EDITORIAL – A TRAGÉDIA DE LAMPEDUSA

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A tragédia ontem ocorrida junto a Lampedusa, no Estreito da Sicília, não é a primeira do género. Nos últimos vinte anos, milhares de pessoas (fala-se em 25000) perderam a vida naquela zona tentando alcançar clandestinamente a Europa. Fugindo da guerra, de ditaduras brutais, de adversidades climatéricas, da miséria pura e simplesmente, milhões de pessoas têm abandonado os seus países e procuram atingir a Europa, atraídas por uma miragem de prosperidade e segurança. E esta vaga, gigantesca e trágica, parece não ter fim. Quem acompanha, mesmo de longe, a situação em África e no Próximo e Médio Oriente, percebe porquê.

Cerca da uma da manhã de hoje, 4 de outubro, tinham sido recolhidos 131 cadáveres e estimava-se em cerca de 200 o número de desaparecidos. O barco transportava cerca de 500 pessoas. Apenas 150 terão sido salvas. A maioria, tanto quanto se sabe, eram provenientes da Eritreia e da Somália, países que, como se sabe, atravessam transes difíceis. Como terão chegado às costas do Mediterrâneo, para se meterem num barco em mau estado, terá sido uma história que deveria ser pormenorizadamente averiguada. Entretanto, é de assinalar que há numerosas crianças e algumas mulheres grávidas entre os sinistrados, o que indicia que a maioria são famílias inteiras e não indivíduos isolados.

A Itália é um destino privilegiado destes migrantes, embora muitos também procurem a Espanha e outras costas. Mas o Estreito da Sicília é uma passagem muito procurada devido a permitir uma travessia do Mediterrâneo mais curta. Vejam em:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/05/26/estreito-da-sicilia-lampedusa/.

A Itália reclama, e com muita razão, que a Europa tem de ajudar neste problema. Parece haver pouca disposição nesse sentido, alegadamente por se temer que um apoio declarado aos migrantes, encoraje outros a também tomarem o caminho da Europa. Cecile Kyenge, ministra italiana da integração, tem sugerido a criação de corredores humanitários, para permitir uma maior assistência às pessoas e dificultar a acção predadora das redes de engajadores, mas o facto é que não parece haver disposição para investir nesse sentido.

Trata-se de um assunto que exige atenção intensa e constante. A Viagem dos Argonautas reedita elementos provenientes do Estrolabio para mostrar como este gravíssimo problema dura há tanto tempo, e parece agravar-se. Tem razão o Papa Francisco (há que dar razão a quem a tem) quando fala na globalização da indiferença.

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