CRÓNICA DE FARO Nº 4. Por JÚLIO MARQUES MOTA

Pela mão de Spartacus, de Hegel e de Marx, uma viagem ao mundo infernal da precariedade, em Faro, em Portugal, na Europa

PARTE VIII
(CONCLUSÃO)

Calei-me de novo e aqui lembrei-me da minha questão morrer por estar no euro, morrer por sair do euro e qual é a outra saída, e o dilema não deixa de ser equivalente. Relembro as palavras sábias de Domenico Mário Nuti:

No caso de um país sair da zona euro e passar a ter moeda nacional, esse país seria capaz de conduzir a sua própria política monetária, presumivelmente reaquecendo a sua economia e escolhendo o seu próprio trade-off entre inflação e desemprego. Poderia, se o quisesse, escolher um modelo de Banco Central também ele independente, mas igualmente a ser capaz de financiar as despesas públicas (como o BoE), só que isso pode não ser muito útil já que mesmo saindo da UEM, desde que permaneça na UE teria de adotar políticas de austeridade, impostas a todos os membros da UE pelo chamado Pacto de estabilidade e Crescimento (PEC).

O país que saísse da zona euro poderia retomar a sua competitividade internacional pela via da desvalorização nominal da moeda, em vez de ter de o fazer por meio de políticas deflacionárias internas dolorosas e impopulares de salários e preços. Poderia inclusivamente entrar em incumprimento – unilateralmente ou por acordo com os seus credores – e ser socorrido pelos seus credores, levando estes a reduzirem-lhe assim o valor sua dívida, da mesma forma que o país poderia mesmo manter-se como um país membro, sem ter de estabelecer de acordo com a Troika (CE, BCE, FMI) os termos da assistência bail-in, e sem o BCE e a CE em termos de assistência (mas possivelmente ainda com a do FMI). Claro está, a permanência na UEM é um dos requisitos da pertença à UE, pois um país ao abandonar a zona euro, terá, mais cedo ou mais tarde, ter de abandonar a UE – um custo não desprezível na análise da saída do Euro.

Um país ao sair do Euro pode implicar uma corrida aos bancos, caindo numa situação em que o BCE deixa de lhe poder garantir assistência de liquidez de emergência: uma tal situação ocorreu em Chipre em 2013, quando o governo inicialmente não aceitou as condições impostas pela Troika para prosseguir com o resgate. A este nível, a única maneira de manter a liquidez seria a introdução – pelo Banco Nacional ou pelo Tesouro – de uma moeda nacional, ou seja uma espécie de Euro Nacional, inicialmente emitido a par com o Euro. Posteriormente, a nova moeda nacional seria inflacionada e desvalorizar, pois teria que flutuar de modo a que o Euro não desaparecesse de circulação devido à lei de Gresham (A moeda má tende a expulsar do mercado a moeda boa). De facto, a nova moeda nacional, provavelmente iria inflacionar e desvalorizar a taxas escandalosamente altas. Como resultado, as taxas de juros na nova moeda aumentariam rapidamente quando comparadas às do Euro. Se a saída do euro fosse feita por vários países de pequena dimensão ou por um grande país apenas, provavelmente, iria-se desencadear uma corrida aos bancos em outros membros da zona euro, o que espoletava um efeito dominó desnecessário.

De acordo com Nuti, de acordo com este seu texto, à escala mundial, à escala do continente europeu, à escala dos seus Estados-membro, à escala dos seus cidadãos, estão-nos a empurrar para um beco sem saída, é a conclusão que se tira. Resta uma outra que Nuti igualmente nos sugere e que a vida a cada um de nós impõe, se gostámos de nós, se gostamos dos nossos filhos, se gostámos dos nossos netos e essa opção é resistir, resistir. É um pouco essa a mensagem que deixo a este meu companheiro da noite, por outras palavras, é de resto o que ele faz, diariamente também. Para isso é necessário que os partidos de esquerda em vez de aceitação de uma política de acomodação à globalização, é o que faz a União Europeia, se posicionem crítica e fortemente contra o modelo até agora seguido. É já tempo de sentir esses ventos de mudança, à esquerda. Para isso é necessário que gentes como o meu companheiro votem bem, é preciso que os eleitores votem nesse sentido e impondo este mesmo sentido aos partidos de esquerda que curiosamente tem sido defensores e também arquitectos do sistema que nos destrói. E se isso não der resultado só há então uma saída, a saída da zona euro mas provocada, ou seja, tomarmos políticas expansionistas e então se nada mudar que nos coloquem fora do euro. Mas que sejam eles a fazerem-no e não nós. Aqui afastamo-nos de Nuti, das últimas linhas do seu texto em que sugere apenas “ameaça a fingir de saída”, e aproximamos especialmente de Thomas Coutrot ou de Jacques Genereux. É preciso acabar com esta espiral de destruição, assentes também nas políticas de desvalorização interna em ambiente de recessão global, que lamentavelmente Nuti parece poder aceitar,  e na exploração intensa dos países em dificuldades pelos grandes operadores nos mercados de capitais com o apoio dos organismos regionais e Internacionais, a União Europeia, o BCE, o FMI. a Troika em suma como potência ocupante .

