OU ROMPEMOS DE VEZ COM O EURO, OU O EURO DEVORA-NOS, COMO POPULAÇÕES – por Mário de Oliveira

 Transcrito, com a devida vénia, do jornal FRATERNIZAR de 11 de Outubro, com a expressa autorização do autor

Porque esta Europa que temos e em que estamos inseridos é a Europa do Euro, e não, como deveria ser, a Europa das cidadãs, dos cidadãos, nunca ela será parte da solução para os problemas das respectivas populações, apenas parte do problema. Pior, o problema, com que, nesta altura, nós, as populações da Europa, estamos todas confrontadas. Ou rompemos de vez com o Euro, ou o Euro devora-nos, como populações. Pode manter-se o continente físico, mas sem populações, cidadãs, cidadãos de corpo inteiro, sujeitos das suas vidas e protagonistas dos próprios destinos.

Dizer, Euro, é mais, muito mais do que referirmo-nos à simples moeda. O Euro, moeda, é apenas o rosto ou a efígie do Poder financeiro global, no caso, do Poder financeiro deste nosso velho continente, prisioneiro do cristianismo e totalmente formatado pela sua ideologia e pela sua idolatria, inimigas, uma e outra, da realidade mais real, que somos nós os seres humanos consciência. Como toda a ideologia e idolatria, também a ideologia e a idolatria do cristianismo odeiam os seres humanos. Só os reconhecem como servos da gleba ou escravos, sem direitos, apenas deveres; ou como servos executivos de luxo ao serviço do Poder financeiro, sem deveres, só direitos, privilégios e mordomias.

 Não há volta a dar-lhe. Seremos politicamente ingénuas, ingénuos, se pensarmos o contrário. O Poder financeiro é global, mas simultaneamente continental, em cada um dos diversos continentes habitados e mesmo não habitados. Ambiciona ser o único senhor e dono do planeta Terra e do próprio universo, ainda em expansão. E jamais desistirá, enquanto o não decapitarmos, de concretizar esta sua ambição. Para isso trabalha cientificamente, dia e noite, 24 horas sobre 24 horas. Na Europa, tem, neste momento, rosto de mulher, a senhora Merckel, a mais poderosa no continente, mas nem por isso deixa de ser macho. Que o Poder é sempre macho. E um macho incapaz de relação, por isso, estruturalmente estéril, no que respeita, concretamente, à geração de filhas, filhos, de mulher. Mas já extremamente fértil, no que respeita à multiplicação do Dinheiro, por isso, do Poder financeiro. Nesta área, é imbatível. Desde que deixamos que ele tomasse as rédeas da Economia, da Política e do Religioso, nunca mais temos mão nele. Amarrá-lo, é impossível. O mais que podemos, é decapitá-lo, antes de mais, nas nossas próprias mentes, onde ele, como um ladrão, já entrou e se alojou. E, mesmo esta decisão, a única que está nas nossas mãos executar, torna-se, cada dia que passa, mais impossível, de tão possessas, possessos que estamos por ele.

 Somos cristãs, cristãos, e está tudo dito. O Cristo/Poder tem-nos por completo na sua posse. Faz de nós gato-sapato. E nós, tudo suportamos, devido à convicção que nos inocularam – nos infantários, nas catequeses paroquiais católicas ou protestantes, nas escolas, nas universidades, nas IPSS, nos Centros paroquiais e sociais, nos grandes media – de que todo o Poder vem de Deus. Nisso, o fariseu Saulo/Paulo de Tarso, canonizado pelo cristianismo como S. Paulo, não se equivocou. Só se equivocou a respeito do Deus, do qual diz que procede todo o Poder. Tem em mente o Deus dos seus antepassados. Concretamente, o Deus da casa real de David/Salomão, o rei vencedor. A qual, quando derrubada por um outro Poder, pelos vistos, ainda mais poderoso que o dela, e aconteceu o exílio na Babilónia, passou logo a anunciar aos vencidos e completamente decepcionados com o seu Deus, que, num futuro, não muito distante, Ele faria surgir um novo “filho de David”, definitivamente, invicto, em relação a todos os seus inimigos, inclusive, a Morte, o último inimigo a ser vencido, no delirante dizer de Paulo.

 Pois bem, é esse mítico “novo David”, invicto, cognominado o Cristo/Messias, que está na origem do cristianismo. E cujo Deus é o Dinheiro ou Poder financeiro. O mesmo, disfarçado de múltiplos nomes, e que já vem desde os primórdios da humanidade, quando começaram a surgir as religiões e os sacerdotes, intermediários entre as populações e as deusas, deuses. E que no cristianismo, como no islamismo e no judaísmo, é um só, macho e todo-poderoso. Quando, historicamente, se torna trindade, como sucede no cristianismo, é sempre e só a trindade dos Poderes. Três poderes distintos, mas um só verdadeiro – o Poder financeiro. O pleno do machismo, do estéril, do só, todo Mentira e Assassínio. No caso da Europa, o senhor Euro! Felizmente, o cristianismo não tem a última palavra na história. Como, de resto, o Poder financeiro que dele decorre, também a não tem. A última palavra é das vítimas do cristianismo e do Poder financeiro em que ele se tornou.

 Esta revolucionária revelação, boa notícia, é o próprio Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, na Galileia, o filho de Maria, não de David/Poder. A Europa e os demais continentes que constituem o planeta Terra, têm, temos, de regressar a Jesus e acolhê-lo/praticá-lo. Bem como ao seu Projecto político maiêutico de sociedade, ainda em edificação na História. E que se materializa numa sociedade de mulheres e de homens, com Deus Abba-Mãe, o de Jesus, a habitar-nos, mais íntimo a nós que nós próprios, e a potenciar-nos, de dentro para fora, para sermos progressivamente sujeitos e protagonistas, sem nenhum espaço para intermediários, sacerdotes, executivos, templos, santuários. Todos assumidamente fragilidade consciência, por isso, vasos comunicantes uns com os outros, cada vez mais humanos e sororais.

 Ou assim, ou o nada! Que o Poder financeiro, e com ele o Euro, só está aí para roubar, matar e destruir. Não só a vida humana. Todo o tipo de vida! Cabe-nos decidir. Ou decidimo-nos pela via do Cristo/Poder invicto, Poder financeiro. Ou pela via de Jesus, a Política maiêutica praticada, vasos comunicantes.

ND.

Esta é, em síntese, a “tese” que atravessa todo o meu novo Livro, JESUS SEGUNDO JOÃO. O 4.º EVANGELHO TRADUZIDO E ANOTADO COMO NUNCA O CONHECEMOS, Seda Publicações, Porto, Outubro 2013.

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