EDITORIAL – CONVERSA EM FAMÍLIA? ENTREVISTA DOMESTICADA.

Imagem2É uma tentação dos políticos mal-amados tentar captar simpatias, usando a televisão. Marcelo Caetano desfiava os monólogos a que chamava “conversas em família”. Tranquilamente ia rebatendo as questões mais pertinentes que os adversários políticos, as oposições, colocavam. «Demonstrava» como era patrioticamente indispensável continuar a Guerra Colonial e à luz da sua lógica corporativista, anti-democrática, colonialista, tinha toda a razão.  Seguindo um padrão internacional, pois parece que Rajoy e Obama também entraram em programas semelhantes, Passos Coelho foi  entrevistado em directo por 20 portugueses. Nem uma conversa em família em que só um fala, nem entrevistas como esta de anteontem, convencem seja quem for.  Manobras de baixa extracção, eis como podem ser classificadas encenações como aquela a que assistimos na passada quarta-feira.

Temos a transcrição integral de perguntas e respostas. Não dizemos que quem fez as perguntas, as fez de forma desonesta; mas dizemos que a organização do programa se fez em ordem a permitir ao primeiro-ministro justificar ponto por ponto as medidas vergonhosas do seu executivo. Não pomos em causa a honestidade de quem perguntou – mas o programa foi uma farsa, um festival de eufemismos e de mentiras – tudo submetido à lógica mais do que discutível de que «a dívida» tem de ser paga e a pressupostos que só o bando governamental aceita.. Que manipulações serão necessárias para que se possa afirmar que a contribuição extraordinária de solidariedade atingiu “menos de 3% dos aposentados e reformados do país”.?

Naturalmente que 20 entrevistadores que pusessem as coisas como elas são, não permitiam que se realizasse um programa de televisão, pois seria uma zaragata com intervenção policial.. 20 cidadãos espoliados, indignados, não teriam o comportamento civilizado que aquela pseudo-amostragem ostentou, nem fariam perguntas para as quais Passos Coelho tivesse respostas preparadas.  E terminou com a afirmação de que Machete não será demitido.  Na realidade, se aceitamos como boa a política de assalto aos contribuintes mais vulneráveis, por que se iria demitir Machete? Demitir Machete, pressupunha um escrúpulo moral que não teria permitido nomeá-lo e que obrigaria à demissão de todo o governo. E não só.

 Nem de propósito, circula hoje pela rede uma frase de Miguel Torga: « É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, como, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados».

2 Comments

  1. Em entrevista ao DN, uma ingénua participante na acção de propaganda do PM, encenada pela já domesticada Direcção de Informação do Serviço Público de TV (ainda que, para o escândalo ser maior, a aberração tenha sido também transmitida pela Antena 1, portanto com o consentimento do respectivo Director de Informação -e/ou de Programas), professora de Biologia, relata como foi “escolhida”: «Telefonaram-me, fui a um “briefing” [palavra?!…, pergunto eu, que vivo em Portugal] e gostaram da minha pergunta» (sic). Mas não é que, apesar do tal brifingue, de cuja descrição se conclui que as perguntas de TODOS os participantes já eram do conhecimento da DI/RTP, o respectivo DI referira, em declarações anteriores, a realização de uma reunião prévia, “só para evitar perguntas repetidas”… Ahn?! Alguma coisa está mal contada, nesta história. E não é, decerto, pela professora…
    A senhora também explicou que «A única coisa que nos foi pedida foi para não entrarmos em diálogo. A certa altura eu digo ‘se é que há classe média”, e o Carlos Daniel já me estava a ralhar» (sic).
    Já tinha a certeza de que, com este processo de “escolha”, jamais me caberia a “honra” de ser seleccionado para uma pepineira destas. Confirma-se.
    Claro que ninguém que me conheça me estaria a ver a ficar calado, com o PM a desviar-se da pergunta que eu lhe fizesse (e que, provavelmente, não seria exactamente a de que os manipuladores estariam à espera); como, quanto a potência de voz, não creio que o Carlos Daniel chegue para mim e sou, mesmo, capaz de alcançar microfones que não estejam perto… o programa deveria acabar logo ali… Mas, tranquilizem-se os manipuladores, pois tal nunca seria possível: os seleccionadores podem não ser inteligentes, mas os programas informáticos que lhes enfiam nas monas chegam para perceber quem não devem mesmo seleccionar. E confesso que reconheço não pertencer a nenhuma categoria minimamente representativa desta gente conformada e submissa, que constitui, nitidamente, o tipo de cidadão comum” elegível para estas encenações.
    Ah! A senhora professora, desempregada e com dois filhos, ainda afirmou: «Achei que o tom do primeiro-ministro foi muito agradável, muito educado. Gostei» (siiic!!!!)
    Ela gostou! E, se calhar, os outros também, na melhor das hipóteses, apenas pelo deslumbramento provocado pela sua aparição nos ecrãs.
    Portanto, confirma-se que estava tudo devidamente controlado e “em família”.
    Ainda li umas declarações duns “espertos” (na acepção castelhana), considerando que, com uns ajustes, o programa até é jeitoso. Ou são declaradamente parvos ou fazem-se…
    O DI/RTP afirmou que o monstrinho não tinha periodicidade definida, seria agendado quando se considerasse oportuno, destinava-se a figuras importantes – ou lá o que é – da “sociedade portuguesa” e, para já, fechava os taipais com a “audição” do Seguro do PS.
    Um programa deste tipo, aparentemente reservado aos “líderes” do poder e da oposição (ao Seguro ninguém lhe conferiu tal título, a não ser um catrefada de “jornalistas” que desistiram de exercer efectivamente a profissão), com o objectivo indisfarçável de lhes dar tempo de antena, será sempre inútil, ainda que abandone o estatuto de “clube de elite” de lordes ingleses que se outorgou à nascença (confere, deve ser coisa de “linhagem nobre”). Não acrescenta nada que já não tenha sido dito pelas excelências perguntadas, não passa, como bem diz o nosso editorial, de uma “conversa de família”, com a presença de uns perguntantes (lamento dizê-lo, mas não encontro fórmula mais branda) amestrados. Também não ponho em causa a honestidade de quem perguntou – embora tenha de fazer algum esforço para alargar esta benevolência a todos -, mas ponho em causa a sua inteligência, cuja mediocridade deve ter sido elemento fulcral de selecção.
    Eu também não acredito em bruxas, “pero que las hay”…
    A administração e as direcções do ex-serviço público de rádio e TV já perderam qualquer resquício de vergonha, assumindo, sem pudor e simultaneamente, a sua incompetência e a sua subserviência ao poder político. Encomende-se um Requiem pelo defunto. De preferência, a um compositor nazi, para não destoar.

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