agosto de 2012
PARTE IV
(CONTINUAÇÃO)
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Curiosamente em Setembro de 2011 escrevia eu sobre a crise na Inglaterra:
“A marca dos novos saqueadores, os novos looters pobres de Londres, é pois já visível no extremo outro dos looters, é visível na posição dos saqueadores mais ricos que agora se estão a manifestar como não sendo aquilo de que os acusam, de salteadores ricos, pois até querem pagar os impostos “devidos”, desde que não se discuta a razão de ser dessas mesmas fortunas, desde que não se mexam nos mecanismos que permitem que estas sejam rapidamente recuperadas. É assim com Sarkozy, com Berlusconi, com Cameron e outros, enquanto outros ainda andam às voltas para colocar na Constituição o inadmissível: um travão aos défices públicos em tempo de crise. Na nossa opinião, e a justaposição de datas confere verosimilhança a esta hipótese, foi porque o medo de fortes convulsões sociais se instala e sabe-se que os prejuízos podem mesmo ser incalculáveis, foi porque se sabe agora que à mínima faísca o sistema pode entrar perigosamente numa situação de turbulências e de saídas imprevisíveis, que alguns ricos começam agora a pedir para serem tributados e disso fazerem politicamente grande campanha. O efeito nefasto sobre Londres provocado pelos salteadores pobres tem pelo menos um aspecto positivo em geral, que é o de demonstrar à opinião pública, ainda incrédula, o que têm sido os governos que por ela têm sido eleitos e de, no caso americano, poder publicamente reforçar a posição de Obama, o único adversário credível contra os rufias do Tea Party.
E em Portugal? Em Portugal, a situação, pode tornar-se igualmente explosiva, dada a forte crise em que vivemos, dada também a ausência de apoios institucionais adequados a nível da Europa e dadas as políticas ainda de mais austeridade que se avizinham a virem a ser aplicadas pelo governo a que o senhor ministro pertence. Quando a métrica da barriga se sobrepuser à métrica da ética, muita gente até agora calada pode deixar de ser mansa ou cobarde, para usar os termos de Domingos Rodrigues e o sistema pode vir a ficar politicamente fora de controlo. Uma situação que nem quero imaginar, mas dela francamente tenho medo.”
Lamentavelmente a situação está cada vez mais complicada e o quadro negro sobre a juventude adensa-se cada vez mais e tanto mais quanto a sociedade como um todo está em perfeita falência e as estruturas sociais todas elas começam a estar genericamente em ruptura. As políticas de austeridade conduzem cada vez mais a que haja menos Estado, cada vez mais a que haja menos estabilidade familiar, a desregulamentação no mercado de trabalho actua no mesmo sentido levantando a que as crianças sejam criadas sem a companhia de um dos pais quando não dos dois, levam a que cada vez mais se perca a relação familiar com os avós, enfim, leva a que as crianças cresçam sozinhos. Como se faz de cada criança um adulto são questões que deixaram de interessar, quando são questões cada vez mais prementes A tudo isto se acresce a tentativa do Estado reduzir também o papel da Escola na formação de cada estudante quando estas funções são, por seu lado, cada vez mais complexas..
A política de ensino de Maria de Lurdes Rodrigues é, desse ponto de vista, um desastre nacional e a do seu homónimo actual é, no mesmo quadro de análise um verdadeiro crime historicamente bem demonstrável. Basta considerar que um dos melhores, mais baratos e mais eficazes meios de lutar contra o insucesso escolar e educacional é a redução do número de alunos por turmas. O Governo actual fez exactamente o contrário, aumentou o número de alunos por turma. Não tarda a que as escolas se transformem num verdadeiro caos.
Por tudo isto sinto que nos estamos a transformar num país de diversos tipos de ladrões. Os resultados começam agora a estar bem à vista. Ladrões reais, ladrões potenciais, é o que agora abunda me neste país e nesta cidade também. Um país à beira de um ataque de nervos, um país à beira da primeira bomba a estoirar.
