URUGUAI – UM PAÍS INVISÍVEL – por Carlos Loures

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Se perguntarmos numa rua de uma cidade portuguesa a um transeunte o que sabe sobre o Uruguai, prevêem-se duas respostas maioritárias – ou não sabe nada ou fala no Peñarol ou nos futebolistas que jogam na Europa – Cavani, Lavezzi, Maxi Pereira, Álvaro Pereira, Diego Forlan…Se numa centena de inquiridos houver um que tenha lido El astillero, de Juan Carlos Onetti ou que conheça a figura ímpar de Eduardo Galeano, será uma vitória da cultura sobre a ignorância. E é precisamente Eduardo Galeano, grande jornalista e escritor uruguaio quem diz com ironia -“Nós, os uruguaios temos uma certa tendência para crer que nosso país existe, embora o mundo não o perceba”(…)“Os grandes meios de comunicação, aqueles que têm influência universal, nunca mencionam esta nação pequenina e perdida ao sul do mapa.”

E Galeano lembra que se trata de um país que aboliu os castigos corporais nas escolas 120 anos antes da Grã-Bretanha, que adoptou a jornada de trabalho de oito horas um ano antes dos Estados Unidos e quatro anos antes de França, que teve lei do divórcio setenta anos antes de Espanha e voto feminino catorze anos antes de França. Por outro lado, teve proporcionalmente o maior número de exilados durante a ditadura militar, em comparação com sua população. Cinco vezes maior do que a Holanda e cinco vezes menos populoso. Tem mais terra cultivável do que o Japão e uma população quarenta vezes menor.

Em Portugal devia conhecer-se melhor um país que foi colonizado por portugueses, a Província Cisplatina, e onde os apelidos portugueses são ainda hoje ostentados com orgulho. Mas, se devíamos conhecer o Uruguai por um passado que nos relaciona, devíamos conhecê-lo pelo seu presente. Pelos seus escritores e pelos seus políticos. Com supremos magistrados como o nosso presidente da República ou o rei do estado vizinho, custa a acreditar que haja ainda gente que faz política pelos melhores motivos como é o caso de José Mujica, um presidente que, prescindindo de todas as honras, pompas, mordomias que considere excessivas, não se serve do cargo – serve o povo do seu país.

Numa entrevista e referindo-se à possibilidade de uma intervenção militar na Síria, disse:: “O único bombardeamento admissível seria de leite em pó, biscoitos e comida”. E  defendeu que uma acção militar não é o melhor caminho para solucionar o conflito civil no país. “É como tentar apagar uma fogueira deitando-lhe mais combustível”, diz, referindo o plano norte-americano de intervenção. “A guerra não se resolve introduzindo mais guerra. Isso leva a situação para um caminho de conflitos intermináveis e promove um profundo ressentimento que se vai transformar em luta e resistência “. No passado sábado e segundo refere o El País, o presidente uruguaio apoiou-se na história contemporânea para demonstrar os impactos negativos da guerra. “Cada uma das tentativas nos últimos 30 anos de impor a democracia ocidental – da forma como conhecemos –, na Ásia ou no mundo Árabe, teve o resultado semelhante de sacrifício e dor”.

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