Pela mão de Spartacus, de Hegel e de Marx, uma viagem ao mundo infernal da precariedade, em Faro, em Portugal, na Europa
Parte I
O Verão despede-se de todos nós, por estes lados, com os raios solares a diminuírem a sua intensidade, a chegarem-nos agora, de mansinho, acariciando-nos o corpo e a alma, como acontece com as ondas do mar a banhar-nos os pés, neste final de Agosto, neste final de Verão.
Outrora, diríamos que era um outro ano que se iniciava, nos primeiros dias de Setembro, mas agora os ritmos são outros, o compasso rege-se pelo calendário escolar dos outros, no meu caso pelo calendário da minha neta. Desses outros ritmos já me demiti, mas do resto, isso não, teimo em manter-me no ativo. Foi essa a certeza que dei a uma pequena empresária quando me questionou sobre o meu interesse pelas condições de trabalho dos seus empregados. Curioso este pequeno incidente que serve de base para a última das minhas crónicas deste Verão “maldito” de 2013.
Com efeito, o “meu menino” de Estoi desapareceu do meu horizonte, tem agora um penteado de rebelde, como me comunicou a minha neta que o procurou ver à distância no restaurante de terceira categoria onde agora trabalha e à espera de jamais ser chamado para as tropas especiais. No meu café do costume foi imediatamente substituído. A diferença no início foi notória, tão evidente que perguntei ao jovem empregado de onde vinha profissionalmente. A sua última ocupação profissional tinha sido a de electricista. Tem 27 anos. Fico com a certeza de que se poderá eventualmente ter perdido um electricista, mas similarmente com o mesmo grau de certeza fico de que por agora não se tem um bom empregado de café. Talvez um dia, mas a comparação é abissal. Saiu de electricista, porquê? questiono. “A crise, a empresa fechou”. Tentei continuar a conversa. E aqui, tem contrato? “Contrato!” exclama ele com ar de espanto. “Não, eu estou à experiência”. Tudo bem, mas o período de experiência deve estar no contrato, digo. “Ah, não sei, penso que estou à experiência por 15 dias”. Esta conversa foi parar, por intermédio dele, aos ouvidos da patroa. Esta quando me viu parecia uma leoa de dentes afiados, dirige-se a mim perguntando-me qual o motivo das minhas questões, interrogando-me que interesse têm para mim as condições dos seus empregados. Respondi-lhe calmamente. Sabe, fui professor. Isso já eu sei, reagiu ela. Pois bem, fui e já não sou mas, não me demiti de nada do que fui, excepto de ensinar. Não me demiti de pensar, não me demiti de me preocupar como vivem, como trabalham e como sofrem os filhos do meu país, porque, no fundo, todos são como meus filhos também. E portanto não me demiti de querer estar a par do retrato social do nosso pais, de ter percepção e de saber como é a realidade que me envolve e nessa realidade minha senhora, incluem-se também os seus empregados, os empregados e os desempregados deste nosso país. Talvez tenha razão, disse-me.
Aqui recordo-me dos meus tempos de 18-20 anos, em condições semelhantes ao deste electricista agora empregado de café, mas ao contrário deste empregado sem nenhuma consciência de si e de uma completa ausência de classe, eu aprendi a ler e a ver o mundo directa ou indirectamente nas suas relações de classe, primeiro a partir da dialéctica do senhor e do escravo de Hegel, depois, de Marx. Mas os tempos eram outros, a capacidade de mistificar a juventude era bem menor, pois o fascismo não dispunha dos meios do capitalismo moderno para por em marcha o reino da mentira, pensei. Um empregado em si, nada mais, foi o que pensei, sem uma consciência para si. Um não empregado no seu “para – sí” de que não tem consciência, um empregado que não será capaz e, durante muito tempo, de reconhecer que a situação do seu patrão a quem pensa estar a denunciar-me é a correspondente e simétrica da sua própria situação de empregado. Lembro-me agora como esse texto de Hegel me começou a marcar intelectualmente e para sempre. Será necessário encontrar um outro Marx que lhe venha a dar uma outra vida, que lhe acenda a chama, que ele bem a merece, tão actual continua a estar este texto do filósofo de Iena.
Não me demiti, portanto, de ser cidadão. Espero por um amigo desempregado de longa duração com quem quero ir visitar a zona da Penha e São Luis. Este ainda assiste à parte final da conversa entre mim e a patroa do café. “Um bufo é o que esse tipo é”, exclama o meu amigo. Não, nem isso é, simplesmente é o aspecto servil da lógica de Hegel só superada pela consciência de classe que ele ainda não tem e não sei se alguma vez terá, nada mais, digo eu para os meus botões. Nessa noite, encontrei-me pois com esse meu amigo, um desempregado de longa duração, pai de um rapaz de 23 anos, a trabalhar numa grande empresa de uma cadeia de venda a retalho.
A propósito da parte final da conversa a que ele assistiu, perguntei-lhe pela estabilidade do emprego do filho, pergunta tanto mais com sentido quanto a cena a que se assistiu tem a ver com a precariedade mais absoluta ainda não transformada pela consciência no seu oposto, na sua força. Estabilidade de emprego? “Ora essa, quem é que agora jovem sabe o que isso é”, retorquiu-me. E continuou: Ora, só sei que ele tem um contrato de 6 meses, que lhe custou antes três meses de desemprego na mesma casa para depois lhe cederem este contrato. E depois, perguntei. A sua resposta a esta minha pergunta foi aqui ainda mais dura. “Mas neste país governado por filhos da p…, há algum jovem que tenha um depois de amanhã garantido? Mas mesmo nós que de jovens já não temos nada? Não sei eu o que é amanhã, sequer, e falo de um futuro bem presente, supostamente ao virar da esquina, quando mais falar de futuro a sério.”
Calo-me. Proponho-lhe irmos dar uma volta para os lados da Penha e de S. Luís, zona do estádio de futebol do Farense, para eu ter uma ideia do que é aquela zona. Fomos. Pelo caminho, logicamente, não fomos calados. Passamos por uma dada rua e diz-me; “andei aqui hoje a arranjar a casa do meu irmão.” Uma casa T quê, questionei e naturalmente perguntei, quanto valeram monetariamente as obras por ele feitas. Engasguei-me com a resposta e ia tropeçando nos múltiplos buracos em que as ruas de Faro são fartas. Disse-me, “nada”. “É meu irmão, encontra-se numa situação análoga há minha e tal como a minha mulher, é vitima de um grave problema de saúde. Ladrilhei-lhe a cozinha, piquei-lhe as paredes, estuquei-as a seguir e, depois, passei à fase de pintura. A casa estava em muito mau estado. A minha contrapartida era o almoço por cada dia de trabalho.” O que foi então hoje o seu almoço, perguntei. “Oh, diabo, já não sei outra vez. Não imagina, comi uma coisa que gosto muito. Ao jantar a minha mulher fez-me exactamente a mesma pergunta. Não lhe soube responder. Dei voltas e voltas à cabeça e não soube. Depois, muito depois, lembrei-me. Agora acontece-me o mesmo. Bolas para isto. Sabe, com a vida que tenho, ando com a vida cheia de nadas e a cabeça cheia de outras coisas.”

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