O MEDO*. Por ANDRÉ BRUN

(1881 - 1926)
(1881 – 1926)

I

Se Bayard foi o cavaleiro sem medo, grandes capitães o tiveram e foram, ao menos um dia, um joguete nas garras do mais cruel inimigo do soldado. Henrique IV teve medo em Jarnac, a sua primeira batalha. Turenne, sentindo o rosto lívido, as pupilas crescentes, os ouvidos besoirando, as maxilas descobertas como as de um cão que vai morder, o coração desordenado, um suor lento na palma das mãos, os joelhos entrechocando-se, bramia rancorosamente:   ̶  «Tremes, carcaça? Mal sabes tu ainda onde te hei de levar!…»

O Espírito  ̶  o senhor da casa  ̶  ausenta-se às vezes de súbito e deixa-a entregue a essa serva cega e louca, a Medula, que numa ânsia tudo revolve e tudo desalinha. Um pobre montão de carne, de ossos, de artérias fica à mercê dos mil nervos grandes e pequenos que ela comanda e, se o senhor não volta rápido e lhe não consegue ter mão, é um irremediável torvelinho em que tudo soçobra, um indescritível furacão que tudo arrasa.

Nesta guerra de hoje, a mais formidável guerra de material que a Humanidade tem visto, em face dos destroços causados por máquinas movidas às vezes a dezenas de quilómetros por inimigos invisíveis, ameaçado a cada instante por perigos contra o qual nada podem nem o esforço dos seus músculos, nem o faiscar da sua inteligência, o homem tem inevitavelmente de sentir-se pequeno e mesquinho. Compreende que não é senão uma triste poeira dentro desta tempestade, que a sua vida nada tem que a garanta senão o Acaso, que uma vez metido na engrenagem e posto ao alcance do Monstro só um factor o pode ajudar: a Sorte.

O cruzado, partindo para a Palestina, ensaiava sobre a unha o fio da durindana, apalpava os bíceps, conferia a cota de malha e dizia para sua esposa:  ̶  «Não há novidade!» Que bíceps há que valham nestas regiões da trincha onde, de súbito, sem que ninguém nos previna, desaba do céu um canudo metálico da altura de uma criança de sete anos, que, metendo-se pela terra dentro, abre com certo estrondo e para os lados um funil onde cabe uma carroça de bois? Onde está o valentão de porta de café, mosqueteiro de bengala de cana-da-índia, cuja cabeça seja mais resistente do que um morteiro mesmo ligeiro? De que serve também a inteligência nestas paragens? O próprio inventor da pólvora, pessoa arguta ao que parece, não se livraria de, estando em palestra com um amigo, sentir de repente uma pancada seca no pescoço ao passo que o amigo ouviria como que a passagem de um besouro grande. Não foi nada; apenas uma bala perdida que, atravessando a carótida dum, o tombou na Eternidade e fez encolher a ponta do nariz a outro,

Aqui só a Sorte nos pode salvar, e há só um meio infalível de não correr perigo nas trincheiras. É nunca cá vir, e esse é o sistema que adopta o verdadeiro sábio.

*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

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