De Coimbra a Boliqueime, a mesma realidade
O Presidente da República Portuguesa disse-nos há dias que era masoquismo pensar num segundo resgate para Portugal. Tudo bem, é o seu ponto de vista como economista mas como Presidente da República não tem o direito de nos chamar a todos nós, masoquistas ou até mesmo estúpidos, o que aqui seria equivalente. Na opinião do nosso Presidente é pois estúpido e errado andarmos angustiados ao considerarmos que o governo será incapaz de nos levar aos mercados para se financiar e sem a mão forte do BCE, a garantir a aquisição dos títulos. Essa é a sua certeza e com ela quer-nos então garantir, senhor Presidente, que não haverá nenhum segundo resgate. A certeza do Presidente advém do facto de que o governo, o governo da sua confiança, com as suas políticas de forte austeridade levar-nos-á à situação de solvabilidade financeira e até pela via mais rápida possível. Portanto, essa hipótese do segundo resgate deve ser liminarmente excluída ou só aceite por gente masoquista, gente estúpida.
É esta análise que se depreende das suas declarações, senhor Presidente, mas dito de uma outra forma, o que o senhor Presidente nos está a dizer é que tenhamos confiança no seu governo, por si defendido com unhas e dentes, diremos, porque este nos vai levar garantidamente a bom porto. Mas é evidente que quando alguém considera que todos os outros são ignorantes, uma conclusão se tira: alguém para lá de todos os acusados será então o verdadeiro ignorante da história. Disso, não se pode ter dúvidas, ou então qual a lógica da Democracia?
Senhor Presidente, aqui se apresenta uma tese que é totalmente oposta à sua, a de um Presidente, que assiste impávido e sereno à destruição do seu país e por um governo que considera seu, escrita por um homem que desde há muitos anos conhece bem os corredores do poder em França, quando esse poder é exercido pela direita, e autor de uma obra extensa entre a qual saliento a edição em português do livro Globalização – O Pior Está para Vir de que sou um responsáveis pela revisão científica.
Senhor Presidente, ontem, tive vergonha pelo pais que é o meu quando tive que enviar uma carta registada. Residente nesta cidade, Coimbra, há perto de quarenta anos, tive de procurar na rua onde era a “estação” dos correios. E a “estação” era no fundo de uma tabacaria onde sou recebido por alguém que não vê uma letra a mais de 15 centímetros dos seus olhos. Recuamos a tempos bem mais longínquos que os tempos de Salazar. A estação dos Correios da minha terra nos confins do mundo, na Beira Baixa, nos anos 50, tinha mais dignidade do que esta dita “estação”. Será possivelmente a mesma coisa em Boliqueime, no Algarve, mas aí garantidamente não teve a coragem de perguntar a ninguém se estão contentes com o governo que é o seu e que a todos nós com o apoio da Troika e a chantagem de Durão Barroso se vai impondo ao povo português. Assistimos pois a uma grande empresa pública desfeita em pedaços e com o seu núcleo mais duro a poder ser, depois, vendido em saldo. Mas mais grave que isto, os colaterais, os serviços como este, são distribuídos pelas tabacarias a preço de escravos! Imagine-se um “associado dos correios” que aceitou ser “associado” por 150 euros por mês. Este descobre depois que para fazer o serviço precisaria de ter uma empregada! E davam-lhe 150 euros, senhor Presidente, e tudo isto é feito sob o seu próprio governo e sob a sua cumplicidade. Um país vendido em saldo, mas mais grave que isso, a procurar fazer do seu povo um país de escravos, e diz-nos então que confiemos no seu governo. Como, se para isso é preciso primeiro ter confiança em si, senhor Presidente?
Aqui está pois um texto que nos diz o oposto do declarado pelo governo português e pela voz da sua mais elevada personalidade, o Professor Aníbal Cavaco Silva. O texto que aqui apresentamos é uma entrevista feita a Patrick Arhus, um homem perto, muito perto mesmo da direita francesa, bem habituado a frequentar o gabinete do Ministro das Finanças em Franças ou até a residência oficial do Primeiro-Ministro quando reinava Sarkozy. Em síntese veja-se o que ele responde ao jornalista quando este lhe pergunta:
Não há nenhuma outra maneira para permitir que os países em dificuldade na zona euro possam honrar os seus compromissos?
A sua resposta é contundente e não nos deixa margens para dúvidas. Aqui vos deixo a sua resposta.
“Em termos absolutos, pode-se sempre ser solvável . Basta pura e simplesmente suprimir a despesa pública e aumentar os impostos. Mas fazendo isso está a matar o seu potencial de crescimento. Porque certas despesas públicas como as despesas em capital, são úteis. Levantando-se a questão do incumprimento, deve-se perguntar se é realmente sensato tentar ser solvável face a tais níveis de endividamento . Tendo em conta a situação dos níveis de endividamento de que estamos a falar , nenhum país poderia ter a coragem, ou a inconsciência, de querer ser solvável. Não estamos aqui a falar da França. O tema aqui, por enquanto, é Portugal.”
Tudo dito, senhor Presidente, relativamente à eficácia das políticas de austeridade impostas pela Troika e por si defendidas como a saída para chegar aos mercados. Enquanto nos vai dizendo que vamos a caminho do melhor dos mundos possíveis, resta-nos a certeza de que vamos a caminho de nos transformarmos então no lixo dos mercados. Mas é quase tudo assim, como diz, com a diferença que se enganou apenas no adjectivo a utilizar, pois no quadro do modelo europeu de onde não conseguimos sair, as políticas governamentais por si apoiadas terão como finalidade, já depois de bem espoliados do nosso património, a nossa transformação em lixo dos mercados e é então o pior dos mundos possíveis aquele que sob a sua autoridade nos está a ser imposto.
Coimbra, 6 de Outubro de 2013.
Júlio Marques Mota
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Amanhã, também às 13 horas, A Viagem dos Argonautas publica a entrevista a Patrick Arhus.

