Atividades não peripatéticas
Por viver na zona central de Lisboa, faço a maioria dos percursos a pé, em menos de meia hora chego a Alvalade, à Gulbenkian, a Santa Apolónia… Estudei os itinerários para evitar tal rua, desagradável ou sem interesse, caminhar na que tem sombra, uma vista, um prédio, um ambiente particular. Deste modo, para ir à Baixa, não desço a Almirante Reis, demasiado poluída, passo agora pela do Benformoso, mais fresca e silenciosa.
Por conseguinte, da rua Andrade ao Largo do Intendente, atravesso o espaço comercial das prostitutas; acelerava a princípio o passo temendo apanhar uma doença se nelas poisasse o olhar. Fui educada no horror destas mulheres, sua estupidez, sua vulgaridade, sua falta de brio, pressupunha eu sem verificar, por isso não obstante o feminismo me dizer – teoricamente – que cada um é dono do corpo e, de qualquer maneira, toda a gente, homens e mulheres, se vende, consistindo a diferença na escolha de quê, em que condições, com que sacrifícios, com que benefícios, caso escolha haja e não, como na maioria das existências, uma sucessão de acasos, eu vagamente calculava estas mulheres, sem as conhecer, mais nocivas, mais alienadas, mais perversas do que quem vende vida à função pública. Aconteceu porém um dia caminhar pela sombra – rara àquela hora – no passeio onde duas se encontravam sentadas nos seus bancos.
– Com licença…
– Faz favor.
Dali por algum tempo, respondi a uma saudação:
– Bom dia.
Esta troca trivial sugeriu-me que qualquer prostituta é uma mulher como as outras. Ou seja… Diferente de todas as outras. Comecei portanto a observar a realidade. Entre as comerciantes que por ali expõem o “sex appeal”, população instável, de súbito aparece, de súbito não volta a aparecer, há de facto duas que instalam o banco à porta do prédio onde residem, sempre visíveis no local de trabalho, decerto por terem poucos clientes, uma obesa, na viragem dos cinquenta, outra magra, perto dos sessenta anos, modestas no modo de vestir, na aparência donas de casa, sentadas ao sol, durante o inverno, à sombra, durante o verão, pacatas e não peripatéticas por o peso, a idade, a lassidão não ajudarem: duas vizinhas a conversar. A sua aparência é tão pouco atraente, tão pouco sensual, tão pouco viciosa, tão pouco provocante, tão pouco estrondosa, tão pouco transgressora que, se não as visse ali, cada dia, a qualquer hora, esteja frio ou calor, não acreditava serem trabalhadoras… Que carências, desequilíbrios, solidões, alienações, perversões impelirão os clientes a pagar para, durante quinze minutos, se deleitarem com uma mulher exausta? O filósofo Pascal escreveu que as misérias do homem são as de um fidalgo arruinado, as de um rei destronado… O quê? O pecado original? Balela… Na Mouraria a pobreza não se confronta com o mito: é apenas pobre.