No caminho com o meu amigo recebo uma mensagem telefónica. Compra o DN. Virei-me para o meu amigo marceneiro e mostra-lha, enviada por CGP. Será a bomba de que falas, perguntei.
Ainda é cedo. A violência tem que ir mais fundo, diz-me.
Compro o jornal Diário de Notícias. Passo o jornal página a página. Vejo um muito bom artigo sobre a alta finança que se recomenda como obrigatório a toda a gente, um artigo de título “Um canhão pelo cú”, escrito por Juan José Milla, vejo um artigo sobre António Borges e sobre Lloyd C. Blankfein, Presidente do Goldman Sachs, vejo um artigo sobre a realização de mais um roubo brutal ao povo português, a privatização da RTP, vejo os comentários a este roubo praticamente todos eles duríssimos com esta atitude provável do Governo , com esta medida comunicada por António Borges, o homem que está a frente da organização que concebe, planeia, os assaltos ao património da estrutura produtiva de bens e serviços que é pertença do povo português, pela via das privatizações . Interesso-me então pelo artigo sobre António Borges e sobre Lloyd C. Blankfein.
Mas quem é António Borges?
Vejamos dois a três pequenos textos relativos a este ilustre personagem que tem levado aos píncaros da alta finança e interrogo-me então do porquê da sua vertiginosa subida. Creio que valerá a pena, da mesma forma que valerá a pena interrogarmo-nos porque é que Braga de Macedo foi ou ainda é professor em Science Po quando muita gente sente que não saberá dar pedagogicamente boas aulas, quando o vemos em debate na televisão onde eu, coisa nunca vista até aí, o vi a responder não à pergunta que lhe tinha sido feita pela moderadora de um debate mas à que ele tinha na cabeça, como que estando decorada. E o que foi ainda mais curioso, a moderada foi incapaz de lhe dizer fosse o que fosse talvez porque o respeito ao poder seja considerado por aqueles canais de Televisão uma coisa muito bonita. Que terá pensado o Carvalho da Silva, um dos participantes desse mesmo debate? Quanto a Braga de Macedo, uma personagem de relevo do regime actual e ilustre defensor dos paraísos fiscais, consta-se até que por Paris, por Science Po, terá corrido um abaixo-assinado a pedir a sua demissão. Consta-se, mas concretamente nada mais sei. .
1.Um texto de Mediapart .
Os “DSKnólogos” poderiam ver nesta nomeação [ a de Borges] o sinal de que aquele sobre quem especulam quanto às suas intenções não se vai lançar na batalha das eleições presidenciais francesas em 2012: o Director-geral do Fundo Monetário Internacional anunciou a nomeação do economista português Antonio Borges para estar à frente do Departamento do FMI para a Europa . “É uma decisão que não contribuirá para tornar Dominique Strauss-Kahn mais popular junto da esquerda do Partido Socialista.”
“E (Jean-Luc) Mélenchon será capaz de sentir uma grande alegria no coração”, disse uma personalidade muito próxima do antigo ministro socialista das finanças ao jornal da WEB Mediapart.
Antigo vice-governador do Banco de Portugal, antigo reitor da prestigiada “business school” europeia INSEAD (situada em Fontainebleau), Antonio Borges também foi de 2000 a 2008, um dos principais dirigentes da Goldman Sachs International, a filial de Londres do principal Banco de negócios de Wall Street, sendo como a reencarnação do diabo, uma vez que a crise financeira colocou sob os holofotes esta máquina infernal de ganhar dinheiro. E para ir para o FMI no final de Novembro, Antonio Borges vai deixar a Presidência do Hedge Fund Standards Board, uma instituição privada criada pela indústria da gestão “alternativa” afim de “definir e estabelecer um quadro de disciplina” para os Hedge funds.
Nas suas horas livres, Antonio Borges, ocupa-se com seus irmãos de uma grande fazenda, um “herdade”, no norte do Alentejo, em Alter do Chão, sede da Coudelaria Nacional Portuguesa, a Coudelaria de Alter, onde são criados os puro-sangue Lusitanos Alter Real.
(continua)
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Para ler a parte III desta crónica, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

Morreu António Borges, com 64 anos de atraso.