(Continuação)
NÃO PODEMOS DIZER
(António Ramos Rosa, in “À Mesa do Vento seguido de As Espirais de Dioniso”, Guimarães: Pedra Formosa, 1997; “Antologia Poética”, prefácio, bibliografia e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 377-378)
Não podemos dizer
Cheguei aqui e inverter a perspectiva
olhando para trás
O solo nos solicita
e a sede de ser nos move para a frente
E é então que talvez reconheçamos o que fomos
entre os fragmentos dispersos da nossa identidade
Nós queremos sobretudo a relação mais viva
ainda quando sabemos que ela é incerta ou ilusória
As palavras desviam-se do que as excede ou as quer reter
mas elas querem corresponder com o seu lume frágil
ao que não conhecem mas pressentem para além das fronteiras silenciosas
Talvez toda a relação seja ilusória
mas poderá ser mais verdadeira do que a separação
Só a palavra adolescente não hesita embora trema
e caminhe nua sobre a linha da sua sombra
Tal é a maturidade do juvenil ardor
que abre o caminho que conduz às grandes águas
Quem escreve nunca está só na sua solidão de asceta
O espaço é de ninguém o espaço é ninguém
e de um só mas de um só em todos nós
O cantor modula a voz de mil vozes
O que no poema se move é um território de solidão comum
atraído pelo íman da unidade latente e latejante
Temos de ir ao extremo de uma solitária linha
mas é para voltarmos aqui ao ponto de partida
que já será outro começo e terá o timbre unânime das vozes
embora coadas pela espessura roxa da solidão
Estaremos então entre duas margens entre o princípio e o fim
e seremos mais do que fomos o que poderemos ser
ainda que não venhamos a ser senão o movimento de uma sombra
PASSAGEM
Poema: António Ramos Rosa (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Diogo Clemente
Intérprete: Ana Laíns* (in CD “Sentidos”, Difference, 2006)
[instrumental]
É onde escuto agora a própria casa.
Sou eu que escrevo este poema
Já onde estou agora e nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.
É onde escuto agora a própria casa.
É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.
É onde pouso a mão na terra calma.
É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e oiço o seu passar.
É onde escuto agora a própria casa.
[instrumental]
É onde escuto agora a própria casa.
* [Créditos gerais do disco:]
Guitarras acústicas – Diogo Clemente
Viola baixo – Fernando Araújo
Guitarra portuguesa – Bernardo Couto
Acordeão, piano e melódica – Ruben Alves
Violoncelo – Ricardo Mota
Percussão – Vicky (Hugo Marques)
Direcção musical, arranjos e produção – Diogo Clemente
Técnico de som – Fernando Nunes
Gravado, misturado e masterizado nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Janeiro e Fevereiro de 2006
PASSAGEM
(António Ramos Rosa, in “Voz Inicial”, Lisboa: Livraria Moraes, col. Círculo de Poesia, 1960; “Não Posso Adiar o Coração”, vol. I da Obra Poética, Lisboa: Plátano Editora, col. Sagitário, 1974)
É onde escuto agora a própria casa.
Sou eu que escrevo este poema.
Já onde estou agora nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.
É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.
É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e sou no seu passar.
Há um ofegar de terra na garganta
Poema de António Ramos Rosa (in “Ciclo do Cavalo”, Porto: Limiar, col. Os Olhos e a Memória, 1975 – pág. 36)
Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD “Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX”, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)
Há um ofegar de terra na garganta,
há um feixe de ervas que perfuma a casa.
O ar é solidez, o caminho é de pedra.
Procuro a água funda e negra de bandeiras.
Encho a cabeça de terra, quero respirar mais alto,
quero ser o pó de pedra, o poço esverdeado,
o tempo é o de um jardim
em que a criança encontra as formigas vermelhas.
Vou até ao fim do muro buscar um nome escuro:
é o da noite próxima, é o meu próprio nome?
* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel
Não tenho lágrimas
Poema: António Ramos Rosa (in “A Intacta Ferida”: Lisboa: Relógio d’Água, 1991)
Música: António Pinho Vargas (ciclo “Nove Canções de António Ramos Rosa”)
Intérpretes: Rui Taveira (voz) & Jaime Mota (piano) (in CD “António Pinho Vargas: Versos”, Strauss, 2001)
Não tenho lágrimas
estou mais baixo
junto à cal
Vejo o solo extinto
não oiço ninguém
e não regresso
Adormecer talvez
junto a uma estaca
com uma pequena pedra
sobre as pálpebras
Não era um barco
Poema: António Ramos Rosa (in “A Intacta Ferida”: Lisboa: Relógio d’Água, 1991)
Música: António Pinho Vargas (ciclo “Nove Canções de António Ramos Rosa”)
Intérpretes: Rui Taveira (voz) & Jaime Mota (piano) (in CD “António Pinho Vargas: Versos”, Strauss, 2001)
Não era um barco
nem uma guitarra
era uma pedra
que girava na sua fronte
Anoitecera
alguém cantava sobre um muro
a pedra
girava.
(Continua)
