Caros Argonautas, caros amigos
Sobre este texto deixem-me colocar aqui um ou outro comentário, que espero não sejam vistos como de mau gosto, tal a profunda revolta que sinto ao ler o texto abaixo. Um dos comentários a lembrar, é uma discussão entre Carlos Fuentes e um homem da direita mexicana do PRI, em que para este último o problema do comandante Marcos e dos seus índios era, para a direita, o facto de que havia pobres a mais. Por isso é que o PIB per capita era muito baixo. Um segundo comentário, a lembrar a forma satírica como Jonathan Swift propunha uma solução para tantas crianças pobres na Irlanda, com o seu texto satírico A Modest Proposal (For Preventing The Children of Poor People in Ireland From Being Aburden to Their Parents or Country, and For Making Them Beneficial to The Public) onde em síntese da sua sátira nos diz:
”I have been assured by a very knowing American of my acquaintance in London, that a young healthy child well nursed is at a year old a most delicious, nourishing, and wholesome food, whether stewed, roasted, baked, or boiled …”
Marshall Auerbeck, do Roosevelt Institute, depois de nos explicar que em 1729, Jonathan Swift escreveu um ensaio… “A Modest Proposal”..–satiricamente, sugerindo que os irlandeses pobres aliviassem os seus problemas económicos com a venda de crianças como alimento para os ricos senhores e senhoras, propõe ele, e na mesma linha que Swift, mas agora como ataque aos teóricos neoliberais do suply-side, “Nesse espírito, gostaríamos de ajudar todos os governos que se dizem falidos e, portanto, não podem lidar com o problema persistente do desemprego. (…) Apropriando-me pessoalmente da ideia de Jonathan Swift, concluí, portanto, que a nossa única esperança era conceber uma resposta sensata do lado dos teóricos da supply-side para que o insuficiente poder de compra actual esteja mais alinhado para os 85 por cento da população assalariada, que somos todos nós afinal.
E Marshall Auerback continua:
Mas talvez possamos encontrar uma bela ilha no Pacífico Sul para fins de redução de nossos problemas de desemprego nacional. Afinal, somos um povo civilizado, então nós certamente não queremos recorrer ao drástico (embora rentável!) expediente de extermínio em massa. (Sabendo que os trabalhistas com Brown apelaram aos fortes cortes no Sistema Nacional de Saúde da Inglaterra, sabendo os leitores portugueses deste texto que em Portugal já nem no Serviço Nacional de Saúde se deve falar porque deixou de existir, tememos que os governos neoliberais poderia literalmente fazer estes cortes profundos e têm os cirurgiões do país para fazer cortes mais profundos nos seus pacientes de modo a poder garantir que muitos mais destes pacientes possam morrer na sala de operações para ajudar a reduzir os custos com saúde). Ou então reduzir a actividade dos blocos operatórios, para os médicos descansarem…, para os blocos poder arejar, e esperar que os pacientes desapareçam, dizemos nós.
Em qualquer caso, a nossa proposta parece-nos “modesta” e em consonância com as aspirações orçamentais actuais dos governos em geral. Podemos começar com os desempregados de longa duração. Em seguida, os órfãos. E talvez esvaziemos as nossas prisões, se necessário, para obter enormes economias no nosso sistema de justiça criminal.
Se o governo está realmente a ficar sem dinheiro, melhor ainda é que ele comece a procurar uma solução definitiva do lado da supply -side com a redução do número dos seus cidadãos até que a proporção de dinheiro por cidadão é muito mais apropriado e a população activa passa então para 85 por cento do que era. .
Mas isto faz-nos lembrar o nosso governo a mandar quase toda a gente embora. Mas preguiçosos, não se deram sequer ao trabalho de procurar uma ilha qualquer deserta, como a ilha Deserta em Faro, onde poderiam meter toda a gente que estaria a mais neste seu sistema. Dir-me-ão que não cabem lá todos, mas não faz mal, morrem uns tantos e o número diminui, morrem os mais fracos, sobrevivem os mais fortes, para relembrar Daniel Defoe.