Lembrei-me entretanto de um pequeno incidente que aqui me aconteceu. A um cliente habitual do café que frequento conto a história do empregado dito “bufo” (segundo o meu amigo), e conto-lhe sobre o assunto dos níveis salariais. Em resposta contou-me uma pequena história. Um conhecido dele trabalhava na grande distribuição, por grosso. Entrada pelas 8 da manhã. Uma hora para o almoço e não havia horas de saída fixas, mas nunca antes das 18 horas. Ordenado? Os mesmos quinhentos euros de que me canso já de ouvir falar como remuneração. Um dia, o gerente mando-o ir à casa de férias do patrão, na Quinta do Lago, levar umas encomendas de carne e peixe. Ficou deslumbrado, ficou agoniado. Aquele arrendamento do imóvel cifrava-se em 13.000 euros/mês! E o primeiro sinal de revolta foi quando saiu, “mijou” para cima da casa do patrão. Disse-me ele que ficou tão satisfeito ao fazê-lo como já não se lembra de ficar assim tão contente. De raiva nunca o seu instrumento de ajudar a povoar o mundo esteve tão erecto, a sua “pila” ficou tão direita como já não se lembra de há meses assim, de tão cansado que agora anda no duro trabalho que tem e muitas pragas lhe rogou. Quando contei isto aos meus companheiros da noite, percebi que lhes estava a falar do texto do Adam Posen, do texto de Hegel e da passagem do “em- sí para o para-sí”, para a consciência de classe, lembrei-me que estava a referir também os textos de Marx, a necessidade de uma revolta, de uma revolução, se não queremos regressar ao século XIX. O confronto dos €13.000 de arrendamento contra um salário de 2 euros/hora com que assim se está a sustentar o senhor pelo trabalho do escravo são já disso um claro sinal.

Largo os meus dois antigos estudantes e venho para casa com o meu companheiro da noite, desempregado de longa duração. Passo pelo local onde levo a minha neta à cabeleira e digo-lhe que a cabeleireira se deve estar a safar bem. Os preços são baixos, metade dos de Coimbra para o mesmo serviço. Diz-me, sabe a concorrência é muita. Repare que no espaço de 50 metros tem três cabeleireiras. Assim ninguém aguenta. Adicione-lhe a concorrência em casa. O que é isso, perguntei. Sabe muitas das cabeleireiras que ficaram desempregadas e que emprego não terão tão depressa, concorrem com estas e vão ao domicílio efectuar o serviço. Este quadro expressa a mesma realidade que os desempregados a concorrerem entre si ou como a exploração via condomínios. Agora, morre-se por trabalhar, morre-se por não trabalhar. Que destino este, meu Deus, suspira!

Voltei a lembrar-me de Diana Krall e dos versos:

Stop this world, let me off

There’s just too many pigs in the same trough

There’s too many buzzards sitting on the fence

Stop this world, it’s not making sense

(…)

Stop this game, deal me out I know too well what it’s all about

I know too well that it had to be

Stop this game well it’s wrecking me.

E lembrei-me ainda de Spartacus, a revolta dos escravos, os de ontem e os de hoje, de Hegel, da dolorosa tomada de consciência a caminho da consciência de classe, de Marx e da dinâmica da luta de classes.

E face à regressão que se anuncia, se os escravos de hoje não se revoltarem, voltei a lembrar-me do encontro que tive com alguém que supostamente é ou é amigo de uma alta patente, conforme relatei na crónica anterior, e que me disse:

“ainda gosto muito de cá estar, senão, disparava alguns tiros e seguramente alguns iam comigo. Bem o mereciam. Mas ainda gosto de viver”

E fui-me deitar.

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Para ler a Parte VII desta crónica do argonauta Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem doa Argonautas, vá a:

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