No próprio sábado dia 14, publicámos um resumo da intervenção de Vasco Lourenço na reunião de militares em Monte Sobral, comemorando o 40º aniversãrio do arranque do MFA. Publicamos agora, na íntegra, o excelente e corajoso discurso do argonauta e presidente da Associção 25 de Abril, um militar de Abril que defende, quatro décadas depois, os valores que presidiram à constituição do glorioso Movimento das Forças Armadas.
Há 40 anos, em 1973, Portugal mantinha-se orgulhosamente só, isolado de quase toda a comunidade internacional. Só assim se conseguia manter uma guerra colonial, em três frentes distintas e bem distantes umas das outras e da própria Metrópole, recusando Obstinadamente encarar os ventos da História, que há já dezenas de anos haviam aberto as portas à autonomia e independência dos povos colonizados. Só assim se conseguia manter a mais longa ditadura do mundo ocidental, autoproclamado de civilizado, que mantinha os portugueses como um povo triste, analfabeto e atrasado.
Foi então que um pequeno grupo de capitães do Exército, mais precisamente 136, aqui se reuniu e deu origem a uma caminhada que, passados menos de oito meses – exactamente 227 dias – desembocaria na gesta libertadora do 25 de Abril de 1974.
Abriram-se as portas à liberdade, à paz, à democracia, à justiça social, ao desenvolvimento, enfim à construção de um país livre, democrático e justo,
perfeitamente inserido na comunidade internacional. São passados 40 anos e, olhando para a actual situação do nosso Portugal, que vemos nós?
Que país fomos capazes de construir, com todas as condições que o 25 de Abril nos proporcionou?
Estamos satisfeitos? Continuamos a considerar que valeu a pena, que a caminhada que aqui iniciámos, tudo arriscando em prol da nossa Pátria, e os resultados obtidos, nos realizam como cidadãos, como portugueses e como Homens?
Muitos poderão dizer que sim, que nós fizemos o nosso dever, que o 25 de Abril é inatacável, que o resto já não nos diz directamente respeito!
Pessoalmente, concordando com as premissas, não concordo com as conclusões! Se, de facto, o que fizemos permitiu aos portugueses serem detentores do poder de decidirem dos seus destinos e da forma de lá chegar – é um acto, uma obra que está na História e nenhum “branqueador” conseguirá apagar – se disso podemos e devemos manter um justo orgulho de militares de Abril, não é menos certo que não podemos omitir o facto de, como portugueses, inseridos na comunidade nacional, não termos sido capazes de aproveitar o 25 de Abril e construirmos um país melhor que o que hoje temos.
Não mantivemos o MFA como organização responsável e autónoma, dissolvemo-lo e integrámo-nos na nossa comunidade. Não era viável outra solução, nem nós alguma vez a tentámos. Mas, o facto é que como cidadãos temos a nossa quota parte de responsabilidade, por estes 40 anos, pelo feito e pelo não feito. 40 anos que nos trouxeram a uma situação que, embora muito melhor em inúmeros aspectos do que a que vivíamos nesses tempos, temos de concordar, está pior noutros campos, igualmente relevantes.
Por assim pensar, por não abdicar de lutar por um Portugal digno, apesar de já não ser um jovem em idade, não desisto!
Não me conformo com um país transformado num protectorado de forças estrangeiras ; não me conformo em ver cidadãos portugueses vendidos a essas forças estrangeiras, actuando como autênticos capatazes dos seus concidadãos; não me conformo em ver um país cada vez mais injusto, na relação entre os seus cidadãos, onde os poucos ricos são cada vez mais ricos e os muitos pobres são cada vez mais pobres; não me conformo com um país dirigido por corruptos, por aldrabões, por pessoas sem ética e sem moral, que tudo espezinham para manterem lugar á mesa dos poderosos; não aceito um país dirigido por colaboracionistas que não hesitam em vender-nos a pataco, criando condições para que o capital financeiro aqui tenha uma quintinha para brincar aos pobrezinhos; não aceito um país onde se destruam as Forças Armadas e se substitua o Exército de âmbito nacional e capaz de, em última instância, lutar pela sobrevivência e soberania nacionais, por um exército de desempregados, mão-de-obra barata, para os senhores da finança e dos seus interesses; não me conformo por ver destruir o Estado de uma forma deliberada, com a finalidade de tudo colocar nas mãos de uma minoria de privilegiados.