Mas pasme-se a União Europeia vai encontrar uma outra solução, não é a de emitir mais moeda, não senhora, é a aumentar a velocidade de circulação da quantidade de moeda disponível, aumentando o número de vezes em que cada euro possa servir de elemento de troca e para a mesma riqueza material. Como? Desde que pelo meio haja transacções imateriais, que não são nada mais do que transferências. Não precisamos de discutir como Carlos Fuentes com os homens da direita mexicana de que há muitos pobres e estes fazem descer o rendimento por trabalhador. Não senhora. A União Europeia tem a solução milagre. Sem custo, sem investimento adicional, como? Fazendo aumentar o rendimento. Como, sem investimento?
Para a resposta a estes como, vejamos uma revista do INE de Setembro de 2013:
“Também as atividades ilegais, como a prostituição e o tráfego e consumo de drogas, contribuirão para incrementar o PIB, pois deverão passar a ser registadas de forma explícita nas Contas Nacionais.” Em Espanha e nesta mesma linha será autorizado para a firma Las Vegas Sands Corporation criar o maior bordel da Europa, e para satisfazer as exigências do seu proprietário será criada legislação especial, inclusive laboral e fiscal!
Ora, se imaginarmos então um país a drogar-se, se imaginarmos um pais inteiro a prostituir-se, ou a intensificarem-se os actos sexuais por prostituta existente e com a crise o número destas a aumentar igualmente, o nosso rendimento subirá então de acordo com as novas normas da União Europeia, o rácio da dívida face ao PIB descerá, a austeridade poderá acabar, e os casos violentos como o que abaixo se descreve deixarão de existir, poderá à la limite dizer-nos um neoliberal.
Que saudades eu tenho das discussões à volta de Adam Smith do meu tempo de estudante, à volta de conceitos como trabalho produtivo e improdutivo. Nada disto tem a ver, como se vê, com os neoliberais de hoje, onde a prostituição é um rendimento, onde as receitas da droga serão igualmente um rendimento. E estão conformes com a supply-side, é valor tudo o que o mercado valoriza, mercado legal e ilegal, porque mesmo este último deve ser considerado em nome da soberania do consumidor. Ora como cada Estado membro paga cerca de 0,95% do seu PIB para Bruxelas estamos então o dinheiro implícito da prostituição e da droga a ir também financiar a Eurocracia em plena Euro-esclerose.
Mas isto pode não chegar. Mude-se então o método de cálculo do défice estrutural, de modo a que o PIB estrutural aumente e por essa via o défice estrutural, rácio entre o défice efectivo e o PIB estrutural que agora vem maior, por mais esta mudança do seu cálculo, venha pois mais baixo do que o défice agora calculado. Como assinala Matthew Dalton no Wall Street Journal :
“A nova metodologia proposta pela Espanha poderia reduzir para metade o seu défice estrutural estimado este ano e reduzi-lo em dois terços, no próximo ano, de acordo com o Ministério das Finanças espanhol. Isso poderia significar uma redução significativa no nível de austeridade que o sitiado povo espanhol terá de suportar.”
Sendo o défice estrutural mais baixo, temos mais uma força a reduzir a austeridade, mais uma força a levar a que casos como aquele que abaixo se descreve, dramaticamente verdadeiro, não voltem a acontecer. Isso é o que se pode depreender pelo lado da teoria dos homens que proclamam da supply-side e por tudo o que acima é dito quando visto de acordo com esta teoria .
Meu Deus que mundo estamos a fazer? O mundo que abaixo se descreve, com certeza. É contra tudo isto que a nossa revolta é infinita, que o silêncio ensurdecedor de tudo isto tem de explodir, é contra todos aqueles que este mundo assim organizam que temos de nos bater, para que situações como estas não voltem a acontecer. . . .
Júlio Marques Mota
Sobre Retratos de um pais, o de Portugal. E que fotografia meu Deus…
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Que horror haver tantos seres como esse Antonio neste mundo. Mas Lúcia, existe algo para além desta vida. Eu também não acreditava, mas tive uma experiência de passagem para outro mundo num colapso há 2 anos… Talvez lá haja mais justiça e menos sofrimento para os mais fracos. Que mundo…