PROVÍNCIA DE SANTA CRUZ, TERRA DE VERA CRUZ, TERRA DOS PAPAGAIOS? BRASIL, OBVIAMENTE – por Carlos Loures

Brasil? Porquê?

Antes de responder, falemos sobre plantas.

Não é fácil imaginar como é que o europeu comum recebia as novidades que chegavam das novas terras descobertas. Nem sequer se pode comparar com a actual revelação dos segredos dos planetas do nosso sistema solar ou mesmo dos exteriores. O papel que actualmente a televisão e a internet desempenham, era assumido pelos relatos de navegantes, muitas vezes exagerados, suprindo com a imaginação as falhas da memória ou do conhecimento. Homens das naus, como eram chamados os navegantes, à mesa de uma taverna ou de um mal cozinhado, por vezes já com um grão na asa, descrevendo as suas experiências a artífices, a aprendizes, a comerciantes, boquiabertos – cobras do tamanho de alifantes, homens com duas cabeças? E até em cronistas encontramos descrições fantasiosas ou fruto de confusões – por exemplo, confundir gorilas ou orangotangos com seres humanos. Seria nestes estudos fantasistas e impregnados de superstições que se baseava a exploração dos territórios que as armadas iam descobrindo?

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Num almoço, salvo erro em 1988,  Alfredo Margarido falou-me de um estudo em que, com Isabel Castro Henriques, trabalhava. Nele dava conta da revolução biológica que os Descobrimentos tinham provocado – a transplantação de espécies europeias para África e para o Novo Mundo, de espécies africanas para a Europa e para as Américas…Sem essa revolução biológica, a Revolução Industrial não teria existido, disse-me. Passado tempo, tive o prazer de editar Plantas e Conhecimento do Mundo nos Séculos XV e XVI, um livro que demonstra que os portugueses nem sempre faziam mal as coisas. O estudo das espécies botânicas, por exemplo, foi feito com o apoio do conhecimento científico da época. E o objectivo dos catálogos que sobre as espécies de cada território iam sendo elaborados era o de avaliar potencialidades económicas, o uso de cada uma na alimentação ou na medicina.. Dos estudos de Pêro de Magalhães Gândavo e de Gabriel Soares de Sousa às obras de Garcia de Orta e de Cristóvão da Costa, percorre-se um caminho paciente – levantamento das espécies indígenas e comparação sistemática com outras. E o comparatismo era um método de grande utilidade, pois o conhecimento adquirido num território podia servir de ponto de partida para o trabalho a desenvolver noutro recém-descoberto. Magalhães Gândavo não partiu do zero no Brasil, mas sim da experiência que adquirira na Índia. Repito, este livrinho de Alfredo Margarido e de Isabel de Castro Henriques, é nas suas 150 páginas, uma obra fascinante.

João de Barros, na sua Década I explica como é que o território foi por Pedro Álvares Cabral baptizado como Santa Cruz, mas a designação de Brasil prevaleceu. «Por o qual nome Santa Cruz foi aquela terra nomeada os primeiros anos: e a cruz arvorada alguns durou naquele lugar. Porém, como o Demónio pelo sinal da Cruz perdeu o domínio que tinha sobre nós […]tanto que daquela terra começou de vir o pau-vermelho chamado ‘brasil’, trabalhou que este nome ficasse na boca do povo e que se perdesse o de Santa Cruz. Como que importava mais o nome de um pau que tinja panos que daquele pau que deu tintura a todos os sacramentos por que fomos salvos» O pau-brasil que nos chegava e que permitia tingir panos, tanto andava na boca do povo, que Brasil, foi o nome que prevaleceu, ainda que João de Barros insistisse que se devia continuar  a dizer Província de Santa Cruz, pois Brasil fora nome «posto por vulgo sem consideração e não habilitado a dar nome às propriedades da real coroa.» A prevalência da opinião popular sobre a da Igreja, revela que a colonização portuguesa não foi em muitos aspectos diferente das outras. A vertente económica era tão importante que a Igreja foi obrigada a ceder e a um território tão vasto dar um nome de uma planta, de um pau que servia para tingir tecidos, e não o da «santa cruz» em que o seu Messias morreu. João de Barros atribui a vitória do nome popular a intervenção do diabo.  História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, a famosa obra de Gândavo, é um título que demonstra que, 76 anos após o descobrimento, a luta pelo baptismo  do território continuava.

Shakespeare, no famoso diálogo de «Romeu e Julieta» diz, com toda a razão que o nome da rosa é secundário, fosse qual fosse o seu nome,  a rosa teria sempre o mesmo perfume. Shakespeare tem razão no que se refere à rosa. Mas na luta entre os advogados de Deus e um diabo, ressabiado segundo João de Barros, ganhou o diabo!

Felizmente, pois como podia o Brasil ter outro nome?

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