Por tudo isso, porque não aceito viver num país sequestrado pelo medo, continuo na luta.
Sabemos que a conjuntura internacional não nos é favorável! Hoje, não estando isolados internacionalmente, sabemos ser difícil alterar esta situação sem envolvimento simultâneo de muitos outros povos, da Europa e do mundo.
Será um facto, mas, não o esqueçamos, em 1973/1974 também parecia impossível atingirmos o sucesso obtido com o 25 de Abril!
E, se em 1974 fomos um exemplo para o mundo inteiro, que nos acolheu e imitou, com enormes transformações, porque não sonharmos que poderemos, hoje e aqui, voltarmos a dinamitar uma situação que parece inexpugnável?
Propomos, portanto, iniciar hoje e aqui, uma nova caminhada, procurando o objectivo de um novo Portugal.
Temos de ser capazes de Vencer o Medo, Reafirmar Abril, Construir o Futuro! Há 40 anos, assinámos aqui um documento, exposição que enviámos então aos principais responsáveis do País e das Forças Armadas.
Simbolicamente, propomos que se assine aqui – e, tal como há 40 anos, se promova a recolha de outras assinaturas – um documento que seja um sinal inequívoco de que a degradação do País tem de parar, de uma vez por todas. E se, há 40 anos, o documento tratava um assunto específico que contribuía para acentuar o enorme desprestígio das Forças Armadas perante a Nação portuguesa, proponho que hoje elejamos também um problema específico que está a contribuir para acentuar a nossa falta de soberania.
Sim, porque hoje somos um povo cada vez menos soberano.
Um povo que não controla a energia, as comunicações, os transportes, os serviços de saúde, a educação, o aparelho do Estado não pode considerar-se soberano.
Para que essa soberania desapareça totalmente, enfranquecidas que estão as Forças Armadas, falta tirarem-nos a Segurança Social e a Água.
É isso que se preparam para nos roubar!
Não podemos permitir que nos tirem um dos bens mais essenciais à vida humana. Se isso acontecer, está em causa a manutenção da esperança em recuperar a nossa liberdade e a nossa soberania.
Não podemos permitir que os traidores concretizem mais este crime! A água, como bem essencial, não pode ser objecto da ambição dos usurários!
Por isso, não esquecendo outras frentes de luta que temos de continuar a travar –
também não podemos permitir a venda dos CTT e dos centros de saúde, entre outros
bens públicos que se impõe preservar – temos de proclamar bem alto que estamos
atentos, estamos na luta, não vamos desistir!
Temos de impedir o processo de privatização da água e dos resíduos, que está em marcha!
Temos de obrigar o governo a recuar!
Sabemos que os detentores do poder se movem por interesses espúrios, por interesses que não ousam sequer admitir.
Aliás, só a enormidade desses interesses em jogo pode justificar que esses detentores do poder arrostem com todos os escândalos, sujeitando-se a serem corridos à paulada, tão grandes e numerosos são os casos que demonstram a sua falta de carácter e patriotismo. Fazem-no porque estão a cumprir a tarefa que aceitaram receber do capital, de destruírem o País, de venderem a pataco as suas riquezas, de nos arrastarem para o abismo. Com a esperança de receberem a recompensa de trinta dinheiros…
Por tudo isso, temos de lhes pôr cobro! Não tenhamos ilusões!
Se não formos capazes de dizer NÃO à privatização da água e dos resíduos, se deixarmos que os vendilhões continuem a sua acção de delapidação do País, não
seremos dignos dos conspiradores de há 40 anos! O desafio aqui fica, confio que lhe saberemos responder, com sucesso!
Viva Portugal
Vasco Lourenço
Monte Sobral, Alcáçovas, 14 de Setembro de 2013
