CELEBRANDO NATÁLIA CORREIA (7) – por Álvaro José Ferreira

(Continuação)

Fado

 

Poema: Natália Correia (excerto) [texto integral >> abaixo] Música: Nuno Rodrigues Intérprete: Patrícia Rodrigues* (in CD “Ternura”, CNM, 2004)

 

Falam de nós na cidade

Porque dizem que te ofereço

Coisas de que não disponho,

Como se fosse maldade

Dar-te os olhos para berço

E os cabelos para sonho.

Dizem que quando eu me deito

Contigo uma lua negra

Vem fazer o casamento.

Como se fosse defeito

Saber que a vida não chega

Para o nosso sentimento.

Dizem que este desatino

É a maldita lembrança

Do pecado original?

Eu só sei que isto é destino

E mesmo que seja herança

É legado natural.

Porque é virtude tocar-te

Tu és mais puro que um deus

Purificas o que afagas.

Meu amor, só de afagar-te

A minha mão chega aos céus

E sou mais forte que as pragas.

Dizem que este desatino

É a maldita lembrança

Do pecado original?

Eu só sei que isto é destino

E mesmo que seja herança

É legado natural.

[instrumental]

 

Meu amor, só de afagar-te

A minha mão chega aos céus

Meu amor, só de afagar-te…

 

[instrumental] *

José Manuel Neto – guitarra portuguesa Jorge Fernando – viola José Marino de Freitas – viola baixo Arranjos e direcção musical – Jorge Fernando Produção – Nuno Rodrigues

 

FADO

 

(Natália Correia, de “Inéditos 1947/55”, in “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 41-42; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 57-58)

 

Falam de nós na cidade Porque

dizem que te ofereço

Coisas de que não disponho,

Como se fosse maldade

Dar-te os olhos para berço

E os cabelos para sonho.

Dizem que quando eu me deito

Contigo uma lua negra vem fazer o casamento.

Como se fosse defeito

Saber que a vida não chega

Para o nosso sentimento.

Lá porque o nosso passeio

É uma fuga das grades

Que em cada gesto partimos,

Dão um nome muito feio

Àquelas intimidades

Em que ficando, fugimos.

Dizem que este desatino

É a maldita lembrança

Do pecado original?

Eu só sei que isto é destino

E mesmo que seja herança

É legado natural.

Porque é virtude tocar-te

Tu és mais puro que um deus

Purificas o que afagas.

Meu amor, só de afagar-te

A minha mão chega aos céus

E sou mais forte que as pragas.

 

Sol Oculto

 

Poema: Natália Correia (“De amor nada mais resta que um Outubro”, poema II de “O Beijo de Antikonie”, in “O Dilúvio e a Pomba”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1979; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 168; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 467) Música: Nuno Rodrigues Intérprete: Patrícia Rodrigues* (in CD “Ternura”, CNM, 2004)

 

De amor nada mais resta que um Outubro

e quanto mais amada mais desisto:

quanto mais tu me despes mais me cubro

e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro

porque se mais me ofusco mais existo.

Por dentro me ilumino, sol oculto,

por fora te ajoelho, corpo místico.

 

Não me acordes. Estou morta na quermesse

dos teus beijos. Etérea, a minha espécie

nem teus zelos amantes a demovem.

 

Mas quanto mais em nuvem me desfaço

mais de terra e de fogo é o abraço

com que na carne queres reter-me jovem.

* José Manuel Neto – guitarra portuguesa Jorge Fernando – viola José Marino de Freitas – viola baixo Arranjos e direcção musical – Jorge Fernando Produção – Nuno Rodrigues

(Continua)

 

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